Um homem popular e interessado por Macau que quase amaldiçoou o território

As personalidades de Macau que conviveram com Mário Soares recordam o homem que se interessou pelo território e pela resolução dos problemas dos residentes. Sobre o “fax de Macau” são unânimes em considerar, ao PONTO FINAL, que foi uma manobra político-partidária que não envolveu o ex-Presidente de Portugal.

1.Arquivo Fundação Mário Soare.png

Fotografia: Arquivo Fundação Mário Soares;

João Santos Filipe

Apesar de se ter mostrado muito interessado pelas questões relacionadas com Macau e os seus residentes, Mário Soares não fica ligado ao território apenas por bons motivos, com o “Caso do Fax de Macau” a ensombrar incontornavelmente a relação com o enclave. O facto facilmente se compreende através dos obituários do antigo Presidente da República Portuguesa que desde ontem fazem correr rios de tinta na imprensa portuguesa.

Por exemplo, o Público diz que foi na região que decorreu um dos momentos mais polémicos da sua vida: “Macau, o maior abalo político do soarismo”, escreve o jornal. Por sua vez, o I define Macau como “o maior embaraço da vida política” do histórico dirigente.

Esta percepção sobre a ligação entre o território e o Estadista foi melhor explicada, ao PONTO FINAL, por Joaquim Vieira, jornalista que publicou em Fevereiro de 2013 a biografia não-autorizada “Mário Soares: Uma Vida”.

“Macau não é uma marca muito agradável no percurso de Mário Soares e, de certa forma, até prejudica esse percurso, que é exemplar”, disse Joaquim Vieira, sublinhando o papel do histórico líder do PS para o fortalecimento da Democracia e para a adesão de Portugal à União Europeia:  “Quando se fala de Macau [e Mário Soares] não vêm à memória as coisas mais simpáticas. Há uma protecção de amigos, um certa ideia de tráfico de influências, de negócios particulares que são fornecidos por certas nomeações. De certa forma é uma mancha no currículo de Mário Soares”, defende o jornalista.

No caso do fax de Macau está em causa um pagamento de 50 mil contos por uma empresa alemã – a Weidleplan –  à Emaudio, grupo ligado a pessoas próximas de Mário Soares, como Carlos Melancia, Governador de Macau, Menano do Amaral e Rui Mateus, a troco de um contrato integrado nas obras do Aeroporto de Macau.

Como o contrato acabou entregue à Aeroportos de Paris, a Weidleplan enviou um fax a Carlos Melancia a reclamar o dinheiro de volta. O fax acabaria por chegar à imprensa.

 

Escândalo foi jogo político

 

Contudo para os agentes políticos de Macau contactados pelo PONTO FINAL, o caso não passa de uma jogada partidária, que acabou por prejudicar o nome do antigo presidente português.

“Eles fizeram aquilo em Portugal e acabaram por denegrir a imagem do Governador Carlos Melancia, do Dr. Mário Soares e de todos os portugueses. São guerras partidárias que nasceram dentro do partido, mas que tiveram consequências aqui [em Macau]”, afirmou Jorge Fão, antigo deputado e membro-fundador da ATFPM, ao PONTO FINAL.

O antigo parlamentar admite que foi “uma das pessoas que mais se mexeu para incomodar o Dr. Mário Soares” no âmbito da defesa dos direitos dos Funcionários Públicos Portugueses nascidos e residentes de Macau, mas em todo o caso considera que o polémico “caso do fax” não teve implicações na imagem do político agora falecido: “A meu ver o Dr. Mário Soares não sai nada beliscados por isso”, frisa.

A mesma visão é partilhada por Anabela Ritchie, antiga presidente da Assembleia Legislativa, e pelo deputado e advogado Leonel Alves: “Foi uma questão muito complexa. Estava em Portugal quando o caso rebentou, numa delegação de Macau em missão oficial”, recorda Anabela Ritchie. “Sempre olhámos aquilo como algo que estava mais ligado a lutas internas dentro de um partido… Macau era apenas um pretexto”, frisa.

“Foi algo de muito esquisito que fez parte das artimanhas da vida política e que coincidiu com o período em que foi Presidente da República Portuguesa, mas de maneira nenhuma manchou a boa imagem que sempre teve aqui em Macau”, defende por sua vez, Leonel Alves. “Para todos nós de Macau nunca passou de uma guerra política disputada no Atlântico”, aponta.

Amigo pessoal de Mário Soares, o advogado Jorge Neto Valente tem a mesma versão, acusando muitas das pessoas que rodearam o antigo presidente de se terem aproveitado: “O Dr. Mário Soares não tem nada a ver com isso [fax de Macau]. Isso envolveu outras pessoas, algumas designadas por ele e outras que seriam amigas… A verdade é que muitos foram felizes à custa dele. Mas não foi ele que beneficiou, foram eles”, afirmou Jorge Neto Valente, ao PONTO FINAL.

“Nunca se provou que ele estivesse relacionado com o caso. Quanto muito teve a responsabilidade política de ter nomeado pessoas que não se portaram à altura”, explica.

 

Popular entre portugueses e chineses

 

Por outro lado, a postura como estadista de Mário Soares merece os mais rasgados elogios, nomeadamente pela sua popularidade e postura que levou à legalização de milhares de pessoas que viviam em Macau sem documentos [ver página 5].

“Foi um processo importantíssimo porque ele defendeu que era necessário legalizar as pessoas que viviam em Macau nessa situação. Ele deu indicações ao Governador Carlos Melancia para que fossem legalizadas”, recorda o presidente da Associação dos Advogados de Macau. “As pessoas cá gostavam muito dele”, acrescentou.

“Foi um gesto de um grande humanista perante uma situação trágica e humana. Foi uma reacção espontânea que acabou por resolver um problema para muitas pessoas”, afirmou Leonel Alves.

Por sua vez, Anabela Ritchie destaca a popularidade e carisma de Mário Soares, mesmo entre a população chinesa: “Era um caso de popularidade extrema, não só entre os portugueses. Isso era muito visível nas suas visitas. As pessoas chinesas que sabiam da sua existência gostavam dele e tentavam aproximar-se dele, com as suas crianças, quando ele passeava por Macau”, recorda a antiga presidente da Assembleia Legislativa.

 

Neto Valente destaca igualmente que mesmo depois da transição, Mário Soares mostrou-se sempre disponível para ajudar a RAEM, mostrando interesse no desenvolvimento do território: “Mesmo depois da transferência da soberania interessou-se por Macau e por saber que a transição tinha sido suave. Acompanhava junto da União Europeia a apreciação que faziam à RAEM até como deputado europeu”, sublinhou.

“Na sua presença no Parlamento Europeu acompanhou ao longe o desenvolvimento e se mais não fez pela RAEM foi porque Macau e China não tiveram interesse”, revela o presidente da Associação de Advogados.

 

 

 

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Soares e o telefonema durante o sequestro de Neto Valente

 

Mário Soares e Jorge Neto Valente conheceram-se quando o advogado de Macau estudava em Lisboa e combateram lado-a-lado o regime do Estado Novo, numa relação que se manteve viva e dinâmica ao longo dos anos.

Uma prova do apreço de Mário Soares por Jorge Neto Valente foi prestada em Março de 2001, quando o advogado de Macau foi sequestrado. Na altura o estadista tentou mover a sua influência para ajudar a resolver a situação: “Ele envolveu-se directamente e telefonou para cá. Foi numa altura em que havia a notícia que eu tinha ido para o outro lado… Mas foi algo natural vindo de um amigo como era o Dr. Mário Soares”, recordou ontem Jorge Neto Valente, ao PONTO FINAL.

 

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