Depois do protesto de ontem, Pereira Coutinho ameaça avançar para uma marcha lenta de viaturas

A actualização das taxas de remoção e depósito de veículos, em vigor desde 1 de Janeiro, levou ontem ao centro de Macau uma manifestação que apresenta contabilidade contraditória: cinco mil participantes, segundo a organização, cerca de 1600, de acordo com os dados facultados pela Polícia de Segurança Pública. José Pereira Coutinho, que encabeçou o protesto, espera agora ser recebido por Raimundo do Rosário. O deputado equaciona colocar na rua uma marcha lenta com uma centena de veículos.

 

Sílvia Gonçalves

José Pereira Coutinho falou em cinco mil, mas a Polícia de Segurança Pública alega que terão sido cerca de 1600 as pessoas que ontem participaram numa manifestação contra o ajustamento das taxas de remoção e depósito de veículos, que entrou em vigor no início do ano. O presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) liderou uma “intervenção espontânea” que contou com a presença de outras associações do território e que decorreu entre a Praça do Tap Seac e o Palácio do Governo. O trajecto culminou com a entrega de uma carta ao Executivo onde é pedida “a retirada do despacho que aumentou substancialmente as multas”. O próximo passo, diz o deputado, será o agendamento de uma reunião com o secretário para os Transportes e Obras Públicas. Caso o Governo não recue nos valores introduzidos com a actualização das taxas, Pereira Coutinho pondera avançar para uma marcha lenta de automóveis e motociclos.

“As pessoas que estão cá são de diferentes estruturas sociais. Temos trabalhadores dos casinos, temos funcionários públicos, temos professores, temos trabalhadores não-residentes, temos todo o tipo de pessoas, que acham que esta forma do Governo aumentar brutalmente as multas está a afectar as vidas das pessoas”, defendeu ontem Pereira Coutinho, em declarações ao PONTO FINAL.

Considera o presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau que a actualização de taxas deveria ter passado pelo crivo da Assembleia Legislativa (AL): “Todas as medidas punitivas – especialmente as medidas que têm a ver com a bolsa dos cidadãos – devem passar pela Assembleia Legislativa. Mas como a AL também autorizou, através de uma lei, que o Governo pudesse aplicar multas num valor abaixo das 500 mil patacas, o Governo resolveu desta forma actuar sem levar em consideração que muitas famílias cá em Macau sobrevivem à custa de 10 a 15 mil patacas”, acusa Coutinho.

O deputado entende que a justificação para a actualização das taxas –  que não acontecia desde 2003 –  reside na relação contratual entre o Executivo e a empresa responsável pela remoção de veículos: “Quando o Governo diz que os custos administrativos são elevados, ele está a referir-se à empresa particular que faz o reboque dos carros e das motocicletas. Ora o Governo não pode, tendo em consideração o interesse público, falar em nome da empresa privada. Se a empresa privada achar que não vale a pena, não deve servir e prestar esses serviços”, alega o parlamentar.

O próximo passo, explicou ainda o dirigente da ATFPM, passa por fazer chegar a mensagem ao gabinete de Raimundo do Rosário: “Vamos pedir um encontro com o senhor secretário, para ver quais as condições para encontrar uma solução, mas não estão postas de lado outras reivindicações”, assumiu o deputado.

E de que forma estão os manifestantes dispostos a endurecer a luta? “A marcha lenta de viaturas e de motocicletas. Macau é tão pequeno, e pondo uma centena de viaturas na via pública, em marcha lenta, isto vai criar algum transtorno. Mas acredito que as pessoas de Macau compreendem que esta reivindicação é justa”, ameaça Pereira Coutinho.

Entre as 14 e as 15 horas, eram ainda centenas aqueles que se chegavam à escadaria da Praça do Tap Seac, onde Coutinho haveria de longamente discursar, envolvido por quem com ele propôs uma mobilização das massas.

“Se multas é a solução, então multe o Governo. Pela má gestão!”, era uma das mensagens mais repetidas, cravadas nos cartazes dos que desafiavam o inesperado calor trajados de negro. “Estou aqui para apoiar aquele homem”, disse Danny Kuan, enquanto apontava para Coutinho. No cartaz que quase lhe tapava o rosto, podia ler-se “queremos parques de baixo custo para motociclos”. Depois da leitura, a explicação: “Os parques são muito caros. Eu uso mota todos os dias, as novas multas são muito elevadas”, explicou, insistindo, como todos os presentes, no uso do termo multa, quando em rigor se trata da aplicação de taxas.

“Queremos bons transportes públicos”, clamava o cartaz empunhado por José Alves. “Estou solidário com o doutor Pereira Coutinho, e acho que as multas são exorbitantes. Não há nenhuma terra civilizada neste planeta em que tenham aumentado 1200 por cento como Macau”, alega o empresário português, que atirou como exemplo o aumento na taxa de remoção de automóveis ligeiros, que passou de 300 para 1500 patacas. O aumento mais significativo acontece, contudo, nos automóveis pesados e veículos especiais, com a taxa de remoção a aumentar de 450 para seis mil patacas:  “O que eles fizeram foi mal porque foi decidido atrás da porta por meia dúzia de associações que não representam o ramo de actividade que as pessoas desenvolvem, nem os condutores. Devia ser por unanimidade das pessoas que estão representadas na AL”, defendeu ainda Alves, de 57 anos.

Antes das 15 horas a manifestação avançou em direcção à Rua do Campo, tomando proporções pelo caminho que a concentração inicial não fazia adivinhar. Pelas 16h20, Pereira Coutinho, frente à fachada do Palácio do Governo, entregaria a um representante do Executivo uma carta, a que se seguiria, em declarações à imprensa, a descrição do seu conteúdo. “É uma missiva pedindo exactamente a retirada do despacho que aumentou substancialmente as multas, pelas três razões: primeiro, falta de consulta. Segundo, as multas exorbitantes, que vão para o bolso de uma empresa privada. E, em terceiro, alguém tem que assumir responsabilidades por todo este imbróglio”, assinalou.

No momento em que a multidão, ainda audível, começava a desmobilizar, o deputado atira a primeira estimativa sobre o número de participantes: “a informação que nós temos é de cerca de cinco mil pessoas”. A porta-voz da PSP viria a indicar depois ao PONTO FINAL que terão sido “cerca de 1600 pessoas” a avançar, na tarde de ontem, sobre o Palácio da Praia Grande.

 

 

 

 

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