Lançar sobre a escola o fascínio da leitura e da viagem

A Escola Portuguesa de Macau acolheu, na manhã de ontem, uma sessão do Rota das Escolas, com os escritores Raquel Ochoa e João Morgado. Entre os estudantes que preencheram o auditório do estabelecimento de ensino, sobraram questões atiradas a dois contadores de histórias que encontraram na viagem e no passado um modo de avançar sobre o mundo e a sua narrativa interminável.

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Fotografia: Eduardo Martins

Sílvia Gonçalves

Acomodam-se crianças e adolescentes no auditório, estremunhados, enquanto se confrontam com a inesperada quebra na rotina. A aula é agora substituída pelo encontro com escritores que traçam, com a aproximação possível, a história de vida de figuras que o tempo tratou de imortalizar, no romance histórico, na biografia, na crónica de viagem. A Escola Portuguesa de Macau (EPM) encaixou ontem no calendário apertado de aulas e actividades lectivas uma sessão do festival Rota das Letras, com os escritores João Morgado e Raquel Ochoa. Só o tempo foi curto para dar resposta à curiosidade ávida dos estudantes.

“Não sei o que vim fazer. A professora de português é que disse para cá vir”, sussurra ao PONTO FINAL Mariana, menina do 7º ano que procura entender quem são os adultos sentados no palco. E no palco, a autora que vem a Macau lançar um ensaio biográfico sobre o arquitecto Manuel Vicente, conquista a atenção de todos ao apresentar-se como viajante: “É muito importante pertencermos a um lugar, mas nunca vamos conhecer esse lugar se não formos embora. A terra do Oriente tem uma cor, a terra de África tem outra cor, parece sangue. Nós vivemos numa era fascinante, em que é muito fácil viajar. Organizem-se nas vossas vidas e partam à descoberta”, incita Raquel Ochoa.

“É a primeira vez que chego à Ásia, ainda estou naquela fase de espanto”, começa por atirar João Morgado. “O mundo é grande, mas está cada vez mais pequenino. Trabalho muito os personagens que foram muito influentes em Portugal. O que acontecia no século XV era o enigma, o desconhecido. O que havia era os grandes mares, os grandes monstros, por isso é que torna grandioso o que os portugueses fizeram, descobrir novos mundos”, enquadra o autor, que explica depois ter escrito dois livros, “um deles relata a viagem do Vasco da Gama”. Os volumes, afiança o escritor, serão entretanto enviados para a Escola Portuguesa de Macau: “São dois romances grandinhos, mas eu fiz uma versão para vocês, e vão mandá-los para esta biblioteca. Espero que leiam essas histórias dos navegadores”, apela o autor, natural da Covilhã.

Raquel embarca depois nesse recuo no tempo, na mitologia a que estava vinculado o português que avançou sobre o mundo: “No Sri Lanka os portugueses eram vistos como pessoas terríveis, porque comiam pedra e bebiam sangue”, assinala a autora, arrancando do auditório um esgar de espanto. “Eles traziam pão muito duro, que lhes parecia pedra. E o vinho que bebiam era o que lhes parecia sangue”, explica a escritora, serenando o assombro dos alunos.

Questionado por Helena Ramos, que moderou a sessão, sobre o que é retirado da realidade e o que é inventado na construção do romance histórico, João Morgado fala na impossibilidade de escapar à narração dos factos, a que se alia a introdução de elementos que permitam emprestar corpo e fôlego à narrativa: “Eu pego em figuras que existiram e tenho uma ficção controlada. Não posso adulterar, há factos, há datas, que não podemos alterar. Temos que encontrar pequenas histórias que vão preencher a viagem”.

É João quem dispara depois a questão inevitável, numa sessão de literatura: “Gostam de ler?”. Ressalta a falta de  unanimidade e de ímpeto na sala. Poucos assumem o prazer da leitura e muitos outros admitem não gostar de o fazer. Está aberto o caminho à apologia da leitura, da relação com o livro-objecto, cada vez mais afastado da geração imersa em tecnologia. Raquel recua a um tempo de leitura de “Os Cinco”, de Enid Blyton, a um percurso enquanto leitora que viria a enformar a escritora: “Sinto que muito do que escrevo tem uma estrutura muito ligada às primeiras leituras que fiz. Ler vai fazer de vocês adultos pensantes”. João instiga o auditório à leitura, “a embrenharem-se nessa viagem”, pede que aproveitem o tempo, que não estejam agarrados ao telemóvel.

Abre-se a sessão às perguntas do auditório e as mãos atiram-se ao alto, agitadas, como quem pede a vez: “A Raquel disse que quando vamos a um sítio sentimos que lhe pertencemos. Esteve nalgum sítio a que sentisse que pertencesse?”, pergunta Mafalda. “Senti muito isso em todos os sítios onde os portugueses estiveram”, responde a escritora.

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Questionado sobre a predilecção pelos séculos XV e XVI, João Morgado enquadra a devoção e revela qualquer coisa sobre a investigação de que agora se ocupa: “O meu próximo livro vai falar de uma grande personalidade do século XVI, que se calhar passou por Macau… Tenho um fascínio por aquela época, desde o tempo de liceu. O meu Ronaldo da época já era o Vasco da Gama. Nos séculos XV e XVI estávamos no topo do mundo, para o bem e para o mal”.

“O que levam de Macau para os vossos romances?”, pergunta Cláudio. “Estou a escrever sobre o que vejo à minha frente. Apetece-me relatar o que se passa à minha frente. Apetece-me escrever sobre como os sítios estão a viver a sua história agora. Sobre Macau, estou fascinada com esta arquitectura de imitação e como as pessoas vivem isso”, diz Raquel Ochoa. “O que levo de Macau? Muitas vezes não temos consciência do que levamos. Mais tarde vou ter essa consciência”, arrisca João Morgado. “Está quase a tocar”, recorda entretanto alguém, a impor ao colectivo o regresso apressado para a sala de aula.

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