“Acho que me considero primeiro artesão, depois fotógrafo”

Hugo Teixeira enquadra-se numa forma de expressão dentro da fotografia que se socorre de técnicas vinculadas à matriz da arte fotográfica. Num conjunto de três workshops, que decorrem em Março no Taipa Village Art Space, o fotógrafo propõe-se demonstrar como se chega à criação de uma imagem através da ambrotipia e da cianotipia. Sem rejeitar o formato digital, a que também recorre na exploração de técnicas híbridas, o autor avança por estes dias sobre a platinotipia, num regresso contínuo ao princípio de tudo.

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Fotografia: Félix Januário Vong

Sílvia Gonçalves

Produzir imagens em preto e branco sobre placas de vidro, criar imagens azuis e brancas sobre papel-aguarela. Recuar a um tempo oitocentista para reencontrar a matriz da arte fotográfica, com a perseverança de quem lhe tenta desvendar o mistério. Estender as horas embrulhado na penumbra e solidão da câmara escura, até criar a imagem que se perpetua. O trabalho de Hugo Teixeira apresenta-se por esta altura no Taipa Village Art Space, com a exposição “Transience”, uma mostra que conjuga duas técnicas que desafiaram a voragem do tempo, de nome encharcado de arcaísmo: ambrotipia e cianotipia. A curiosidade do público impulsionou a organização de três workshops que terão lugar, já em Março, na mesma galeria, nos dias 11, 18 e 25, e que levam como título: “A Journey to the 19th Century Fascination”. Numa passagem breve por Portugal, o artista aproxima-se agora da platinotipia, entendida como o mais nobre processo fotográfico. Diz-se artesão, ainda antes de ser fotógrafo, e no fascínio pela impressão reside a vontade de deixar uma marca que só pode ser indelével.

“A ambrotipia é uma técnica que produz imagens em preto e branco sobre vidro, que se usava a partir da década de 1850. No workshop [a 18 de Março], os participantes vão ter oportunidade de primeiro observar como é feito. Vou fazer uma demonstração e poderão depois fazer por si próprios. Consiste em cobrir o vidro de uma emulsão sensível à luz e fazer a exposição, tirar a fotografia com uma máquina de grande formato, de estilo antigo”, começa por explicar Hugo Teixeira, a partir de Portugal.

O fotógrafo – que reside em Macau desde 2010 – detalha ainda um processo fotográfico que, no workshop, não vai contemplar o uso da película ou negativo: “Fica uma imagem positiva, directamente no vidro. Nós vamos depois criar um fundo preto, a imagem fica positiva”. O processo, como não podia deixar de ser, implica uma exposição lenta: “Depende da luminosidade mas, se estiver um dia de sol, cerca de 10 segundos. Essas placas a seguir são submersas noutro químico, que é o revelador, que faz com que a imagem apareça. E depois ainda noutro químico, que é o fixador, que faz com que a imagem seja permanente. E daí é lavado para retirar os químicos residuais”, explica.

Ao workshop de ambrotipia segue-se, a 25 de Março, o de cianotipia. “A cianotipia usa papel de aguarela, e no workshop os participantes vão aprender a utilizar o papel, com outros químicos, que são aplicados com pincel. Depois de seco, ficamos com um papel fotográfico, sensível à luz”, papel que será depois utilizado para revelar a imagem a partir de um negativo.

Os dois workshops práticos, que decorrem entre as 14 e as 18 horas, com um custo de 550 patacas cada, são precedidos, a 11 de Março, entre as 14 e as 16 horas, de um workshop teórico e gratuito, que permite uma introdução às duas técnicas, e a que o fotógrafo luso-americano, de 35 anos, chamou “Behind the Scenes of Darevils and Towering Webs”. Na sessão, Hugo Teixeira vai procurar explicar o processo de construção da exposição “Transience”, onde as duas séries e técnicas se encontram: “Na série de retratos, os retratados são homens e mulheres que montam andaimes em bambu em Macau. São 12 retratos em ambrotipia. As 12 imagens em cianotipia são fotografias de arquitectura, são prédios cobertos dos tais andaimes que são feitos por esses homens e mulheres que são retratados”. Já o título, remete para a transitoriedade das estruturas captadas nas imagens: “As duas séries complementam-se uma à outra, que é ‘Transience’, são estruturas que não são permanentes, como transeuntes que aparecem e desaparecem”, descreve.

A aproximação a técnicas que remontam ao século XIX acontece na San José State University, na Califórnia, onde Hugo começou por estudar fotografia, acabando depois por se licenciar em Linguística: “Tive nessa época um professor que trabalhava em processos alternativos, oitocentistas. Ele fazia o papel, fazia muito trabalho de paisagem. Aquilo captou-me, de alguma forma, e até hoje continuo”, conta.

Professor de inglês no Instituto de Formação Turística, Hugo Teixeira, que nasceu em Lisboa e cresceu nos Estados Unidos, encaixa a fotografia num tempo paralelo ao ensino. Esta semana frequentou um workshop de platinotipia em Portugal, “um processo produzido no século XX que usa sais de platina, é considerado o mais nobre processo fotográfico”. O artista pretende explorar a técnica no regresso a Macau.

O trabalho contínuo de apropriação de técnicas coloca-o mais próximo de um registo de manufactura do que da imagem imediata que marca o nosso tempo: “Acho que me considero primeiro artesão, depois fotógrafo. Gosto da ideia de revelar, de desvendar um bocadinho a fotografia. No digital aquilo é uma ‘black box’, carregamos ali e não sabemos o que se passa, como é que a imagem se cria. Eu gosto da imagem em suportes físicos, que permite desvendar um bocadinho aquele mistério”.

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