“O impacto da Revolução Cultural dura para sempre, nunca desaparece”

O escritor chinês Yu Hua cresceu durante a Revolução Cultural, período histórico que atravessa toda a sua produção literária. Sobre a época e sobre os mecanismos da censura, falou ontem o escritor, numa conversa alargada com a imprensa, no festival Rota das Letras. O autor elencou ainda as referencias literárias que o envolvem. E confessou: “Kafka salvou-me a vida”.

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Fotografia: Eduardo Martins;

Sílvia Gonçalves

A Revolução Cultural Chinesa atravessa o corpo literário de Yu Hua e foi sobretudo esse período histórico, um dos mais conturbados da história da China, que o escritor ontem abordou numa conversa enquadrada no festival Rota das Letras. A campanha ideológica levada a cabo pela República Popular da China a partir da década de sessenta coincidiu com o arranque da escolaridade do autor, o que explica que a contaminação na escrita se imponha de forma espontânea e inevitável, algo a que, assume, não pode escapar. Um exercício contínuo com que procura ainda contrariar o desconhecimento das novas gerações. Yu Hua diz ainda que é no território da não-ficção que se torna mais difícil contornar os mecanismos da censura, o que não trava a produção literária, cada vez mais difundida através da internet.

“Há muita censura, mas na ficção podemos usar muitas estratégias para encobrir, podemos criticar alguém de forma explícita. Na não-ficção é muito difícil, porque temos que nos referir a alguém directamente”, referiu ontem Yu Hua. O escritor explicou ainda o modo como a circulação  das obras contorna hoje os meandros da censura a que os autores estão sujeitos, e deixou um exemplo: “O livro ‘China in Ten Words’, acabei-o na mesma, pois poderia ser publicado em Taiwan ou em Hong Kong. E as pessoas levam depois os livros para a China continental, eles chegam à internet, podem ser lidos em pdf”.

Quando questionado sobre se é importante, enquanto escritor, abordar o actual momento político do Continente, Yu Hua alarga o espectro à dimensão da imprensa: “Todos, sejam chineses ou não, têm o direito de escrever sobre a China. O Governo chinês é muito infantil, a imprensa estrangeira não pode falar mal da China, mas a China pode falar mal da imprensa. Cobrir o que é negativo é o valor universal da imprensa, o Governo não compreende o papel da comunicação social”.

O autor de títulos como “To Live”, “Chronicle of a Blood Merchant” ou “Brothers” apontou a independência como a principal qualidade do escritor: “Um bom escritor tem que ter independência e espírito crítico. Ser independente na China é o mais importante, mais do que a crítica”.

Sobre o facto de a Revolução Cultural Chinesa estar muito presente na sua obra literária, Yu Hua justifica com uma ligação temporal que lhe atravessou todo o seu tempo de escolaridade: “Eu cresci neste período, a revolução começou quando entrei para a escola primária. É o meu período educacional, e o nosso entendimento do mundo é pela educação. Eu cresci na Revolução Cultural, da minha infância à adolescência, quando acabou eu tinha 17 anos. É natural, é espontâneo, inevitável, algo a que não posso escapar”. Já as gerações subsequentes, diz, são profundamente desconhecedoras de um período histórico que mudou a face da China: “Hoje os jovens nada sabem sobre isso. A China está a tentar apagar esta parte da história. No ano passado foi o aniversário dos 50 anos da revolução, pensei que haveria muita cobertura e não saiu nada. As novas gerações não sabem nada, não estão interessadas. Se quisermos apagar a história, a história vai voltar”, defende o autor. “O impacto da Revolução Cultural dura para sempre, nunca desaparece”, assinala.

Yu Hua diz-se influenciado por uma panóplia alargada de escritores, e não tem dificuldade em assinalar os que posiciona no topo: “O autor que mais me influenciou foi o japonês Yasunari Kawabata [que recebeu o Nobel da Literatura em 1968]. Mais tarde senti-me restringido por ele, pois estava a imitá-lo. O [Franz] Kafka salvou-me a vida, é o meu segundo professor. Deu-me asas para voar. O terceiro é o [William] Faulkner, ensinou-me que é muito simples, uso os meus olhos para ver, são como mestres no retrato”. Para Yu Hua, “o impacto de um escritor noutro é como o impacto do sol numa árvore. Motiva o escritor a tornar-se ele próprio, a desenvolver o seu estilo”.

Se na China actual sobram os temas sobre os quais recair na construção do romance, entende o autor que a dispersão pode destruir a narrativa: “Na China contemporânea há tanto sobre o que falar. Fazer escolhas implica abandonar outras, isto dá-me dores de cabeça. O que preservar? Num grande romance só podemos resolver um problema. Não podemos ser gananciosos, corremos o risco de perder tudo”, defende Yu Hua, e assume: “A parte mais difícil da escrita é que temos de abandonar algumas coisas. Isso dá-me dores de cabeça”.

O regresso do autor à circunstância política que lhe atravessou a juventude repete-se ao longo da conversa com a imprensa. Conta que os pais eram médicos, que a observação de cirurgias lhe permitiu o confronto regular com a morte, um embate que não se circunscrevia ao hospital: “Durante a Revolução Cultural vi alguém ser espancado até à morte. Não podia escapar à violência, ela assombrava-me. Ainda se vêem psicopatas que cantam as músicas da revolução, foram perseguidos. Quando descrevo os lunáticos nos meus livros, que cantam, essas são as sombras da Revolução Cultural. Depois da revolução, ainda a sentia, por isso os meus livros estão cheios de sangue”, conta.

Sobre o próximo romance, a narrativa começa a desenhar-se, mas não conhece ainda finalização: “Tenho o início, não tenho o fim”. E que problema pretende resolver agora? “Quero resolver um problema histórico”, sumariza, deixando tudo o resto por desvendar.

 

 

 

 

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