Milhares despediram-se de Mário Soares em Lisboa

O antigo presidente da República de Portugal foi ontem a enterrar no Cemitério dos Prazeres. Milhares de pessoas acompanharam o primeiro funeral de estado realizado em Portugal após o 25 de Abril e já há quem queira que a Avenida da Liberdade se passe a chamar Avenida Mário Soares.

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daniel rocha 1 DEZEMBRO 2005 – mario soares, candidato presidencial, em entrevista – NAO PUBLICADAS –

Milhares de pessoas, dos quais 500 convidados, marcaram ontem presença no último adeus a Mário Soares, num dia emotivo que começou nos Claustros do Mosteiro dos Jerónimos e terminou com o funeral no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Depois de ter estado em câmara ardente aberta ao público desde segunda-feira, a urna de Mário Soares foi transportada ontem de manhã para os claustros do Mosteiro.

Ali realizou-se uma sessão solene evocativa de homenagem, que contou com diversas interpretações musicais e os discursos emotivos dos filhos, João e Isabel Soares, de uma mensagem de vídeo do primeiro-ministro, António Costa, do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e terminou com a intervenção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

A coragem de Mário Soares nos momentos difíceis da sua vida foi recordada com emoção pelos filhos e ouviu-se também a voz de Maria de Jesus Barroso, mulher do antigo chefe de Estado também já falecida, a declamar “Os dois sonetos de amor da hora triste”, de Álvaro Feijó.

António Costa recordou, num vídeo de cerca de dez minutos gravado na Índia durante a visita de Estado, “o rosto e a voz” da liberdade em Portugal e Ferro Rodrigues definiu o antigo Presidente da República como “o militante número 1” da democracia portuguesa e um homem entre os “imprescindíveis” que “pôs sempre Portugal em primeiro lugar”.

Já o Presidente da República falou de Mário Soares como um “singular humanista e construtor de portugalidade” e considerou que, como “um homem que fez história”, merecia ser homenageado num lugar como o Mosteiro dos Jerónimos.

Para o primeiro funeral de Estado realizado em Portugal depois do 25 de Abril, deslocaram-se a Lisboa diversas entidades estrangeiras que estiveram também presentes da cerimónia de evocação, entre os quais o rei Felipe VI de Espanha e os Presidentes do Brasil, Cabo Verde e Guiné-Bissau, o presidente do Parlamento Europeu, o presidente da Assembleia Nacional angolana e o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba.

Após a cerimónia, que durou pouco mais de uma hora, à saída do Mosteiro dos Jerónimos, seis F-16 da Força Aérea sobrevoaram os céus da zona de Belém sob aplausos de centenas de pessoas.

O cortejo fúnebre passou pelo Palácio de Belém, onde muitos funcionários acompanharam o momento pelas varandas, e pela avenida D. Carlos I, onde centenas de pessoas viram em silêncio passar o armão que transporta o corpo do antigo chefe de Estado.

À passagem pela Fundação Mário Soares e Assembleia da República centenas de deputados, funcionários e cidadãos saudaram o histórico socialista com um longo aplauso.

De seguida, uma multidão concentrou-se no Largo do Rato, em frente à sede do Partido Socialista, o ponto do cortejo onde mais pessoas se concentraram, a onde chegaram autocarros de vários pontos do país.

Lágrimas nos olhos dos populares, gritos de “Soares amigo, o povo estará contigo” e rosas amarelas e cravos vermelhos foram uma constante ao longo de todo o cortejo que terminou no Cemitério dos Prazeres, com a realização do funeral.

Depois das cerimónias em frente à capela, durante as quais Marcelo Rebelo de Sousa entregou aos filhos a bandeira nacional que cobria a urna de Mário Soares e se ouviu a voz do antigo chefe de Estado, o cortejo passou ainda em frente ao jazigo de Jaime Cortesão.

“A verdade não pertence em exclusivo a ninguém e não há nada que substitua a tolerância”, ouviu-se pela voz de Soares, em 1986.

Numa cerimónia mais reservada, a urna de Mário Soares entrou no jazigo da família, tendo-se ouvido muitas palmas dos presentes.

Entre os cerca de 3.000 pessoas, segundo a polícia, que assistiram ao funeral, houve quem pedisse que o ex-Presidente da República desse o nome à actual avenida da Liberdade.

 

 

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