Uma semana de liberdade à entrada de um novo ciclo

Radicado em Macau há 30 anos, Fernando Sales Lopes esteve ontem na Fundação Rui Cunha para falar sobre os elementos, as tradições e os rituais que caracterizam as festividades do Ano Novo Lunar. A quadra, diz, “não é bem um carnaval, mas é uma altura de liberdade para a população chinesa”. Numa sala preenchida por luzes e decoração em tons de vermelho, o historiador discorreu para uma plateia bem composta.

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Em Macau há três décadas e com curiosidade aguçada, Fernando Sales Lopes dedica-se à investigação dos elementos que caracterizam a cidade. A sua formação em História, Relações Interculturais e Antropologia serve-lhe de base para estudos que se centram em aspectos que vão desde a alimentação à identidade da comunidade macaense. Ao longo dos mais de trinta anos que leva no território também se entregou ao estudo das festividades de Macau e ontem, na Fundação Rui Cunha, falou para uma sala cheia sobre a maior das celebrações da cultura chinesa, o Ano Novo Lunar.

As  especificidades ontem enunciadas por Sales Lopes vão muito além da dicotomia sorte/azar e da superstição que parece entranhada na cultura tradicional chinesa: “Mas dá azar porquê? Dá sorte porquê? Temos de tentar perceber isto”,  interroga o historiador. “Esta festa é tão importante que será bom que a gente tenha curiosidade sobre ela e que possa saber um bocadinho mais”, defendeu.

Cores, comida, formas, animais ou a astrologia são alguns dos elementos que dão sentido a uma celebração que  está na origem da “maior deslocação interna que existe no mundo”. Para tudo “há histórias, há lendas”: “As festas tradicionais chinesas dividem-se em dois grandes grupos: as festas do vermelho e as festas do branco. As festas do vermelho são as festas da vida e as festas do branco são as festas da morte. Ou seja, o Ching Ming – o dia de finados chinês – pertence ao branco. O fim de Ano e a Festa da Lua pertencem ao vermelho”, explicou o investigador.

O vermelho, característico, portanto, do Ano Novo Lunar “é a cor do sangue que é o elemento da vida e é a cor do Imperador. É a cor da China”, acrescentou o estudioso.

Sales Lopes narrou ao PONTO FINAL a história do Deus do Fogão, a divindade que se comemora no 23º dia do 12º mês, altura da última lua do ano. Está atento a tudo o que acontece na família e é ele que serve de intermediário entre a terra e outras entidades do universo divino: “Ele toma conta da família. Mantém-se atento a tudo o que acontece. Só que, no 23º dia da 12ª lua, vai lá acima ao Imperador de Jade – o senhor dos Céus – com o relatório do que é que as pessoas fizeram durante o ano todo. Por isso, a família, nessa noite a que ele pertence, faz um grande jantar e (…) embebedam o Deus do Fogão com muita aguardente. Porquê? Assim, quando chega lá acima, ainda vai bêbado e não consegue dizer que a família se portou mal”, explicou, entre risos, o historiador.

A lenda pode ser apenas uma lenda, mas tal como todos os elementos que contribuem para a definição da cultura chinesa, tem um significado. A verdade é que “o Deus do Fogão volta uma semana depois, na noite de Ano Novo Chinês, e é esta a semana da liberdade para os chineses”, disse Sales Lopes.

 

OS MAIORES MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS INTERNOS DO MUNDO

 

Já é a maior deslocação humana interna no mundo e o número de pessoas em transumância continua a aumentar: “Cada vez há mais poder de compra para as pessoas se deslocarem”, explicou o investigador radicado em Macau. O movimento migratório “é quase que obrigatório para quem cumpre as tradições e eles [chineses] cumprem quase todos. O Ano Novo Lunar é muito importante porque é a Festa da Primavera, é a festa da renovação e é a festa da família. Podemos comparar ao nosso Natal, só que somos menos”, assinalou Sales Lopes.

Aos chineses que permanecem na China, juntam-se aqueles que estão espalhados por vários pontos do globo: “Não só das comunidades aqui da zona do sudeste asiático onde eles estão há centenas de anos – e em grandes comunidades – mas também dos Estados Unidos, do Canadá, de África – agora –, da Europa, como de todo o lado”, esclareceu o mestre em Relações Interculturais, “É a maior festividade que existe, não há outra. Nem nunca houve, sempre foi assim”, defende o investigador. J.F.

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