“Bem vindo soldado, foi uma longa viagem”

 

Um antigo militar chinês regressou à sua aldeia natal depois de ter ficado durante mais de meio século retido na Índia, na sequência do breve conflito que opôs Pequim e Nova Deli. Wang Qi, que viveu grande parte da vida em condições de extrema pobreza, casou e constituiu família no estado de Madhya Pradesh.

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Um antigo soldado chinês retido na Índia desde 1963 – quando foi preso na sequência do fim da guerra que colocou frente-a-frente ambos os países – regressou à sua terra natal, este fim de semana, 54 anos depois do conflito.

Mais de meio século depois do incidente que o obrigou a viver no país vizinho, Wang Qi viajou na noite de sexta-feira para Pequim e no sábado até à cidade de Xian, no centro do país, próxima da sua terra natal, onde foi recebido entre lágrimas pelos seus irmãos.

Na localidade onde nasceu, Xuezhainan, os seus antigos vizinhos prepararam cartazes de boas-vindas, com mensagens como “bem-vindo soldado, foi uma longa viagem”.

“Finalmente estou em casa”, afirmou, ao chegar, o emocionado Wang que iniciou o seu exílio forçado em 1963, um ano depois da guerra entre a Índia e a China (de Outubro a Novembro de 1962), quando fazia parte de um destacamento próximo da conflituosa fronteira.

O então soldado deixou o acampamento dos seus companheiros para dar um passeio e acabou por se perder num bosque ao ponto de inadvertidamente cruzar a fronteira, sendo encontrado depois por membros da Cruz Vermelha indiana que o entregaram ao exército do país.

Wang passou seis anos em várias prisões indianas por suposta “espionagem” e ao sair da cadeia percebeu que não podia recuperar o passaporte para poder regressar à China nem obter nacionalidade indiana para ter um visto.

Encurralado nesse limbo legal acabou por se casar com uma mulher indiana no estado central de Madhya Pradesh e constituir família no país outrora “inimigo”.

O antigo soldado trabalhou num moinho de farinha na aldeia onde se fixou e viveu em condições de extrema pobreza.

Durante as décadas passadas, Wang não deixou de escrever aos familiares em Xuezhainan expressando a sua nostalgia e o desejo de um dia poder regressar, sobretudo quando a sua mãe morreu, em 2006.

Em 2013, conseguiu novamente passaporte chinês, mas não o consentimento das autoridades indianas para, a par com a sua nova família, sair do país.

Foi preciso o insólito caso chegar, no mês passado, à imprensa internacional, depois de noticiado pela indiana, para que os funcionários indianos e chineses se solidarizassem com ele e o ajudassem com os trâmites processuais.

Finalmente, na quinta-feira, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano indicou que os passaportes de Wang Qi e respectiva família – filho, filha, nora e neto – seriam enviados ainda naquele dia, para que pudessem iniciar a sua viagem.

A sua mulher não pôde juntar-se à família por estar doente. Dá-se ainda a circunstância de Wang ter podido regressar à China na altura em que se celebra o Festival das Lanternas (primeira lua cheia do Ano Novo Chinês), uma das datas mais importantes do calendário oriental, em que as famílias se reúnem, à semelhança do costume ocidental do Natal.

O conflito entre a República Popular da China e a Índia durou pouco mais de um mês, terminando com a vitória das forças chinesas e iniciou uma longa rivalidade entre os dois gigantes asiáticos, alimentada pelo apoio chinês ao Paquistão, rival de Nova Deli.

O motivo principal da guerra foi a fronteira nos Himalaias, local de violentos confrontos fronteiriços desde a insurreição tibetana em 1959.

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