“A ideia da figura, quase sacerdotal, do crítico, desapareceu”

Cronista, crítico literário, poeta. Pontualmente tradutor. Ocasionalmente encenador e dramaturgo. Aos 44 anos, Pedro Mexia é uma das figuras de proa do meio literário português, mas recusa terminantemente o estatuto de intelectual com que é frequentemente apodado. O termo, sustenta, “deve ser usado com alguma parcimónia”, até porque pressupõe um contributo inovador em termos de pensamento que vai além da produção poética e literária. Numa entrevista concedida escassas horas antes de regressar a Portugal, Mexia evocou as impressões que recolheu naquela que foi a sua primeira deslocação ao território, abordou as exigências de se traduzir poesia, a qualidade da produção poética portuguesa e operou ainda um balanço ao primeiro ano de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República de Portugal. Pedro Mexia em discurso directo.

 

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Entrevista de Marco Carvalho

Fotografia de Eduardo Martins

 

marco.pontofinal@gmail.com

PONTO FINAL: O que levou de Macau e o que levou da participação no Festival Literário Rota das Letras?

Pedro Mexia: Bem, eu não tinha verdadeiramente nenhuma ideia acerca de Macau. Tinha aquelas duas ou três ideais que têm as pessoas e que tem a ver com o jogo, por um lado, e com uma certa presença cultural, que historicamente foi importante, em termos de certas figuras da cultura portuguesa, sobretudo o Camilo Pessanha, mas não era capaz de escrever dez linhas sobre Macau antes de vir cá. Agora não sei se sou capaz de escrever dez páginas, mas serei capaz de dizer alguma coisa. O que me espantou mais, devo dizer, foi o contraste entre o facto de a língua não ser falada por quase ninguém e depois a presença da língua em todo o lado. Isto é …

A presença visual ….

P.M: A presença visual, exactamente. Não imaginava que houvesse tantas ruas, tantas placas em português, os destinos dos autocarros e tudo isso. Ao mesmo, tempo também não esperava que houvesse tanta arquitectura colonial, ao que me parece a olho nu, desse período. Surpreendeu-me também o facto de a comunidade portuguesa – e eu já tinha alguma noção disso – ter uma vitalidade tão grande em termos, por exemplo, de jornais, a existência da Livraria, a existência do Festival, naturalmente. Já tinha um bocadinho essa ideia, mas acentuou-se essa minha impressão de uma comunidade muito activa e, sendo assim, o  Festival decorre normalmente dessa pro-actividade e desse interesse por não deixar totalmente que desapareça o rasto da cultura portuguesa em Macau …

O Festival faz uma ponte para a China, para autores que ainda não estão traduzidos para português e que não são conhecidos em Portugal e na Europa. É também um acréscimo importante?

P.M: Sim. No caso da China, penso que deve haver poucos países – no caso da literatura sobretudo – poucos países mais desconhecidos em Portugal. Lembro-me que mesmo quando houve um Prémio Nobel da Literatura chinês, nesse dia havia uma espécie de pânico nos comentadores porque ninguém sabia quem ele era. Temos alguma noção, as pessoas da literatura pelo menos, da poesia clássica chinesa, de algum cinema chinês, certamente que sim. Mas eu sei muitíssimo pouco sobre a literatura chinesa e, aliás, vendo os autores –  não só os convidados para o Festival, mas mesmo os autores nas livrarias – os que eu conheço resumem-se a uma mão cheia de nomes. Li poetas, li o Bei Dao, li alguns nomes mais reconhecidos internacionalmente, mas não é nada de significativo e, como tal, isso também é importante. Imagino que o contrário, não sei se por maioria de razão, também aconteça. Não sei se fora do Saramago, do Lobo Antunes e do Pessoa, se existe noção da literatura portuguesa na China, mesmo entre as pessoas cultas …

Comprovou, numa das sessões em que participou, que a crítica literária que é feita nos jornais continua a ter um peso substancial na afirmação de algumas vozes, na afirmação de uma obra, por exemplo. Sendo um dos críticos literários mais respeitados em Portugal, isso faz de si uma espécie de Deus? Ou nem por isso? Uma boa crítica por parte de Pedro Mexia, é uma porta aberta?

P.M: Não. Na verdade, a única coisa que eu disse nesse sentido – e não é mais do que isso verdadeiramente – é que acho que a crítica literária contribui para que, sobretudo, um autor novo – novo de idade ou novo em termos de publicação – passe a estar no radar, mas não mais do que isso. Não há nada de divino nessa matéria. Aliás, acho que, num certo sentido há uma dimensão, como eu disse no debate, da perda de importância por parte do crítico literário que eu acho que é positiva. Já não há aquela ideia de que só ele ou ela – e geralmente era um ele – é que tinha acesso aos livros publicados no estrangeiro, a certos autores de que nunca ninguém tinha ouvido falar ou de que nunca ninguém ouviria e, portanto, essa ideia da figura, quase sacerdotal, do crítico, desapareceu. Acho que, evidentemente, há pessoas que são mais lidas do que outras e cuja opinião e cujos textos são lidos com mais atenção do que outros e acho que pode ter esse efeito. Tem o efeito de, como se dizia no debate, de colocar uma referência na contra-capa de um livro:  “o crítico tal, no jornal tal escreveu isto” e isso não é totalmente irrelevante, mas mais do que isso é exagerar a importância da crítica. Sobretudo, porque hoje há instâncias, não sei bem se é de legitimação, mas certamente de divulgação e de passar palavra muito mais poderosos do que a crítica. Passam pelo marketing, pelas redes sociais, até pelo boca-a-boca. Qualquer um desses factores é muito mais importante para o sucesso – se estivermos a falar do sucesso comercial – do livro do que a crítica. Agora é verdade que se entre um mar de novidades, houver um livro que, de repente, encontra três ou quatro pessoas nos jornais a pronunciar-se sobre ele de forma elogiosa, isso significa que aquela pessoa, muito provavelmente, é capaz de ser convidada para um Festival ou que é capaz de mudar de uma editora pequena para uma editora grande ou ter uma hipótese de tradução se for um romance. Isso sim, acho que sim.

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Crítico literário, tradutor, poeta, dramaturgo também. Tudo peles difíceis de vestir, digamos assim. Em que domínio se sente mais confortável?

P.M: Confortável sinto-me em todos. Há algumas dessas actividades que são verdadeiramente ocasionais ou pouco significativas. Não diria que sou dramaturgo ou que sou encenador, embora já tenha escrito teatro e já tenha encenado peças. Foi uma coisa pontual. Também não diria que sou tradutor, embora já tenha traduzido livros e vá traduzir ainda mais alguns, espero eu, digamos que as três áreas em que eu tenho feito um trabalho mais regular tem sido na crónica, na crítica literária e na poesia, duas delas de um ponto de vista profissional, digamos assim e a poesia não, por definição. Das três, se eu só pudesse fazer uma delas, faria aquela justamente que não é profissional, que é a poesia. De facto, é o que me interessa mais: não sei se é o que faço melhor, não sei se é aquilo em que estou mais à vontade, mas é certamente aquilo que para mim é mais importante e era certamente aquilo de que eu gostava de … Se eu puder ficar ligado a uma dessas três áreas a que me dedico mais, que fique claramente ligado à poesia.

Para lá caminha, até porque conseguiu entrar já no mercado brasileiro e a ideia do mercado é sempre preponderante. Já tem uma antologia lançada no Brasil. É importante chegar ao outro lado do Atlântico? Fala-se muito de uma lusofonia emergente, mas a verdade é que nem os livros portugueses circulam no Brasil, nem os livros brasileiros circulam em Portugal …

P.M: É muito importante, mas há aqui alguns factores enganadores. Para já, não só no Brasil, mas em qualquer outra parte do mundo, o facto de se ter um livro traduzido – ou, no caso do Brasil, editado – não significa propriamente que se seja relevante no país onde se seja traduzido ou editado. É evidente que se alguém quiser procurar no Brasil livros meus há pelo menos dois livros editados, mas convém um pouco relativizar tudo isto. Há escritores que gostam de dizer: “Ah, eu sou traduzido em dez países”. Bom, mas às vezes são livros que não estão em lado nenhum ou são editoras universitárias e, portanto, é bom que se tenha sempre essa noção. No caso do Brasil, o que acontece – e isso para mim é muito importante – é que me apercebi que ao contrário até da ideia que eu tinha e das informações que eu tinha por parte de algumas outras pessoas mais velhas, é que sinto uma grande receptividade, apetência e boa vontade por parte do meio cultural, literário e jornalístico brasileiro, o que me surpreendeu. Tinha ideia, pela experiência de outras pessoas, que isso não era o caso, que existia uma certa … Não sei se isso corresponde a uma mudança geracional ou se são, simplesmente, experiências pessoais diferentes, mas a verdade é que sempre que fui ao Brasil – e não foram assim tantas vezes quanto isso, quer na publicação dos livros, quer noutras circunstâncias, no Prémio Camões e para participar numa ou noutra conferência – sempre fui bem-recebido. Eu e os outros portugueses que estavam presentes sempre fomos muito bem acolhidos, sempre demos entrevistas, conhecemos escritores brasileiros e isso para mim é muito reconfortante. Acho que neste momento somos nós, portugueses, que estamos em grande falta porque a literatura brasileira, embora vá sendo editada em Portugal, tem muito pouca atenção, vende muito pouco e há escritores brasileiros absolutamente centrais como o Bernardo Carvalho, que em Portugal, apesar de estar editado e bem editado, é praticamente uma escolha de “happy few”. Há pouquíssimas pessoas que leem o Bernardo Carvalho, para citar um exemplo. Ou o Carlito Azevedo, entre os poetas. Sinto que, neste momento, o Brasil está a dar-nos lições em termos de abertura e de diálogo transatlântico.

Outra faceta que evocou no Festival Literário foi a faceta do tradutor. Deu a conhecer ao público português poetas como Robert Bresson, como Tom Stoppard ou Hugo William. Isto para lhe perguntar: há uma grande responsabilidade em toda e qualquer tradução, mas na tradução de poesia esse peso é maior ainda. Qualquer poema e qualquer obra tem o seu quê de subjectividade, mas para além da textualidade propriamente dita há outras dimensões no poema a que é necessário manter-se fiel…

P.M: No caso da poesia, em concreto, há dois desafios. Há um desafio genérico e um desafio específico. O desafio genérico, como eu penso que terei dito também no debate, é que uma das grandes … O terreno onde a tradução se joga, para mim, é o do tom. Evidentemente que há aquilo a que se pode chamar a fidelidade textual, ao que lá está, às palavras que lá estão e ao sentido das frases, mas há um certo tom – e na poesia o tom é particularmente importante – que é preciso manter. Como eu disse, não faz sentido tornar claro um poema que é obscuro e tornar obscuro um poema que é claro na língua original. Há uma certa intencionalidade e tonalidade na poesia que é importante manter. No caso da poesia, conhecer a língua de chegada é tão ou mais importante do que conhecer a língua de origem. É importante em qualquer tradução, mas no caso da poesia é particularmente importante e, por alguma razão, em Portugal as traduções de poesia têm sido, sobretudo, confiadas a poetas porque se percebe – e as editoras percebem – que não se trata simplesmente de fazer uma versão mais ou menos literal, que até pode ser muito boa, mas trata-se verdadeiramente de recriar poeticamente o texto. A concisão, a ambiguidade, os jogos sonoros e tudo isso exigem que o tradutor, no fundo, conheça tão bem a poesia como só um poeta, de certa forma, conhece. Acho que isso é muito significativo do que está em causa na tradução da poesia. Não para dizer que é necessariamente mais difícil que a tradução da prosa, mas tem regras específicas.

Do ponto de vista da crítica, como é que seleciona os livros que lhe chegam às mãos? Já aconteceu, por exemplo, partir com entusiasmo para uma obra sobre a qual não se conseguiu pronunciar depois?

P.M: Ah, sim. Eu vou recebendo as novidades …. Digamos que há dois contingentes, por assim dizer, muito regulares nas críticas que eu faço. Um diz respeito aos autores que eu já conheço. Evidentemente que se sair um novo livro da Hélia Correia ou do João Miguel Fernandes Jorge ou do Mário de Carvalho, à partida isso está no meu radar, embora o jornal tenha vários críticos e isso é depois distribuído conforme a intenção de cada um de escrever sobre A ou B. Depois há uma outra área, a dos novos autores, sobretudo na poesia, à qual eu estou particularmente atento e tenho escrito regularmente sobre primeiros livros ou poetas que estão no princípio da sua obra. Há depois livros que não são de jovens autores, que não são de autores consagrados, mas que o livro, por qualquer razão me chega às mãos e me chama a atenção. Em geral vou lendo várias coisas ao mesmo tempo para depois, quando tenho que escolher, escolher um. Não há aquele risco de escolher dez livros e depois ter de falar sobre aqueles dez. Não. Até porque acontece muitas vezes o seguinte: há livros não só que parecem interessantes como não são – e o contrário também acontece – como há livros, e isto pode parecer um bocado bizarro, sobre os quais eu não tenho nada a dizer. Acontece-me muitas vezes ler livros, porque acho que quero escrever sobre eles e depois descubro que não tenho nada a dizer sobre este livro: não é bom, nem mau. Vou fazer o quê? Fazer uma sinopse e depois escrever uma ou duas frases? Nem sempre escrevo sobre os livros que leio. Leio, ainda assim, muitos mais livros sobre os quais escrevo, naturalmente, mas acaba por não ser problemático. Nunca me acontece dizer, como às vezes acontece nas crónicas, “E então, Pedro, sobre o que vais escrever?”. Na crítica literária nunca me aconteceu eu interrogar-me sobre que livro é que vou escrever. Não. A minha preocupação é que há livros a mais, o que depois é um bocadinho atenuado, porque todos os jornais têm sempre duas ou três pessoas com gostos muito parecidos e no caso do Expresso esta situação também existe. Eu sei que há livros que seu eu não o fizer numa semana, entretanto já uma outra pessoa o pediu, o que quer dizer que o jornal está atento e acompanha as novidades do panorama literário, um pouco mais ou menos.

Dizia há pouco que há livros a mais. Nunca se publicou tanto em Portugal. Vão aparecendo algumas coisas com qualidade, mas a maior parte dos livros que chegam às livrarias não chegam sequer a ser literatura …

P.M: Para mim é um mistério o facto de haver uma suposta crise da leitura e uma abundância na publicação. Das duas, uma: ou as pessoas que compram livros, compram muitos livros e isso acho que em parte é verdade. Muitas delas – e eu sou um exemplo – compram muitíssimos livros, mas há um desfasamento qualquer um bocadinho inexplicável. Acho que se publica muita coisa desinteressante em todas as áreas. Acho que a literatura retrocedeu do ponto de vista da preponderância que tem no mercado da edição. Hoje em dia há muitos livros a ser publicados, sobre tudo e mais alguma coisa e há livrarias em que a literatura já é só quase uma secção e há fenómenos, mais ou menos globais, que vão desde a auto-ajuda à espiritualidade, passando pelas biografias de celebridades, que foram ocupando o espaço das livrarias, o que significa também que correspondem ao interesse das pessoas por certas áreas. Falando agora dos autores portugueses – e a tradução em Portugal até é bastante forte e boa genericamente falando –acho que todos os anos se publicam em Portugal uma duas ou três dezenas de livros que não envergonham um país da nossa dimensão. Estou a falar de romances, de poesia e de ensaio. Somos o país que somos, não somos uma potência literária, mas a verdade é que temos escritores – aqueles que eu citei há um bocado e há outros – que permitem que uma pessoa que escreve crítica literária não se possa queixar de que o país não está à sua altura, como de vez em quando dizem algumas pessoas, munidas desse discurso. Eu acho que não faz sentido nenhum.

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No campo da poesia, há muito este cliché de se dizer que Portugal é um país de poetas. Há alguma verdade nisto? Há novas vozes a surgir no panorama poético português com qualidade suficiente para se sobreporem ao teste do tempo?

P.M: Há uma verdade nisso. A verdade disso é o facto de, não só historicamente haver bons poetas portugueses, como eu diria que, ininterruptamente desde o final do século XIX não haver nenhuma geração sem bons poetas e isso não é, sequer, uma evidência na história de Portugal. Houve alguns séculos em que não houve poetas importantes, mas de facto, se pensarmos nos poetas que publicavam no final do século XIX e depois pensarmos nos poetas que publicaram em qualquer das décadas do século XX ou nestas duas décadas do século XXI, em todas elas há grandes poetas. Uns maiores, que outros. Uns mais relevantes do que outros: houve o Pessoa, mas antes do Pessoa houve o Cesário e depois do Pessoa houve a Sophia e o Herberto e o Ruy Belo e o Alexandre O’ Neill e o Mário Cesariny e na minha geração e na geração antes da minha também há e houve poetas muito importantes. Os poetas estreiam-se ou impõem-se relativamente tarde e não direi poetas de vinte anos, mas há poetas de trinta e quarenta anos que confirmam esta tendência. Vou-lhe citar dois nomes que foram já revelados no século XXI e que me parecem dois dos mais significativos: o Miguel Manso e a Margarida Vale de Gato são dois nomes que mostram claramente que esse cliché tem algum fundamento. Há uma nova geração e cada nova geração tem dois ou três nomes suficientemente fortes para nós acreditarmos nessa ideia feita de que a poesia e Portugal têm uma relação qualquer forte.

Recusou, por mais de uma vez, o rótulo de intelectual e há pouco, numa das respostas que deu, insinuava isso mesmo. A verdade é que tem atingido reconhecimento em tudo aquilo que tem feito. Tem 44 anos, é relativamente jovem e conta já com passagens pelo Centro Cultural de Belém, pela Cinemateca e mantém uma presença activa, quase quotidiana, na blogosfera. Mesmo recusando este rótulo de intelectual, reconhece que aquilo que escreve e que diz tem impacto no actual panorama cultural português …

P.M: Não, eu reconheço que faço parte, se quiser, do meio literário português. Isso é indesmentível e, noutros casos, não apenas literário. O meu problema com a palavra “intelectual” é que ela designa, por um lado, uma realidade que me parece excessivamente importante e, portanto, excessivamente elogiosa e cerimoniosa e, nesse sentido, nunca faria sentido usá-la em causa própria e seria mesmo errado. Ou seja, estamos a falar de uma pessoa que tem um pensamento e um pensamento próprio e eu acho que isso se pode dizer de muito poucas pessoas e, nesse sentido, eu recuso essa palavra, como recuso essa palavra para quase toda a gente. Não é, sequer, um acto de especial humildade. Acho que é uma palavra que devemos usar com alguma parcimónia, porque a maioria das pessoas nos meios  intelectuais são simplesmente pessoas  – desejavelmente cultas, inteligentes, talentosas, etc – mas não são figuras que marquem o seu tempo no sentido em que nós damos ao Eduardo Lourenço e outras. Isto por um lado. Por outro lado, tenho uma certa relutância histórico-política em relação à palavra “intelectual” porque me parece que os intelectuais que nasceram no espaço público, à volta de uma causa justa, que foi o caso Dreyfus, não souberam sempre honrar essa sua origem histórica e ao longo do século XX , nomeadamente, não há praticamente nenhuma tirania que não tenha tido os seus intelectuais. Entre os maiores escritores do século XX, o Paul Éluard, que era um dos autores de quem eu mais gostava no âmbito da poesia – e de que eu ainda gosto muito – tem um poema em que se refere “ao cérebro de amor de Staline”. É a expressão literal. Há uma história suja, em grande medida, e, como tal, não tenho grande simpatia pela palavra porque nos remete, quer à esquerda, quer à direita, para uma história de conivência com regimes que não defendiam a liberdade. Isso é coisa que não me interessa.

Conselheiro cultural de Marcelo Rebelo de Sousa. Esta pergunta, mil vezes repetida ao longo do último ano, só volta a ser evocada porque se cumpriu na semana passada o primeiro ano de mandato do Presidente da República. Já confessou que não votou em Marcelo Rebelo de Sousa. Que balanço faz dos doze primeiros meses de alguém que consegue chegar ao poder depois de ter andado durante anos a preparar terreno para tal? No passado chegou a dizer que temia que o carácter lúdico de Marcelo Rebelo de Sousa pudesse sequestrar a Presidência da República. Isso aconteceu, no seu entender?

P.M: Não. Eu acho que o que aconteceu foi o professor Marcelo candidatar-se à Presidência da República com uma plataforma que, num certo sentido, merecia algumas reticências e que eu tenho confirmado, se quisermos, na rua, acompanhando, que correspondia a um diagnóstico acertado acerca do país. Foi aquilo que se costuma chamar “os afectos”, mas que pode ser definido como uma espécie de proximidade, pacificação e tudo isso. Eu sinto isso a um nível até que me surpreendeu. À partida, o meu instinto até seria que há alguma vantagem no sistema político em manter uma certa distancia. É-me simpática, essa ideia do ponto de vista conceptual. Mas, a verdade é que há distensão na opinião pública e há uma certa empatia entre os portugueses e o ocupante do cargo que é manifesta: basta ver as pessoas, incluindo aquelas de áreas politicas opostas à de Marcelo Rebelo de Sousa. Isso, na verdade, tem sido conseguido. Dificilmente posso imaginar como é que uma tal circunstância pode ser vista como negativa: que as pessoas estejam pacificadas com o Presidente da República e que o clima politico seja um bocadinho menos irrespirável é um dos méritos desta Presidência da República, pelo menos nesta primeira fase. Falta muito mandato, há outros grandes desafios, mas isso que tem dimensões em relações às quais eu manifestava algum cepticismo, não deixa de ser verdade. Era o plano do candidato, foi o plano do Presidente e foi cumprido.

 

Do ponto de vista do entendimento político com o Governo – um Governo que surge em circunstancias difíceis, com um formato ou uma fórmula que seria impensável há uma década ou a quatro ou cinco anos – a relação institucional manteve-se sem grandes casos. Estas circunstancias são boas ou são más para o país?

P.M: Há duas dimensões diferentes. Por um lado, acho que – a não ser que haja alguma razão em contrário – o Presidente, e para usar a fórmula consagrada, não deve ser uma força de bloqueio. Deve haver uma boa cooperação institucional entre o Presidente da República e o Governo. Essa é a regra. Em segundo lugar acho que há uma particular preocupação de um Presidente da República – deste, mas também houve já de outros – em que num momento em que o país ainda não saiu de uma fase difícil, não haja crise institucional, nem haja intervenções, quer internas, quer externas, do Presidente da República que enfraqueçam, digamos assim, a situação do país nos seus desafios económicos, financeiros e europeus e tudo isso. Em terceiro lugar, eu acho que o Presidente – talvez por ser constitucionalista – sabe que a solução governativa pode ser estranha, inédita, mas é constitucional, legítima e, do ponto de vista da coordenação política, está a funcionar melhor do que seria de esperar, mesmo pelos próprios. Acho que os próprios dirão o mesmo também. Embora isso frequentemente enfureça a sua base eleitoral – a sua, do Presidente da República – acho que a função do Presidente da República é uma função institucional e, portanto, há um Governo, que é um Governo legítimo que está a gerir a coisa pública da forma que resulta do entendimento de diferentes partidos, com alguns problemas que não são pequenos, nomeadamente no que diz respeito à coerência da politica entre esses três partidos, mas não há nenhuma razão para o Presidente da República se portar de outra maneira, penso eu …

Ao fim deste primeiro ano de mandato, há ou não por parte da Presidência, uma maior abertura às questões da cultura em Portugal?

P.M: Eu não vou por isso nesses termos. Vou dizer que a razão pela qual eu aceitei o convite do professor Marcelo Rebelo de Sousa foi porque era, para mim e para toda a gente, evidente que a cultura fazia parte das suas preocupações, dos seus interesses e dos seus gostos. Não era, propriamente, uma obrigação, não seria secundarizada e, portanto, era-lhe natural e, portanto, é natural para quem está a fazer a assessoria cultural da Presidência da Republica porque, de facto, o Presidente da República interessa-se, vai, quer ir, gosta, conhece as pessoas e, sendo assim, é muito fácil trabalhar com um presidente da República nestas circunstâncias.

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Integra, desde há uma série de anos a esta parte, o Governo mais popular de Portugal, o “Governo Sombra”. Isto para lhe perguntar … Se um qualquer Governo, este ou outro, lhe endereçasse um qualquer convite para fazer parte de uma equipa governativa, abriria as portas a uma tal possibilidade?

P.M: Dificilmente, por uma razão. Eu não sou filiado em nenhum partido e a minha experiência, não directa, mas indirecta, é que os chamados independentes não têm nem o “know how” político, nem o amparo partidário necessário para ter uma carreira política. Num certo sentido, simpatizo com aquela ideia anglo-saxónica, e inglesa, particularmente, em que os ministros são escolhidos entre os deputados. Acho que é preciso ter uma experiência politica e ter gosto por algumas dimensões da política, que é coisa que eu, francamente, não tenho. Não faz sentido dizer “nunca, jamais, em tempo algum”, mas não é um cenário que esteja minimamente no meu horizonte. Não tenho nenhum interesse particular nisso e, pelo contrário, vejo muitos obstáculos a que isso fosse possível.

Começou esta nossa conversa por dizer que, antes de ter vindo a este Festival, se calhar não conseguiria escrever dez linhas sobre Macau. Neste regresso a Portugal, teremos direito a crónica sobre Macau? Ou é algo que não está nos seus planos?

P.M: Eu já escrevi uma crónica, mas, enfim, escrevi no dia em que cheguei e não era uma crónica sobre a minha experiência porque tinha vindo a ler umas coisas sobre o Camilo Pessanha e depois também encontrei um texto do Wenceslau de Moraes sobre a Gruta de Camões e então tentei fazer uma comparação entre esses dois textos, mas era ainda uma crónica literária, no sentido em que se baseava em textos  e não em experiências, embora tenha estado nessa tarde na Gruta de Camões, justamente para dar um bocadinho de cor local ao texto. É provável que sim. Tenho algumas notas tomadas, nunca se sabe se as crónicas resultam ou não, mas é minha intenção certamente reflectir, de alguma forma e em algum texto, sobre esta minha passagem por Macau.

Em mãos, relativamente à pele que melhor vestiria, como dizia há pouco, o que poderemos esperar de Pedro Mexia nos próximos tempos?

P.M: Bom, de poesia haverá certamente um volume de poesia completa, com os livros todos. Saiu uma antologia há alguns anos, que está esgotada, mas eu gostava de a arrumar e fazer, enfim, uma limpeza de alguns poemas com os quais eu já não me relaciono muito bem. Não sei ainda se sai este ano ou se para o ano, mas com toda a probabilidade o próximo livro vai-se chamar “Poemas Reunidos” e vai reunir todos os livros de poesia, tudo aquilo de que eu gosto ainda, dos livros de poesia que publiquei até agora.

E esse estigma? Há esse estigma de se olhar para o passado e de não se rever em algumas das coisas que escreveu?

P.M: Não é bem um estigma. Acho que é uma condição de quem escreve. Acho que grande parte dos escritores sente uma certa sensação de constrangimento quando lê textos antigos, sobretudo quando são textos muito do início , dos primeiros anos. Ou então textos que dizem coisas com as quais eu não concordo já nada. Às vezes acontece. Não é tão frequente quanto isso, mas é sobretudo textos em que se percebe que devia ter lido mais sobre este assunto antes de ter lido isto, tem dois advérbios de modo juntos na mesma frase e esse tipo de coisas. Por vezes são detalhes estilísticas e tal porque supostamente quanto mais se escreve, melhor se escreve . Não tenho a certeza que seja assim, mas se quanto mais se toca piano, melhor se toca piano acho que em princípio também deve ser a mesma coisa para a escrita.

Depois de serem purgados, digamos assim, esses textos vão parar onde?

P.M: Os textos que são eliminados? Pois, há uma discussão muito engraçado, que é o que fazer com a obra que se rejeita. Há vários poetas que fizeram isso, desde o Carlos de Oliveira, o próprio Herberto, o Joaquim Manuel Magalhães reviu completamente a sua obra poética, mudando quase todos os poemas, mas eu acho que se reconhece mais ou menos que o autor tem direito de dizer quais são os poemas vivos e quais são poemas mortos, independentemente de muitas vezes, no caso dos autores morrerem, não faltam publicações de livros que nós imaginamos que o autor não queria ver publicado. O autor tem o dever, acho eu, em vida, de, por um lado manter na sua obra só aquilo que aprova e, de não deixar nada na gaveta, porque senão nunca sabe o que lhe vai acontecer. Desde a arca do Pessoa até aos muitos projectos literários do Eça de Queiroz, sabemos  que os escritores portugueses publicaram muito menos em vida do que as obras que deixaram. Nalguns casos deixaram coisas fundamentais na gaveta. Noutros é duvidoso que assim seja. Não se sei grande parte das ficções do Eça, por exemplo, não eram coisas um bocadinho derivativas  e o essencial ele publicou em vida. Há quem o defenda e eu acho que se calhar têm alguma razão.

 

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