Maria do Céu, Vicente e Porfírio. O reconhecimento bateu-lhes à porta

O Grande Auditório do Centro Cultural de Macau acolhe esta sexta-feira, às 16 horas, a Cerimónia de Entrega de Medalhas e Títulos Honoríficos de 2016, atribuídos anualmente pelo Governo a figuras que se destacaram nas mais diversas áreas. Entre os agraciados com medalhas de dedicação estão um português e dois macaenses, que ontem se apresentaram à imprensa, entre a satisfação e o espanto.

20170107-223r

Sílvia Gonçalves

Em cada ano, Maria do Céu foi repetindo a presença na cerimónia oficial de entrega de medalhas e títulos honoríficos atribuídos pelo Executivo. Recolhida no anonimato da função de tradutora-intérprete, cabia-lhe assumir a tradução dos nomes e trajectos elencados no longo rol de agraciados. No isolamento da cabine de tradução, Maria do Céu chegou a questionar se algum dia seria o seu nome a soar no microfone. E a vez da tradutora-intérprete – que assume funções na Sede do Governo – chegou. Maria do Céu da Silva Hung sobe amanhã ao palco do Grande Auditório do CCM para receber das mãos do Chefe do Executivo a Medalha de Dedicação, em reconhecimento pelo seu desempenho profissional. Com ela estarão, entre quase trinta outros, o conservador e notário Vicente João Monteiro e o inspector da Polícia Judiciária Porfírio Zeferino de Souza. Ontem, os três deram-se a conhecer à imprensa, nos cenários onde todos os dias esticam as horas num exercício de entrega que agora lhes valeu o louvor.

 

“MUITO A BREVE PRAZO VAI HAVER MAIS ADVOGADOS DE LÍNGUA CHINESA QUE PRETENDERÃO TAMBÉM SER NOTÁRIOS PRIVADOS”

 20170107-081r

“A atribuição de uma medalha de dedicação por parte do Governo da RAEM significa para mim o reconhecimento pelo trabalho que tenho desenvolvido ao longo de bastantes anos”, começou por reconhecer Vicente João Monteiro. Numa sala da Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça (DSAJ), o conservador e notário português deu conta de uma ligação a Macau que remonta a 1994, data de uma primeira chegada que se prolongou até ao ano 2000. Depois de obtida a aposentação em Portugal, o jurista regressa ao território em 2011: “Comecei por ser conservador da Conservatória de Registo Predial. Na sequência da localização de quadros passei depois para coordenador do Serviço de Orientação e Inspecção do Registo e do Notariado, que foi criado em 1997, no âmbito da DSAJ, onde permaneci até regressar a Portugal. Depois de regressar [a Macau], voltei a exercer as funções como inspector do Registo e do Notariado e como jurista do departamento de Assuntos do Registo e do Notariado”, conta.

Autor de várias obras jurídicas, nomeadamente do Código do Registo Predial, que agora conhece nova versão anotada, o notário de 65 anos vê na vertente editorial uma motivação para esticar a permanência no território. A produção jurídica, conta, traduziu-se na “elaboração de todos os códigos do registo e do notariado, do registo civil, do registo predial, do registo comercial, do código de notariado, do estatuto dos notários privados”, entre outros.

Vicente João Monteiro acredita que a prevalência de advogados portugueses que são também notários privados é um cenário que vai conhecer mudança profunda: “Esta tendência está-se a inverter muito rapidamente. Muito a breve prazo vai haver mais advogados de língua materna chinesa que pretenderão também ser notários privados”. A mudança, defende, traduz-se num necessário reforço de profissionais bilingues: “Isso implica também um esforço maior por parte da DSAJ, no acompanhamento da actividade notarial privada. Implica o recrutamento para os serviços onde exerço funções de profissionais que dominem as duas línguas”.

 

“ANTIGAMENTE NÃO TÍNHAMOS TANTOS CRIMES COMO HOJE”

 20170107-106r

Na longa sala, os inspectores dedilham nos computadores matéria criminal que os silêncios da justiça não permitem desvendar. Ao fundo, o gabinete de Porfírio Zeferino de Souza, inspector de 1ª classe e chefia funcional na Secção de Investigação de Crimes Contra a Pessoa da Polícia Judiciária (PJ). O inspector, que ingressou na polícia de investigação do território em 1983, não esconde o constrangimento de se ver diante de uma plateia que aponta sobre ele os holofotes que raras vezes incidem sobre a polícia de investigação: “Estou aflito, tanta gente à minha frente”, admite, entre sorrisos. “Estou muito contente e satisfeito com a atribuição da medalha de dedicação. É uma honra muito grande para mim. Significa um grande reconhecimento da minha carreira na polícia, do meu trabalho”, assume o inspector macaense, de 57 anos, num instante de desconforto que a voz não disfarça.

Porfírio de Souza – que iniciou a carreira ainda no tempo de administração portuguesa – vê na então escassez de recursos a diferença mais determinante: “Na altura trabalhava também na secção de homicídios, recordo que na secção inteira só tínhamos oito agentes, divididos por duas equipas. Hoje temos mais de 28 investigadores, há uma diferença de pessoal. Antigamente não tínhamos tantos crimes como hoje em dia”, confessa.

E que crimes são mais recorrentes na secção que hoje chefia? “São as agressões, a ofensa simples. Relativamente aos crimes graves, estão a diminuir. Hoje em dia geralmente são ameaças, ofensas simples, é isso que ocorre mais na secção”. Na multiplicidade de histórias que se atropelam na memória do inspector, um episódio há que se impõe no discurso: “Houve um caso de homicídio que me marcou muito, porque tivemos que trabalhar 15 dias consecutivos. E conseguimos deter os suspeitos e conseguir a acusação do crime”, recorda.

 

“ESTOU MUITO FELIZ PORQUE CHEGOU A MINHA VEZ”

 

“Eu já trabalho como intérprete-tradutora há 26 anos. E não sei se sabem que anualmente eu sou a mestre de cerimónias da cerimónia de condecoração de medalhas. Anualmente vejo muitas pessoas serem reconhecidas, galardoadas com medalhas”, começa por atirar Maria do Céu Amorim da Silva Hung, agora fora da cabine de vidro fosco que habitualmente lhe oculta a identidade como um véu. O tom confessional prossegue: “Uma ou duas vezes cheguei a pensar quando é que será a minha vez, ou que poderá nunca acontecer a mim. Mas desta vez, este ano, estou muito feliz porque chegou a minha vez. E portanto o meu trabalho ser reconhecido, o desempenho ser reconhecido, é um motivo de grande alegria”, assume a tradutora macaense, que se iniciou na profissão em 1990.

A proximidade de Maria do Céu aos gabinetes de decisão política tem início em 1995, com a colocação no gabinete do antigo Governador e no gabinete do Secretário-Adjunto. Actualmente integra os Serviços de Apoio da Sede do Governo, onde detém a categoria de intérprete-tradutora assessora. Maria do Céu encara o louvor que agora lhe é atribuído como um reconhecimento do trabalho quase sempre invisível e anónimo dos tradutores-intérpretes, fundamental num território bilingue: “Eu recebo em nome de todos os intérpretes, eu penso que sim. Porque o papel dos intérpretes-tradutores está a ficar cada vez mais visível, mais evidente e importante em Macau”, sublinha.

Maria do Céu aponta as áreas onde a falta de profissionais é mais premente: “Sim, há falta, principalmente em certos domínios, nomeadamente no Direito, no domínio jurídico, há grande falta. Penso que com a cooperação entre a China e os países de língua portuguesa, nesse âmbito do comércio e da economia também se vai precisar de muitos intérpretes-tradutores”.

Entre os momentos mais difícieis, que a tradutora enfrentou, destaca a vez em que teve fazer um trabalho numa embarcação: “Tenho dificuldade em andar de barco”. Entre os momentos felizes, impõe-se o encontro recente com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, quando acompanhou o Chefe do Executivo na última visita oficial a Portugal: “Gostei muito do Presidente Marcelo. É formidável, uma pessoa muito simpática, culta e também engraçada”.

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s