A nomeação para o Man Booker Prize chegou com um crime nas Terras Altas

Graeme Macrae Burnet apresentou ontem “His Bloody Project”, no Rota das Letras, o romance policial que lhe valeu a nomeação para o Man Booker Prize em 2016. Um reconhecimento que lhe mudou a vida, confessa o escritor escocês. Tanto mais que a editora, ínfima, que publicou a obra nem sequer dispunha de orçamento para a divulgação do livro.

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Fotografia: Eduardo Martins;

Sílvia Gonçalves

A nomeação para o Man Booker Prize chegou-lhe com o segundo livro, “His Bloody Project”, um romance com o crime ao centro, que narra as memórias escritas por um lavrador, acusado de cometer um triplo homicídio revestido de brutalidade numa aldeia remota das Terras Altas escocesas, Culduie. A negritude da narrativa contrasta com o sentido de humor cortante do autor, Graeme Macrae Burnet, que ontem passou pelo Rota das Letras para dar conta da atmosfera criminal que atravessa os seus dois primeiros livros. O escritor escocês assume uma atracção inevitável pela pesquisa, pelo exercício excitante de escavar os arquivos, de avançar sobre as cartas escritas por condenados, e deles extrair matéria vital para a construção de personagens.

Um cruzamento entre romance policial e ‘thriller’ psicológico dá forma a uma história passada em 1869, que desfia as memórias de um jovem de 17 anos, Roderick Macrae, narradas no cárcere, enquanto aguarda pelo julgamento. A história é descoberta pelo autor quando procurava desvendar as origens da sua própria família, originária das Terras Altas escocesas. As provas compiladas, ficcionadas por Burnet, permitem a construção de um retrato histórico da sociedade rural escocesa de então, num romance focado numa realidade local que conquistou um expressivo sucesso internacional: “Além de escritores, nós somos antes de mais leitores. Se o romance não conectar as personagens com as pessoas, as pessoas não se vão relacionar com elas. A história passa-se numa pequena aldeia e saltou para o mundo. Os leitores levam a sua experiência pessoal para o que leêm”, conta Burnet, natural da cidade industrial de Kilmarnock, e actualmente a residir em Glasgow.

O escritor, que em 2013 recebeu o Scottish Book Trust New Writers Award pelo seu primeiro romance, “The Disappearence of Adèle Bedeau”, confessa-se “muito influenciado por Georges Simenon”, uma contaminação que assume estar particularmente presente no primeiro romance. Burnet assume-se ainda um devoto da investigação em arquivos, pela imersão em velhos documentos, cartas, jornais, de onde retira matéria primordial para a construção de um enredo atravessado de emoções que colocam os leitores em suspenso: “Gosto muito de fazer pesquisa, de ir escavar aos arquivos, aos jornais. É muito excitante, ler cartas escritas por condenados”. Uma tal atracção justifica a inclusão na narrativa de figuras reais, imortalizadas nos anais da história criminal escocesa: “Em ‘His Bloody Project’, a personagem do psiquiatra [James Bruce Thompson] é real, ele escreveu muitos artigos sobre psicologia criminal”. Thompson era um indivíduo com firmes convicções sobre a natureza e características do criminoso, “com a ideia de que os criminosos nascem com esse instinto”, conta o autor.

Graeme Burnet rejeita a ideia de uma planificação prévia à construção do romance, preferindo deixar-se arrastar pela evolução narrativa imposta pelas personagens: “O romance policial é baseado na estrutura, mas não há necessidade de crime num policial. Eu não planeio as coisas, tenho receio de que, se o fizer, este se torne esquemático, que eu fique condicionado. No julgamento do ‘His Bloody Project’, enquanto escrevia as últimas cenas, eu estava surpreendido com o que estava a acontecer, não previ que a história fosse evoluir assim”, admite.

O escritor manifesta ainda o espanto perante a nomeação para um dos mais relevantes prémios literários da actualidade, tanto mais que a sua editora, de pequena dimensão, nem sequer dispunha de orçamento para a divulgação da obra: “A menos que sejas um grande nome, é sempre uma surpresa que um livro seja incluído no Man Booker Prize. Este livro foi publicado por uma editora escocesa onde trabalham duas pessoas. O orçamento do meu editor para o marketing era zero. Foi surpreendente, mas pensei: ‘Por que não eu? Trabalhei tão arduamente neste livro’. E tem sido maravilhoso desde então, uma mudança de vida”, confessa o escritor.

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