Aproximar as soluções do design da vida que pulsa na rua

Chegou ao fim a primeira edição do “This is my Street”. O projecto – que potencia a interacção entre designers e residentes para definir soluções de reabilitação urbana – voltou atenções para o lixo que envolvia um pequeno templo no bairro da Areia Preta, e deu voz aos barbeiros que estoicamente exercem o ofício na rua. Uma segunda edição deverá acontecer ainda este ano.

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Sílvia Gonçalves

Intervir na rua que nos envolve, apostar numa aproximação ao bairro que se traduz numa teia protectora da vivência quotidiana. Encurtar a distância entre o design enquanto disciplina que promove soluções e a comunidade com a qual comunica. O projecto “This is my Street (Esta é a minha rua)”, promovido pela Associação de Designers de Macau – uma iniciativa que arrancou em Maio – teve as duas premissas como princípio fundador, e culminou na passada sexta-feira com a apresentação, no Centro de Design de Macau, de um documentário que mostra que o papel do designer às vezes passa tão somente por observar e ouvir, sem a tentação de acrescentar objectos à paisagem. Manuel Correia da Silva, fundador e curador do projecto – e também mentor do festival “This is my City” – diz estar já a delinear uma segunda edição da iniciativa, cujo resultado deverá ser conhecido mais para o final do ano. O designer acredita na possibilidade de alastrar a qualquer rua da cidade um projecto que, no arranque, teve como cenário o bairro da Areia Preta.

“Liderei o processo como curador com o objectivo de encurtar a distância entre a comunidade de designers e a comunidade de residentes. Conseguir que, neste caso, um grupo de jovens designers largasse o ambiente dos ateliês e fosse directamente para a rua, para poder entrar em contacto directo com a comunidade. E, não só para eles mas com eles, identificar problemas e soluções”, conta Manuel Correia da Silva.

O vice-presidente da direcção da Associação de Designers de Macau descreve um projecto focado não só no resultado final, mas sobretudo num processo que prefigura uma aproximação efectiva ao bairro da Areia Preta, comunidade que envolve o próprio Centro de Design de Macau. A iniciativa veio estreitar o diálogo entre criadores e aqueles a quem as soluções nem sempre definitivas do design se destinam. “O processo passou por irmos para a rua, identificarmos potenciais situações em que achássemos que pudéssemos trabalhar. Primeiro foi feita uma identificação da nossa parte, e depois fomos ver com a comunidade se realmente esses problemas se confirmavam”, acrescenta.

Numa primeira auscultação do bairro, que resultou numa posterior intervenção, ressaltou um cenário de lixo descontrolado que se acercava e minava a sacralidade de um pequeno templo: “Num primeiro caso foi a situação em que abordámos a questão do lixo. Há um problema no final da rua do Macau Design Center, que é a Travessa da Fábrica. Havia uma situação muito particular que era a existência de um templo colado àquela zona onde se deixa o lixo. O que acontecia era que o lixo ocupava quase o templo e por isso a mobilidade de acesso era quase impossível”, assinala o designer.

O “contraste gritante” levou o grupo de designers locais a ocupar um pedaço de chão com uma instalação que motiva a mudança de comportamentos. Junto ao pequeno templo, como que a empurrar a imundície para solo menos sacro, surgem oito réplicas dos pequenos altares que os crentes cravam à porta de casas e lojas, onde o incenso arde de modo incessante. “Construímos oito deles à imagem desses, electrificamo-los com luzes e escrevemos em caracteres chineses esse pedido de ‘por favor não deixe o seu lixo aqui’, ou ‘tenha mais atenção’”. Uma intervenção que parece apresentar já um resultado: “Inauguramos a peça na quinta-feira e entretanto a zona tem estado limpa, ou mais limpa”, conta o curador.

Numa segunda situação, o grupo de designers avançou, na mesma área, sobre uma rua sem nome – “perto do Largo Triangular, ali na zona Norte, no final dessa rua, perto das Portas do Cerco” -, onde há mais de 50 anos os barbeiros exercem o ofício a céu aberto. Pensavam os criativos que contribuiriam com uma renovação do mobiliário de apoio à actividade aos barbeiros, proposta que estes enjeitaram: “Isto obrigou-nos a pensar que nem sempre as pessoas e as situações se resolvem com mais coisas. Insistimos em tentar perceber como nos podíamos relacionar com eles”, conta, e concluíram que a sua “função deveria ser ouvir, estar com aquelas pessoas e simplesmente ouvir as histórias que tinham para contar”. Através da realização de um documentário, assinado por Wallace Chan, que leva como nome “This is My Street”, procuraram “cristalizar os depoimentos” dos três profissionais ali instalados. O filme foi apresentado na sexta-feira, no Centro de Design de Macau: “O nome aplica-se bem, porque às vezes simplesmente vivemos a rua, não temos necessariamente que intervir no objecto ou no lado mais da matéria”, assume Manuel Silva.

O projecto “This is my Street” deverá conhecer uma segunda edição ainda este ano: “Houve uma linha de aprendizagem muito grande, que nós temos que saber interpretar bem, porque ele tem o potencial de se alastrar a qualquer rua da nossa cidade, por isso queremos fazê-lo de maneira consistente e sustentável”, diz Correia da Silva. A próxima área de intervenção ainda não está, contudo, definida. Importa “continuar a intervir em outras ruas, intervir na cidade, na verdade é isso que está em causa”, conclui o designer.

 

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