Pintar como quem respira. Casa de Portugal homenageia Manuela Martins

A Casa Garden acolhe entre o final da tarde de hoje e o dia 5 de Fevereiro a exposição “Observações”. A mostra reúne 26 telas de Manuela Martins, figura incontornável do ensino artístico do território na recta final do período da Administração portuguesa.

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Marco Carvalho

Cria com a naturalidade e com a vitalidade de quem respira e aos 84 anos continua a ter no pincel um dos mais fidedignos companheiros. Manuela Martins, artista plástica que na recta final da Administração portuguesa se notabilizou no ensino da educação artística, não fez a viagem até Macau, mas é dela – e sobretudo da relação estética que ainda mantém com o território – que se vai falar mais logo na Casa Garden.

A sede da delegação da Fundação Oriente na RAEM acolhe entre hoje e o próximo dia 5 de Fevereiro, a exposição “Observações”, uma mostra que reúne 26 obras de Manuela Martins criadas pela artista entre 2009 e 2016. Com curadoria do filho, o também artista plástico Rui Calçada Bastos, a iniciativa reúne trabalhos que têm Macau – cidade ausente, mas sempre presente – como denominador comum: “A minha mãe chegou a fazer uma exposição em 2009, não sei precisar se nas instalações da Casa de Portugal, se noutro local. Para esta exposição centrei-me mesmo em obras sobre Macau, em que ela foi trabalhando desde 2009”, explicou Rui Calçada Bastos ao PONTO FINAL. “A minha mãe saiu de Macau, mas Macau não saiu da minha mãe. Muitas vezes pinta tendo por base registos fotográficos e até se socorre de imagens nossas, da presença ou do regresso dos filhos ao território”, complementa o artista plástico.

Mais do que uma retrospectiva da obra de Manuela Martins, a exposição esta tarde inaugurada configura-se como o tributo que tardava a uma figura incontornável do ensino das artes no território na recta final do período da Administração Portuguesa. Contemporânea de artistas como Lourdes Castro e José Escada, com quem privou, Manuela Martins privilegiou a família em detrimento da carreira e se não alcançou a notoriedade artística que Castro e Escada alcançaram, conquistou respeito nos lugares onde viveu, de Moçambique a Lisboa, passando por Macau: “Naqueles anos em que aqui vivemos eram raras as pessoas que pintavam. Os portugueses que vinham para Macau vinham sobretudo para trabalhar na função pública e ela foi aos poucos ganhando terreno e firmando nome em Macau”, recorda o filho.

“Observações” nasce de um convite formulado pela Casa de Portugal em Macau e da boa vontade da Fundação Oriente, que cede o espaço onde a mostra decorre até 5 de Fevereiro. Entre as 26 obras que compõem a exposição estão trabalhos com formatos e motivações estéticas muito distintas e que vão desde o retrato  (há pelo menos um, de Monsenhor Manuel Teixeira) a paisagens urbanas em que o Oriente se revela em detalhes tão simples como a imponência da falsa figueira do pagode: “A minha mãe sempre se furtou ao lugar comum dos vermelhos e dos dourados para retratar a China. Esse não é o caso da minha mãe. Há uma série de pinturas que são árvores – estas árvores com as raízes pendentes – e nesses casos as paletas são mais para o cinzento e para o castanho. A minha mãe pinta sobretudo o que vê”, explica Rui Calçada Bastos.

Aos 84 anos, e depois de mais de seis décadas de pincel em riste, a pintura continua a ser para Manuela Martins um exorcismo quotidiano. O filho artista diz que a mãe precisa de um pincel e de uma tela como quem precisa de pão para a boca: “É um bocado como respirar. Quando as coisas são sérias e importantes são um bocado vitais. O que é verdadeiramente notável na minha mãe é que ela tenha conseguido continuar com a crença na pintura”, remata Calçada Bastos.

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