Biógrafo de Manuel da Silva Mendes recorre a campanha para financiar edição da obra

No ano em que se assinalam os 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes, o jornalista João Botas prepara-se para lançar uma biografia do antigo professor e reitor do Liceu de Macau, figura de intervenção cívica e política, cujo papel no território se estendeu ao estudo profundo da filosofia e cultura chinesas. A falta de apoio de editoras e de instituições ditou o recurso a uma campanha de crowdfunding na Internet, com que o autor espera reunir, até 20 de Março, o financiamento necessário para a publicação da obra.

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Sílvia Gonçalves

Professor, advogado, juiz, escritor, sinólogo, coleccionador, republicano convicto num tempo anterior à implantação da República, socialista utópico, divulgador dos ideais do socialismo libertário e do anarquismo. Figura poliédrica, Manuel da Silva Mendes desdobrou-se na intervenção cívica e política, primeiro no Portugal onde nasceu em 1867, depois na Macau a que rumou aos 34 anos e onde viria a morrer três décadas depois. No ano em que se assinalam os 150 anos do nascimento do intelectual nascido em São Miguel das Aves, no concelho de Vila Nova de Famalicão, o jornalista João Botas lançou uma campanha de crowdfunding para financiar a edição da biografia de Silva Mendes, de sua autoria. O recurso a potenciais leitores para a angariação de fundos surge depois de caírem por terra “várias promessas de edição, nomeadamente de Macau”. A partir de Portugal, onde reside, João Botas diz não perceber o que chama de ignorância e cegueira das instituições públicas e privadas quanto à importância de Silva Mendes na história do território na primeira metade do século XX.

João Botas esbarrou na figura de Silva Mendes quando escreveu, em 2007, “Liceu de Macau: 1893-1999”, instituição onde foi aluno, e onde outrora o intelectual republicano foi professor e reitor. A ideia de avançar para uma biografia encontra razão na vontade de estender um gesto de gratidão e resgatar da bruma uma figura hoje confinada ao esquecimento: “Porquê Silva Mendes? Porque ele merece e há muito tempo. Porque Macau e a China têm uma dívida de gratidão para com o seu legado, e como, ao que parece, nesse território quem tem responsabilidades ao nível da política cultural, ou não percebe nada do assunto ou tem outros interesses, resolvi avançar sozinho para esta biografia que é porventura a melhor forma de homenagear uma pessoa”, conta o jornalista.

O desconhecimento da relevância de Manuel Silva Mendes, defende Botas,  não encontra correspondência na dimensão do reconhecimento verificado aquando da sua morte: “Quando ele morreu, em 1931, a elite de portugueses, macaenses e chineses percebeu tão bem a importância da sua colecção de obras de arte, que tudo fez para a manter no território. Passados perto de 90 anos, não se percebe a ignorância e/ou cegueira das instituições, não só públicas como privadas, quanto à importância de Silva Mendes na história de Macau na primeira metade do século XX”, assinala o jornalista, de 46 anos.

João Botas, que viveu em Macau durante a adolescência, chega ao fim de um trabalho iniciado em 2011, com “cerca de 100 mil palavras e mais de 300 imagens (fotografias e documentos), muitas delas inéditas, incluindo do interior da casa de Silva Mendes e da paginação de um livro que nunca chegou a ser publicado”. Ao volume acrescenta “textos inéditos, colorações de imagens antigas, ilustrações”. A surpresa maior verificada no decurso da investigação prende-se, sobretudo, com a falta de apoios e até barreiras com que diz ter esbarrado: “Surpreendeu-me o facto de ser público, há pelo menos três anos, que estou a trabalhar neste livro, ser o biografado quem é, e, mesmo assim, não ter todos os apoios necessários para a edição, acrescendo ainda o facto de ainda terem existido tentativas de boicote ao trabalho de investigação”, revela.

O trabalho de pesquisa, que passou pelos dois territórios, desenvolveu-se sobretudo em Portugal, e incluiu contactos com familiares directos de Silva Mendes: “A ideia de escrever esta biografia começa com um contacto que recebi de uma bisneta de Silva Mendes e que, por sua vez, me deu a conhecer a neta que tinha consigo alguns documentos e objectos pessoais do avô”, explica.

Para o autor, editar a biografia no 150º aniversário do nascimento do antigo reitor do Liceu de Macau, procurador da República, administrador do Concelho de Macau e presidente do Leal Senado,  “faz com que a edição assuma ainda mais o carácter simbólico de homenagem a uma pessoa que, inexplicavelmente, tem sido esquecida e que personifica, como poucos, a génese de Macau, a fusão entre o Oriente e o Ocidente”.

A opção pelo crowdfunding, para financiar a edição do livro, cuja campanha decorre na internet, justifica-se pela quebra de promessas que afastaram a possibilidade de contar com uma editora: “São várias as justificações. A começar pelo facto de ter tido várias promessas de edição, nomeadamente de Macau, mas quem prometeu nunca cumpriu”, “o que lamento é a atitude de instituições como a Fundação Macau, o Museu de Arte de Macau e outras, que tendo responsabilidades na divulgação da história e cultura de Macau ou rejeitaram os pedidos de colaboração ou nem responderam”.

Entretanto, e “depois de muita insistência”, o Instituto Cultural “mostrou-se interessado em ser co-editor do livro”, conta João Botas, a propósito de uma possibilidade que permanece ainda em aberto: “As negociações ainda decorrem e espero que cheguem a bom porto. Uma coisa posso garantir: tal como disse publicamente em 2013, com ou sem a totalidade do dinheiro necessário, o livro será apresentado publicamente no primeiro semestre deste ano. Nem que tenha que por dinheiro do meu bolso”.

Através da página electrónica que gere a campanha de crowdfunding (que decorre até 20 de Março), o autor diz ter angariado “cerca de 200 euros”, a que se juntam as contribuições directas, o que totaliza aproximadamente 500 euros. “Ou seja, faltam nesta altura cerca de 1500 euros para que os objectivos sejam alcançados. Caso contrário, os contributos recebidos serão devolvidos”, garante o autor. O livro, que terá um preço de capa de 15 euros, conta com design gráfico de Miguel Chinopa e prefácio de João Guedes.

 

 

 

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