E depois do Tony Award? Garry Hynes segue em frente e reinventa-se

Foi a primeira mulher a conquistar um Tony Award para a Melhor Encenação, em 1998, com a peça “The Beauty Queen of Leenane”, assinada por Martin McDonagh. Garry Hynes passou ontem pelo Rota das Letras, onde defendeu que se uma peça for boa, é impossível que o público não seja tocado por ela.

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Fotografia: Eduardo Martins;

Sílvia Gonçalves

Fundou em 1975 a Druid Theatre Company, em Galway, na República da Irlanda, de que é directora artística. Em 1996 aparece-lhe na caixa do correio o texto de um jovem dramaturgo – Martin McDonagh – que acabaria por levar ao palco e que lhe valeria, dois anos depois, o Tony Award para a Melhor Encenação, tendo sido a primeira mulher a ser distinguida nessa categoria dos prémios que constituem a mais alta distinção no teatro norte-americano. Garry Hynes esteve ao final da tarde de ontem no café das Letras, no edifício do Antigo Tribunal, onde disse ser não uma criadora, mas uma intérprete e confessou o desejo de avançar – depois de ter experimentado a ópera –  sobre a linguagem do cinema.

Naquele dia, à caixa de correio chegaram três propostas para outros tantos dramas. Entre elas, a peça “The Beauty Queen of Leenane”, escrita pelo então jovem Martin McDonagh, que Garry Hynes acabaria por eleger: “O que vi primeiro na peça de Martin? A sua habilidade para o diálogo, pelas palavras em que parecia que as pessoas estavam a falar umas com as outras. Na maioria dos novos guiões as pessoas não parecem estar a falar. À noite, li a peça em voz alta, na minha mesa de jantar e percebi que ela ia funcionar em palco”, explicou ontem a encenadora irlandesa, numa sessão designada “Antes e depois do Tony Award – Entrevista com Gary Hynes”.

Levada a palco em co-produção, a peça rapidamente chegou ao West End londrino, chamando a atenção dos críticos. Seguiram-se os produtores norte-americanos, que procuraram impor restrições à companhia: “Os produtores queriam a peça, mas não com os actores irlandeses. Recusamos. A produção teria que ter o elenco original, por isso só chegou à Broadway dois anos depois”, onde estaria em cena durante um ano. Nesse ano, em 1998, “The Beauty Queen Of Leenane” é nomeada para seis Tony Awards e conquista quatro, entre eles o de melhor encenação, para Garry Hynes, a primeira mulher a alcançar a distinção. “Falhou o prémio principal, o de melhor peça”, recorda.

A encenadora assegura, ainda assim, que nada mudou com a atribuição do prémio: “Se eu fosse mais nova, teria mudado alguma coisa”. Não lhe atraíam os holofotes que incidem sobre a célebre área onde se congregam alguns dos mais conhecidos teatros nova-iorquinos: “Eu queria continuar a trabalhar com as pessoas que conhecia, não estar no luxo da Broadway”, assegura.

Garry Hynes, que atravessou a adolescência imersa na leitura de poesia, confessa só se ter acercado do texto dramatúrgico mais tarde: “Ao ler peças de autores irlandeses é que me encontrei como irlandesa. Só comecei a ler peças quando tive de o fazer, na universidade”. E é com dois companheiros da National University of Ireland que viria a fundar a companhia.

A directora artística assinala que escolhas são determinantes na construção do espectáculo: “Umas das coisas mais importantes é escolher os actores. Na produção usamos os actores, o texto e o espaço. Ao escolher uma coisa estamos a fazer escolhas interpretativas”.

“E já aconteceu uma peça ser muito boa e o público não reagir bem a ela?”, pergunta Helena Ramos, a quem foi confiada a tarefa de moderar a conversa. “Não, só se a produção for má. Se a peça for muito boa, a produção vai resultar. Não há essa coisa de uma peça muito boa não influenciar o público”.

Poucos países concentram um número tão significativo de dramaturgos, cabendo alguns deles na distinção máxima da atribuição do Nobel. Garry Hynes assume o pudor em regressar a um dos incontornáveis da dramaturgia moderna e precursor do teatro do absurdo. “Sou muito fiel a Samuel Beckett, mas fiz pouco, sinto sempre que não lhe fiz justiça”, confessa.

A encenadora, de 63 anos, mostra vontade de experimentar uma nova linguagem, para lá da dimensão do palco: “Gostaria de fazer um filme, fiz a minha primeira ópera há dois anos, vou fazer a segunda este ano. No teatro, o encenador está no topo, na ópera está ao nível do maestro, se este não estiver acima”. E garante: “Não sou uma criadora, sou uma intérprete. Não verão uma peça escrita por mim. Sou fiel ao texto, não sou dramaturga”. A peça “The Beauty Queen of Leenane”, estreia-se hoje no Lyric Theatre, em Hong Kong, onde permanece até 19 de Março.

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