Escritores apresentam a inveja, o seu oposto e a poesia libertadora

O célebre episódio do eventual roubo de um manuscrito de Luís de Camões serviu para Carlos Morais José dar asas à imaginação e partir à procura do hipotético autor desse crime. Quase em contrapartida, José Manuel Simões trouxe dos seus tempos passados com uma tribo indígena no Brasil uma visão de bondade e harmonia com a natureza.

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Fotografia: Eduardo Martins;

Rodrigo de Matos

Do latim “in vedere” (não ver), a inveja é um sentimento nocivo que chega a tolher a percepção de quem a experimenta em doses acentuadas – daí a expressão “cego de inveja” – e é à volta dela que se desenrola o romance “O Arquivo das Confissões – Bernardo Vasques e a Inveja”, de Carlos Morais José. O escritor e jornalista falou ontem da sua obra na abertura da sessão “Autores e os seus Livros”, um dos eventos do derradeiro dia da edição de 2017 do Festival Literário de Macau – Rota das Letras.

Por volta de 1570, numa altura em que Luís de Camões se encontrava na Ilha de Moçambique, foi-lhe roubado o manuscrito “Parnaso”, que seria, na descrição do historiador Diogo do Couto, um “livro de muita erudição, doutrina e filosofia”. Na obra de Carlos Morais José, o protagonista Bernardo Vasques é ninguém menos do que o homem que eventualmente teria roubado esse livro. E se os jesuítas tivessem criado um arquivo das confissões que lhes eram feitas na altura? Essa é a premissa para a construção de uma narrativa que começa com um aparente prenúncio de se desenvolver num típico romance histórico, para acabar por romper com as regras do género e se tornar, num exercício multifacetado e original, um tratado sobre a natureza humana e o seu lado mais sombrio:  “A inveja de ontem não é a mesma de hoje”, considera o escritor e jornalista, director do Hoje Macau. “Vivemos uma sociedade competitiva, não pelos valores humanos, mas pelo lucro. É uma inveja quantitativa e não qualitativa. Perceber a força que ela pode ter e até que ponto pode influenciar os acontecimentos foi a minha intenção”, admite. O autor considera que a inveja, no entanto, “não é propriamente resultado da natureza humana, mas sim da forma como nos relacionamos”.

 

O Facebook dos índios

 

Nos antípodas desse tipo de sentimento, os índios potiguaras do Brasil – descendentes de uma das etnias tupis que por mais tempo resistiram à aculturação de matriz europeia – demonstraram um desapego dos bens materiais e um amor ao próximo que conquistaram o jornalista e académico José Manuel Simões, no tempo em que viveu com uma tribo, entre os anos 2002 e 2003. O livro “Deus Tupã” é “uma homenagem a um povo que me acolheu e me mostrou uma nova forma de abordar a vida, que descrevo como um regresso ao ventre materno”, explicou o docente, que coordena o Departamento de Comunicação e Média da Universidade de São José. “Aqueles índios são pessoas que vivem um contacto e uma harmonia com a natureza que chega a ser transcendentais”, considera o autor. José Manuel Simões admite a influência que a experiência que partilhou com os potiguara teve sobre a sua maneira de ser, pela dimensão espiritual que extraiu daquela experiência.

Relembrando o tempo em que viu a electricidade e o primeiro aparelho de televisão a chegarem à aldeia para revolucionar a forma como aqueles índios viviam, o escritor sublinha que, na última década, a vida da tribo terá mudado mais do que ao longo de séculos: “Hoje em dia, tenho índios, com os seus cocares de penas e pinturas faciais, a pedirem-me amizade no Facebook”, notou.

Partilhar foi o que fez também o poeta António MR Martins, ao apresentar o seu livro “Empresta-me a Palavra” e uma dimensão libertadora da relação com a escrita. “Há poemas que escrevo que nem eu os entendo”, referiu o autor, sublinhando a importância de “dar ao leitor a oportunidade de perceber e interpretar o que está nas entrelinhas”.

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