Investigação sobre madeira de aquilária já tinha sido aberta e arquivada

Ho Chio Meng começou a ser investigado a 5 de Fevereiro de 2015 por extravio de um carregamento de aquilária. A madeira apareceu e o caso acabou arquivado. Pelo meio houve uma conversa entre Ho Chio Meng e o actual procurador Ip Son Sang, que o ex-Procurador diz caber ao líder do Ministério Público revelar. Ip Son Sang terá dito ao arguido para não se preocupar.

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João Santos Filipe

Apesar do episódio do desaparecimento da madeira de aquilária fazer agora parte do caso Ho Chio Meng, um outro processo por suspeita de peculato já tinha sido aberto a 5 de Fevereiro de 2015. Como as peças em causa foram devolvidas antes de 9 de Fevereiro, o caso foi arquivado. Contudo, com o início do processo contra o ex-Procurador a investigação voltou a ser aberta. A revelação foi feita ontem pelo procurador-adjunto Vong Vai Va, em mais uma sessão do julgamento de Ho Chio Meng.

Segundo Vong Vai Va, a 5 de Fevereiro de 2015 vários membros do Ministério Público foram ao 16.º andar do edifício Hotline, à sala de descanso para docentes, para procurarem a madeira de aquilária que se suspeitava ter sido extraviada. A madeira, valiosa, estava à guarda do Ministério Público a título de prova e de acordo com algumas testemunhas ouvidas ontem foi retirada da sala por dois funcionários a mando de Ho Chio Meng. O procurador não negou esta versão.

A indicação para que os membros do Ministério Público fossem à sala foi dada por Ip Son Sang, que também se deslocou ao local. Quando lá chegaram, encontraram Ho Chio Meng.

Nessa altura Ip Son Sang e Ho Chio Meng tiveram uma conversa sobre as provas em falta. Nesta fase o ex-Procurador terá admitido que as peças estavam na sua posse e que as ias devolver, disse ontem Vong Vai Va no Tribunal de Última Instância. Apesar de vários membros do MP estarem presentes a conversa terá sido conduzida apenas entre Ip e Ho: “Entrámos no 16.º andar e o Procurador Ip Son Sang pediu a Ho Chio Meng para devolver a madeira. Após essa conversa, o ex-Procurador levou-nos ao 6.º andar do Dynasty Plaza, onde era o seu gabinete, e devolveu um pedaço de aquilária”, disse ontem Vong Vai Va. “Quando entrámos no seu gabinete, o Sr. Ho já estava com a peça de aquilária na mão e colocou-a na mesa. Parece-me que na altura ouvi o Sr. Ho dizer que tinham acabado obras no gabinete e que a aquilária era para tirar o cheiro”, recordou a testemunha.

A devolução dos materiais teve depois de ser interrompida porque Ho Chio Meng tinha à sua espera no gabinete investigadores do Comissariado Contra a Corrupção.  A entrega das restantes peças ficou assim marcado para as 19h00 do mesmo dia: “Mais tarde houve uma reunião com o Procurador Ip Son Sang e foi discutida a instauração de um processo porque só tinha sido recuperada um pedaço de madeira. Ainda faltava encontrar muitas outras porções”, esclareceu Vong Vai Va.

 

Finalmente às 20h00 do mesmo dia, Ho Chio Meng entrou em contacto com Ip Son Sang para devolver os restantes pedaços. O local do encontro foi novamente o 16.º andar do edifício Hotline.

“Nessa altura ele entregou um saco com oito peças de aquilária pequenas. Tinha também noutro saco várias colunas pequenas de aquilária, ou seja entregou-nos dois sacos”, disse ainda Vong Vai Va.

A 9 de Fevereiro apareceram as restantes três peças em falta, sendo que Ho Chio Meng nega ter entregue as mesmas nessa data. Algumas das testemunhas ouvidas ontem – como o próprio Vong Vai Va ou o escrivão Manuel Machado – afirmam o contrário.

 

Arquivamento e conversa entre Ip e Ho

 

Com as provas a aparecerem, a investigação sobre o crime de peculato – crime relativo à apropriação de bens públicos – foi arquivada. Esta decisão foi explicada do ponto de vista técnico por Vong Vai Va.

“A prova mais forte para o peculato é a busca. Por exemplo, teríamos uma prova forte se a aquilária tivesse sido encontrada na residência oficial do ex-Procurador. Mas como as coisas apareceram, achei que não ia haver provas suficientes para ele ser considerado culpado”, explicou o procurador-adjunto, que estava responsável pela investigação.

Vong Vai Va revelou igualmente que equacionou solicitar um mandato para a realização de buscas, mas as peças acabaram por aparecer antes do pedido ter sido formalizado.

O procurador-adjunto disse ainda que Ho Chio Meng não teve conhecimento deste processo: “No 16.º andar de manhã tivemos de aguardar porque o Sr. Ho e o Procurador Ip estiveram a falar cerca de uma hora. Mas não sei o que disseram. Sei que Ho esclareceu as dúvidas do Procurador mas não sei o conteúdo da conversa porque não me aproximei deles para ouvir”, revelou.

Ho Chio Meng pediu a palavra para dizer que não revelava o conteúdo da conversa com Ip Son Sang e que era este que tinha de prestar tal esclarecimento, se quisesse testemunhar. No entanto o ex-Procurador já tinha abordado a conversa a 19 Janeiro, no âmbito do testemunho de Wu Kit I, chefe-adjunta do Gabinete do Procurador, que também esteve na sala de docentes durante a conversa. Na altura, Ho Chio Meng afirmou que Ip Son Sang lhe tinha dito para não se preocupar.

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