Ex-chefe do gabinete de Ho diz que práticas definidas por juiz como ilegais “eram uma realidade”

 

Lai Kin Ian teve acesso a informação confidencial e ajudava o ex-Procurador e o Procurador-Adjunto a trocarem informação sobre casos em investigação. Quando o juiz lhe disse que isso era ilegal, o ex-chefe do Gabinete do Procurador admitiu a sua ignorância mas disse ser “uma realidade”.

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João Santos Filipe

O ex-chefe do gabinete do Procurador, Lai Kin Ian, admitiu ter tido acesso a informação confidencial ao servir como intermediário na comunicação entre Ho Chio Meng e o Procurador-Adjunto Vong Vai Va e ainda por ter entrado na sala do Ministério Público onde são guardadas as provas apreendidas.

Lai Kin Ian –  arguido no processo conexo ao do ex-Procurador – foi ouvido ontem à tarde, como testemunha, no Tribunal de Última Instância e admitiu desconhecer que as condutas eram ilegal. A afirmação levou o juiz-assistente Lai Kin Hong a criticá-lo fortemente.

De acordo com a acusação, após duas operações, em 2013, que resultaram na apreensão de madeira de aquilária por parte dos Serviços de Alfândega, Ho Chio Meng terá decidido instaurar um processo criminal para ter acesso à madeira apreendida. A aquilária foi assim transportada para o edifício do Ministério Público, tendo depois sido utilizada para efeitos de decoração. Por este episódio, o ex-Procurador enfrenta uma acusação do crime de “destruição de objectos colocados sob o poder público”

Ontem o ex-chefe do Gabinete do Procurador admitiu que tinha visitado o espaço para ver a aquilária, depois de ter sido chamado para o efeito por Ho Chio Meng. Segundo Lai Kin Ian esta foi a primeira e única vez que o procurador visitou a sala do material apreendido. Mas Ho Chio Meng negou esse facto e disse que tinha ido outras vezes, nomeadamente para ver abalone podre: “Quando o processo foi aberto fomos ver a aquilária [ao depósito das apreensões] porque o material apreendido deve seguir sempre com o processo. Ho Chio Meng sugeriu que fossemos ver a aquilária para vermos o estado da perícia e a razão de ser um material tão volumoso”, disse Lai Kin Ian.

O funcionário público de 47 anos, que está suspenso, revelou também que era intermediário entre os procuradores na troca de informações entre processos em investigação, apesar de ser um técnico administrativo: “Passei a mensagem do Procurador-Adjunto Vong Vai Va a Ho Chio Meng. Ele passou-me o relatório e eu entreguei-o. Mas não sei quem tomou a decisão de abrir o processo criminal às aquilárias. Talvez tenha sido um consenso entre os dois”, explicou.

As revelações fizeram Lai Kin Hong dar uma dura reprimenda ao ex-chefe do gabinete: “Como é que você podia ser intermediário entre procuradores? Você é um oficial administrativo, não é nem oficial nem delegado de justiça para ter acesso a informação confidencial”, apontou o juiz-assistente. “Considero ridículo que um oficial administrativo tenha ido ver as aquilárias”, frisou.

Lai Kin Ian afirmou que cumpria as ordens de Ho Chio Meng e que por isso não via nada de errado na sua conduta. O ex-chefe do gabinete do Procurador agradeceu depois que lhe tivesse sido apontada a falha, mas disse que estas condutas eram “uma realidade”. Lai Kin Hong rematou, acusando Lai Kin Iam de “não ter o mínimo de conhecimento das Leis de Macau”.

Na sessão de ontem foram igualmente ouvidos Wong Kuok Wai e Mak Im Tai, que também são arguidos no processo conexo. Ho Chio Meng está acusado de 1536 crimes.

 

 

Caixa:

 

Wong obrigado a comentar provas que não conseguiu ver

 

Os arguidos do processo conexo Wong Kuok Wai e Mak Im Tai, ambos comerciais, pediram para adiar os seus depoimentos, uma vez que só tinham sido notificados para comparecerem em tribunal na véspera à noite. Por essa razão, queixaram-se de não ter tido tempo para contactarem os seus advogados.

Apesar da defesa e do Ministério Público aceitarem adiar os testemunhos, Sam Hou Fai decidiu obrigar os dois a falarem, dizendo que os advogados só não estavam presentes porque não quiseram, uma vez que tinham sido notificados às 16h00 do dia anterior. O juiz afirmou também que os arguidos podiam evitar comentar as partes do processo que colocassem em causa a sua defesa no processo conexo.

Por sua vez, Wong Kuok Wai foi obrigado a comentar documentos num ecrã de computador, apesar de ter feito questão de referir por mais do que uma vez que não conseguia ver por não ter óculos.

 

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