“A questão da homossexualidade feminina é relevante porque é o modo como eu me relaciono com o mundo”

Assume que a escrita lhe é natural e que a criação de estórias sempre se apoderou do seu imaginário. Natalia Borges Polesso emergiu na cena literária brasileira quando venceu, com o seu primeiro livro –  “Recortes para Álbum de Fotografia Sem Gente” – o Prémio Açores 2013, exactamente no ano em que lançou a obra. Mas foi mais tarde, depois da incursão no género poético com “Coração à Corda”, que se afirmou na literatura contemporânea brasileira com “Amora”, um livro de contos com o qual conquistou o painel de jurados do Prémio Jabuti 2016 na categoria Conto e Crónica.

Em “Amora”, a escritora transportou a mulher e o amor no feminino para o centro das narrativas, oferecendo ao leitor  perspectivas distintas sobre a homossexualidade, realidade que ainda teima em não ser aceite pela sociedade não só do Brasil, mas de vários outros lugares do mundo. Ao PONTO FINAL, Natalia Borges Polesso falou sobre a posição das mulheres no mundo e sobre a regressão ao seu passado pela qual enveredou para escrever os contos.

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PONTO FINAL: De que forma se fez anunciada a escrita na sua vida?

Natalia Borges Polesso: Eu sempre gostei muito de escrever e para mim sempre foi muito natural tentar contar algumas estórias, no início até tentava escrever alguns poemas. A escrita foi sempre algo que me atraiu muito. Desde nova, gostava muito de contar estórias e inventar estórias e escrevê-las. Para mim sempre foi muito natural.

Viajou até Macau para apresentar o seu livro de contos mais recente, vencedor do Prémio Jabuti 2016. “Amora” (2015) é um livro atravessado pela temática do amor no feminino e aborda a sexualidade através do olhar das personagens, trazendo ao leitor perspectivas diversas …

N.B.P: Quis escrever sobre coisas que me interessam e que eu acho que são relevantes. Para mim, essa questão da homossexualidade feminina é relevante porque é o modo como eu me relaciono com o mundo e como eu vejo as pessoas ao meu redor se relacionarem com o mundo e comigo, ao mesmo tempo. E comecei a achar necessário que essas vozes fossem ouvidas de alguma maneira para sensibilizar o outro também. Claro que teve todo um trabalho do ofício de escrita, mas acho que todo o escritor tem uma motivação para escrever – algo que o encanta ou algo que lhe é precioso – e, para mim, essas relações eram preciosas. Foi mais ou menos nesse sentido que eu tentei construir essas personagens para contar essas estórias.

Como foi o processo de escrita de “Amora”?

N.B.P: O “Amora” teve um financiamento de edital. Nesse sentido, ele foi um pouco parecido com o “Recortes para Álbum de Fotografia Sem Rosto” (2013) porque eu tive que mandá-lo para o edital de selecção, depois ainda teve a edição. Mas o processo foi bastante longo porque eu quis tentar pensar numa unidade. Em 2014, eu enviei o livro que seria o “Amora”, mas ainda não o era. Depois de pronto, teve várias modificações, retrabalhei esses textos exaustivamente e ainda adicionei e reescrevi outros. Foi um processo muito bonito e muito querido para mim porque eu fiquei muito tempo pensando nessas mulheres: o que é que elas seriam, como é que elas seriam, como é que elas falariam sobre a vida delas ou como é que os outros falariam sobre a vida delas. Foi bem emocionante, nesse ponto de vista de ter convivido com essas personagens por um longo tempo.

No total, 32 contos dão corpo ao livro. O registo de linguagem que lhes emprega não é transversal…

N.B.P: Eu acho que eles se distinguem, primeiramente, entre os mais extensos e os mais curtinhos. Os primeiros, que são os mais longos, são bem diversificados porque eu quis experimentar, também, formas narrativas. É bem visível que uns têm uma prosa mais poética – que são os mais curtos – e eles lembram bastante o meu primeiro livro. É meio que para manter uma conversa entre os contos – que também são mais curtos, mais líricos. Por exemplo, o “Diáspora Lésbica” é todo em diálogos e é meio que uma piada de um grupo, mas com o qual várias pessoas se podem identificar. A partir de então, fui tentado escolher modos de narrar. Tem um conto que se chama “As tias”, em que eu mudei o ponto de vista narrativo umas três vezes até acertar o que eu queria. Eu tinha começado com um narrador em terceira pessoa; aí eu achei que ficava muito distante e mudei para primeira pessoa. Mas daí, eu achei que não conseguiria dizer tudo com uma das tias sendo a narradora, então incluí uma sobrinha para estar ali, dentro daquela casa e contar a estória a partir do seu ponto de vista com uma linguagem própria. E, aí, fui pensado dessa maneira: como é que ia trabalhar a linguagem, parti do ponto de vista narrativo e o que é que a estória demandaria.

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No conto “Flor, flores, ferro retorcido”,  centra-se no preconceito relativo à homossexualidade a partir da perspectiva de uma criança. Enveredou por um processo de revisitação à sua própria infância?

N.B.P: Sim, com certeza. Fiz sim. Esse é um dos meus contos favoritos. Esse e o “Marília Acorda” são os meus contos favoritos. Esse inclui muitas memórias que eu tenho de infância, de ter contacto com essa pessoa, com essa vizinha, que eu não sabia se era um homem ou se era uma mulher, ou que é que era, e eu percebia todos falando dessa pessoa ao meu redor e não percebia por que é que tanto falavam dela. Eu queria saber, ela era uma figura muito curiosa para mim. Então a partir dessa sensação eu fui desenvolvendo esse conto de “Flor, flores, ferro retorcido”.

O leitor consegue ver a Natalia nos contos? Põe de si, pedaços da sua vida, nos contos?

N.B.P: Acho que sim. É bem visível, no meu ponto de vista. Eu me identifico bastante com vários contos. Eu acredito que todo o escritor põe um pouco ou muito de si nos personagens ou nas descrições, ou mesmo no estilo. Eu acho que é impossível a gente não deixar que isso saia na escrita.

Como descreveria a realidade de um homossexual na sociedade brasileira?

N.B.P: É difícil dizer porque o Brasil é imenso, não só geograficamente, mas também em camadas sociais. O meu lugar, por exemplo, como homossexual no Brasil, é um lugar um tanto confortável. Eu sofro preconceito mais, eu acho, como mulher, de assédios e coisas que a gente ainda luta muito para que não aconteçam. “Man’s planning” e todas essas coisas bizarras. Na minha posição, eu tenho todo o apoio da minha família, todo o apoio dos meus amigos, sou relativamente aberta no meu trabalho, então não tenho problemas. Mas eu conheço gente ao meu redor que sofre muito com isso se trabalha num ambiente que é um pouco mais mente fechada ou se tem uma família que não aceita. Na minha cidade, a gente teve dois suicídios de meninos por não terem apoio da família, nem da escola, nem da sociedade. Quer dizer, acho que a escola era o único lugar que tinham apoio. Mas é muito triste quando as pessoas tiram a própria vida por falta de compreensão.

Foi este livro uma forma de afirmação?

N.B.P: Eu acho que ele pode ser lido assim. A princípio, para mim ele é um desejo: um desejo de sensibilizar, um desejo de escrever sobre coisas que para mim são importantes. Mas se alguém o tomar como uma bandeira, eu não vou dizer não, eu vou dizer sim, pode fazer isso. Então acho óptimo que isso aconteça. Que ele se torne uma espécie de afirmação.

 

Não é fácil para um escritor viver da escrita no Brasil. Para além de ter terminado um doutoramento em Teoria da Literatura recentemente, também se dedica à educação, à tradução e escreve crónicas semanais para um jornal de Caxias do Sul, cidade onde reside, no estado do Rio Grande do Sul. Que meio termo encontrou para conseguir finalizar este livro de contos, “Amora”?

N.B.P: Não sei [risos]. Os últimos anos foram anos bastante corridos para mim porque, em 2015, estava na França fazendo doutorado sanduíche [bolsa de estudo para fazer parte de um doutoramento no exterior, atribuída pelo Governo brasileiro], um período de estudos lá. Voltei em 2016, que foi o ano de conclusão da minha tese, e esse ano foi uma loucura de trabalho, escrita… O que eu tento fazer é organizar meu tempo como professora, em primeiro lugar, porque é isso que vai me remunerar. Depois, tento encaixar alguns dias ou períodos livres para poder escrever. Hora e dia, tanto faz.

 

No Prémio Jabuti de 2016, partilhou o pódio na categoria de Contos e Crónicas”, por exemplo, com Luís Fernando Veríssimo, um dos escritores brasileiros mais reconhecidos no país. Clarice Lispector foi outro dos nomes galardoados na mesma categoria já na década de 1960, entre tantos outros. Como foi destacar-se no prémio mais prestigiado da cena literária brasileira?

N.B.P: Senti várias coisas. Uma delas foi o reconhecimento extremo do trabalho por parte de um júri especializado que está te avaliando, te colocando nesse lugar e te dando esse respaldo. E completamente emocionada de estar partilhando esse lugar com esses escritores que eu admiro. No dia da cerimónia, a Lygia Fagundes Telles estava lá e também é uma escritora de quem eu gosto muito. Ela também já ganhou algumas vezes esse prémio e vê-la lá foi muito emocionante. Estar nesse lugar foi muito emocionante. Creio que também teve o lado de que acho que a literatura brasileira está se abrindo: a gente sempre teve nomes muito grandes na literatura brasileira e pouco espaço para novos e pequenos autores. Pequenos e grandes, na verdade a gente não pode medir essa dimensão mas convencionamos chamar assim. Então, estar nesse lugar é também um sinal de que estamos respirando coisas novas e isso é muito bom. É um movimento muito bom para a literatura.

 

 

Que significado teve este prémio para si enquanto escritora?

N.B.P: Reconhecimento, em primeiro lugar. Muito embora antes de eu saber do resultado do prémio – apenas quando tinha sido listada entre os finalistas – eu já tinha comemorado porque, para mim, ali, já era uma vitória e aquilo já estava sendo maravilhoso. Mas acho que eu só tive noção do que estava acontecendo quando fui lá no dia do evento e pensei: “Meu deus, eu ‘tô’ aqui!” [risos]. Fiquei completamente atordoada. Não estava acostumada com isso, então foi muito bonito em vários sentidos. Também para saber que vale a pena seguir em frente.

 

 

Tem, neste momento, algum projecto em mãos?

N.B.P: Estou trabalhando num romance. Por toda a nossa conjuntura mundial e actual, pensei em escrever uma coisa meio distópica, mas ainda estou trabalhando. É a história da mulher que escreveu o maior tratado da filosofia. Vai-se passar num tempo um pouco mais futuro, por algum evento que muda o mundo. Vamos ver como é que isso se dá na literatura, por enquanto tem páginas e alguns rascunhos.

 

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Com o seu primeiro livro, “Recortes para Álbum de Fotografia Sem Gente”, conquistou o Prémio Açores, em 2013, no mesmo ano do seu lançamento. Impulsionou, de alguma forma, a difusão da sua obra e a sua aproximação aos leitores?

 

N.B.P: Antes do livro eu tinha um blog e o “Recortes [para Álbum de Fotografia Sem Gente]” foi meio que uma junção de textos que eu vim escrevendo, sei lá, desde há dez anos. Então, eu escolhi, dentro de uma infinidade de textos que eu tinha, os que eu achava mais legais e junto com um amigo, que era editor desse selo de literatura pelo qual saiu o livro, trabalhámos um pouco mais os contos e, aí, saiu a publicação. Na verdade, o “Recortes” foi premiado com edital para ser publicado. Antes da publicação do livro, ainda o submeti ao edital que ia financiar o livro, portanto teve dois momentos: o momento em que eu juntei os textos todos e depois o momento da edição. E, com certeza, depois que teve resultado – apesar de ser uma coisa muito local, a editora era muito pequena – para mim foi uma afirmação muito boa, muito positiva, conseguir ter um livro meu, em mãos, e ele ter ganhado o prémio me deu um respiro do tipo: “Eu posso continuar fazendo isso, estou fazendo alguma coisa que está dando certo.”

Como foi a recepção por parte do público?

N.B.P: Acho que mais por conta da distribuição e por eu ser uma autora nova no mercado, a editora ser pequena e eu não estar num grande eixo de literatura – moro em Caxias do Sul, não é nem Porto Alegre, é uma cidade de interior – ele não teve uma recepção muito ampla no público. Não teve muitas críticas, mas quem leu, em geral, me deu respostas boas, então fiquei contente com isso. E o prémio conseguiu fazer o livro circular um pouco mais.

No Brasil, o ponto geográfico onde um escritor se encontra influencia a divulgação do seu trabalho aos leitores?

N.B.P: Eu acho que de há uns anos para cá, a Internet vem auxiliando de maneira a tornar a questão geográfica não completamente anulada, mas um pouco mais parelha, digamos. Ainda assim, é muito difícil para um escritor que não está num grande eixo ser lido ou ser visto ou ser – digamos assim – comprado por uma editora grande. Mas a Internet faz pequenos movimentos, pequenas forças que, se somando, conseguem aparecer de alguma maneira e isso tem beneficiado essa questão geográfica, mas eu acho que estando no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, talvez seja mais fácil você ser visto. Tem também a questão que tem muitos escritores hoje no Brasil, o que é extremamente positivo porque estamos escrevendo mais do que nunca.

 

 

Quem é influência na sua escrita?

N.B.P: Eu não considero ter “o meu pilar da escrita”, porque eu gosto muito de ler e procurar coisas novas e vou-me apaixonando de tempos a tempos por escritores ou livros diferentes. Me lembro da primeira vez que li “Alice no País das Maravilhas” e como mudou a minha vida. Eu era bastante nova, mas foi um livro que me marcou bastante. Depois eu conheci Julio Cortázar, também maravilhoso, e hoje fico encantada com a poesia que se faz no brasil, especialmente a poesia de mulheres como Marília Garcia, Angélica Freitas, Bruna Beber, muitos nomes, a própria Moema Vilela, uma colega minha cujo trabalho eu gosto muito. E como escritora, a pessoa que eu li toda a obra agora – porque fiz uma mediação num evento – é a Verónica Stigger. Li todo o trabalho dela e, para mim, foi maravilhoso descobrir uma grande escritora, que está hoje fazendo literatura e falando do seu trabalho.

 

 

Que posição ocupam as mulheres na cena literária brasileira?

N.B.P: Eu acho que a gente ainda tem pouco espaço. A maioria daqueles que estão em posições de escolha dentro de editoras, dentro de festivais, dentro de júris de concursos, ainda são homens. São homens que validam os trabalhos dos seus pares, que têm uma outra construção de pensamento social e de género e que não valorizam outras coisas. Isso precisa ser revisto urgentemente porque existem colegas que não vêem importância em determinados trabalhos. A Alice Ruiz é uma poeta brasileira com um pouco mais de idade e todas as questões que a gente vive, ela vem vivendo há muitos anos. Não se pode mais viver dessa maneira. Mas eu acho que nessa questão os movimentos sociais ajudam bastante a gente a ganhar consciência e, aí, cada um na sua área vai movimentar essas questões mais importantes e relevantes.

Mas nota uma evolução da presença da mulher na literatura?

N.B.P: Sim, eu acho que sim. Evolução, com certeza. Eu acho que estamos cada vez em mais lugares, mas ainda é preciso fazer muito mais para que as coisas fiquem iguais ou parelhas, pelo menos. Se a gente tem que comemorar alguma coisa é que isso está mudando.

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Os movimentos feministas estão a crescer no Brasil. Como é que vê este fenómeno que envolve as mulheres que têm firmado, cada vez mais, a sua posição…

N.B.P: Cada vez mais e fico muito feliz por ver isso e por ver, em grupos próximos ao meu, as pessoas mudando e comportamentos mudando. Agora começa a haver um apoio entre as mulheres, começa a haver um questionamento dos padrões de beleza, um questionamento das formas, de como a pessoa quer viver e questionamento sobre a maternidade. Eu acho isso muito saudável porque, às vezes, as pessoas não se perguntam e acabam seguindo como gado e sofrendo a vida inteira. Acho óptimo que esses grupos estejam cada vez mais fortificados no Brasil e que gerem conversas e debates, para que cada vez mais as pessoas ganhem consciência e a gente tenha gerações mais livres, a partir de agora.

 

Vai continuar, então, a abordar as mulheres nas suas obras?

N.B.P: Sim, para mim isso é uma questão. J.F.

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