Expressar os sentimentos mais profundos através da renegociação de meios. José Drummond na Casa Garden

José Drummond, artista plástico português radicado em Macau, está a ultimar a montagem de uma exposição individual que terá lugar na galeria da Fundação Oriente a partir da próxima sexta-feira. Ao PONTO FINAL, o artista fala do jogo de meios que utilizou nas suas obras e do elemento água, linha condutora da exposição promovida pela organização cultural local BABEL.

Artista José Drummond, fotografado na Fundação Oriente, em Macau.

Fotografias: Eduardo Martins;
Há fotografias, instalações de vídeo e música na exposição do artista plástico português José Drummond. “I’m Too Sad Too Tell You” explora uma narrativa construída a partir da incapacidade de expressão de sentimentos e ganha forma com os trabalhos mais recentes do artista radicado em Macau. A nova mostra individual do artista, inserida na iniciativa New Vision, promovida pela organização cultural BABEL, apresenta-se ao público na próxima sexta-feira, pelas 18h30, na galeria de exposições temporárias da Casa Garden.
Entre lágrimas, pinturas e deambulações nocturnas, surge-nos a água como elemento transversal que encadeia as três séries de fotografias que compõem a exposição. “How To Dry a Face Full of Tears” busca inspiração num dos trabalhos mais famosos do artista norte-americano Man Ray – a série fotográfica “Tears” – “em que Ray fotografou uma modelo-manequim e toda a gente pensou, durante muito tempo, que era uma mulher realmente”, explicou Drummond ao PONTO FINAL.
“O meu ponto foi o contrário”, salientou o artista. “Foi exactamente o tentar fazer fotografias quase de revista e, nesse aspecto, chamar a atenção para o modo como as mulheres são tratadas nas revistas, como manequins ou como todos estes estereótipos da beleza feminina que são vulgarizados nas revistas de moda e de ‘lifestyle’”, sublinha.
José Drummond esclareceu o seu ponto de partida, mas aquilo que criou mostra o “habitual do [seu] trabalho”: “Faço um set-up, portanto volto a falsear a questão e elas [mulheres] acabam por não estar realmente a chorar, estão vagamente com um ar triste. Mas depois há uma sobreposição de luzes e de chuva que, simbolicamente, coloca a coisa no mesmo sentido”, explicou o artista ao PONTO FINAL, assumindo que é a série “mais figurativa” da exposição.
As paredes da Casa Garden serão ainda preenchidas por “Think Of The Saddest Thing In Your Life”, série da qual uma das fotografias foi seleccionada para a lista de nomeados deste ano do conceituado Sovereign Asian Art Prize. O conjunto de cinco fotografias mostra um lago que José Drummond, “em noites de insónia”, visita e com o qual decidiu perpetuar um jogo de luzes: “No lago, eu levei um projector para alterar a [sua] luz. Isto também tem a ver com pintura, (…) tem a ver com algumas pinturas impressionistas. Há outro lado que me seduz muito que é o de poder levar a que a imaginação das pessoas veja outras coisas”, disse o artista plástico.
A dimensão da cor nas obras de José Drummond abrange tanto o preto e branco como tonalidades mais expressivas. As nuances fortes de azul e cor-de-rosa destacam-se em fotografias ainda dispostas no chão da Casa Garden, à espera de um espaço nas paredes da segunda sala da galeria: “Para mim são pintura. No fundo, aquilo é pintura e o ‘media’ [meio, em português] em que é apresentada é que é fotografia. Existe aqui uma renegociação de qual dos media está em jogo. É uma conversa que estou a tentar estabelecer nessa série. É muito óbvio que, ali, houve realmente uma acção minha – propositada – para criar, que envolveu tinta e, depois, um fotografar daquilo”, assumiu o artista plástico. Drummond acrescenta que lhe interessa “renegociar essa narrativa do acto da câmara, do que é que se põe à frente da câmara, o que é que se faz com ela e não ficar reduzido àquilo que seria, eventualmente, o mais óbvio.”

Artista José Drummond, fotografado na Fundação Oriente, em Macau.
Dada a renegociação dos meios que utiliza para concretizar os seus trabalhos, José Drummond considera-se um artista “processual”. A peça central de toda a mostra – espacialmente inserida na sala central da galeria da Fundação Oriente – é prova disso mesmo. À instalação de vídeo está associada a “ideia de multiplicidade, sombras e espelhos”: “[A instalação] vem em continuação de uma certa narrativa de desencontro e desencanto entre duas pessoas, ou três, ou quatro. (…) Há uma série de ‘layers’ [camadas, em português] que foram acrescentados à imagem. Também tem música. Acaba por ser um video music, de alguma forma”, explicou o artista ao PONTO FINAL, sublinhando também uma certa “noção de infinito” associado à instalação dos espelhos.
A cerimónia de inauguração de “I Am Too Sad To Tell You” está agendada para as 18h30 da próxima sexta-feira e tem lugar no primeiro piso da Galeria da Fundação Oriente. Segue-se uma festa no Macau Dance Music Association (MDMA) e Hyper Club com início às 23h do mesmo dia. J.F.

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