Abraão Vicente: pela mão do escritor-ministro estreia-se o festival Morabeza

O festival Rota das Letras, em parceria com a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), acolheu ontem a sessão “Literatura e Viagem ao Encontro da Cidade: Onde me questiono e encontro”, enquadrada no VII Encontro de Escritores Lusófonos, promovido pela UCCLA. Presente esteve Abraão Vicente, escritor que é também ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde. Após a sessão, o governante desvendou o conceito do Morabeza, o festival literário que em Outubro se estreia na Cidade da Praia.

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Texto de Sílvia Gonçalves

Fotografias de Eduardo Martins

Diz ter-se encontrado como pintor e escritor em Lisboa, por onde passou para cumprir formação em Sociologia. Numa capital que é caldo de lusofonia, percebeu, ainda assim, que fora do lugar onde nasceu estava destinado a ser estrangeiro. Na literatura e na arte desenha-se o vínculo a uma questão identitária da qual acredita não ser possível fugir. No regresso a Cabo Verde, incontornável lugar de pertença, fez-se quase tudo: pintor, fotógrafo, jornalista, cronista, escritor de romance, conto e poesia, político e deputado. Aos 37 anos, Abraão Vicente é, há quase um ano, ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde. Chega ao Festival Literário de Macau enquanto autor, e desvenda a identidade do Morabeza – Festival Literário de Cabo Verde, que, por sua iniciativa, se inaugura em Outubro, na Cidade da Praia, e onde pretende materializar um encontro entre quatro continentes. Num festival que tem como propósito abrir ao mundo os autores cabo-verdianos, a literatura de Macau também estará presente.

“Lisboa foi o sítio onde me encontrei como pintor, primeiramente como artista plástico. E a escrita veio nessa procura de compreender como é que podemos ser tão diferentes estando longe do nosso país. Foi quase o momento iniciático de ser outro, mas nunca levei isso como um drama”, contou Abraão Vicente, ontem, após a sessão em que participou no Rota das Letras.

Na passagem por Portugal, onde germina um percurso como artista plástico e escritor, percebe o actual ministro a ligação inviolável ao lugar de pertença: “Os africanos, os Erasmus, todos os que estavam em Lisboa diziam que somos cidadãos do mundo. Com o tempo percebemos que somos cada vez mais de onde somos. Percebi que sou muito cabo-verdiano, não renegando as outras raízes, as outras misturas que tenho”. Um regresso à matriz que atravessa a produção literária e artística: “A minha literatura, a minha arte toda, têm a ver com essa questão identitária. E nós não podemos fugir de nós, apesar de alguns de nós conseguirmos driblar a nossa identidade, a maior causa é fazer com que o lugar de onde somos seja um sítio melhor”, defende.

Com uma obra literária que contempla o romance, a poesia e o conto, o ministro cabo-verdiano responsável pela tutela da Cultura desde Abril de 2016, prepara-se para inaugurar na Cidade da Praia um festival literário, o Morabeza, que promove o encontro atlântico entre continentes. Macau, por via do Rota das Letras, também se fará representar no certame: “Nós começamos pela ideia da tri-continentalidade. Somos o único país feito de ilhas no meio do Atlântico, e somos um ponto, todos os grandes navegadores passaram por Cabo Verde. Fomos cruciais nas Descobertas e hoje podemos ser cruciais em unir a América, a África e a Europa. Mas agora surge Macau, o que é fantástico, porque com Macau cumpre-se os quatro continentes. Assinamos acordos com festivais em todos os continentes, e vai nascer um verdadeiro festival do mundo em Cabo Verde”, assinala.

O evento literário, que arranca na última semana de Outubro, não se circunscreve, contudo, à literatura de expressão lusófona: “A ideia não é só reflectir sobre Cabo-Verde, não é só lusofonia. Nós temos uma grande relação agora com toda a costa ocidental africana, onde há francófonos e há anglo-saxónicos. Portanto, a nossa ideia é abrir, é fazer de Cabo-Verde aquilo que sempre foi, um lugar de chegada, onde nós damos palco aos autores cabo-verdianos, porque é o que nós precisamos neste momento. O ideal seria os escritores que chegam a Cabo Verde saírem com livros de escritores cabo-verdianos, para depois fazermos essa partilha”, admite.

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O intercâmbio com o Festival Literário de Macau inaugura-se com a participação de Abraão Vicente na 6ª edição do Rota das Letras: “Desta vez foi o escritor que trouxe o ministro, e não o contrário, o que também é bom. Vim como autor, vamos firmar um acordo, mas a ideia é levar autores de Macau para o Festival Literário de Cabo Verde, em Outubro, e esta rota vai permanecer todos os anos”.

O autor do território que se deslocará à Cidade da Praia, ainda não está, contudo, escolhido: “O Rota das Letras é que vai indicar, ainda ontem estivemos a falar e ainda não escolheram. Toda a curadoria do festival será feita pela Booktailors, a agência de escritores, de Lisboa. E eles aqui em Macau vão indicar um autor que irá a Cabo Verde, como nosso convidado”.

Da estreia em Macau, onde se encontra há poucos dias, Abraão Vicente retém já a imagem de uma cidade cosmopolita: “Esperava encontrar um Macau mais português, mas já não há. O modo como se ocupa o espaço, o modo como as pessoas são, há muita gente culta, curiosa, aqui há um verdadeiro sentido de cosmopolitismo, dessa curiosidade de conhecer o mundo, que é o que nós queremos em Cabo Verde”. No Rota das Letras, Abraão Vicente vai ainda participar, a 7 de Março, às 18 horas, na sessão intitulada “Cabo Verde, País de Escritores”, no Edifício do Antigo Tribunal.

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