A derradeira vítima do “1, 2, 3 “

É a mais persistente vítima do “1,2,3”. Trinta anos não foram suficientes para que a estátua estátua do macaense Vicente Nicolau de Mesquita voltasse a ver a luz do dia e o destino confinou o conjunto escultórico a um recôndito armazém das Oficinais Navais portuguesas. Meio século após os acontecimentos de Dezembro de 1966, o que é feito da representação do herói de Passaleão?

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João Paulo Meneses

 

Em 1986 a Associação de Comandos terá solicitado ao governo de Macau que lhe fosse entregue a estátua do coronel Vicente Nicolau de Mesquita, vandalizada durante os acontecimentos do “1,2,3”. A homenagem ao militar macaense que se notabilizou na Batalha do Passaleão, a 25 de Agosto de 1849, estava ‘esquecida’ desde finais de 1966 num armazém das Oficinas Navais e a delegação da Associação de Comandos no então território administrado por Portugal prometia restaurar e expor a obra do escultor Maximiliano Alves.

Mas 30 anos não foram suficientes para cumprir a promessa e a estátua ainda não saiu dos caixotes a que foi confinada. O PONTO FINAL contactou obviamente a Associação de Comandos – mais do que uma ocasião, até – mas desta vez não obteve qualquer resposta ou esclarecimento.

Há cinco anos, José Lobo do Amaral, presidente da Direção da Associação, dizia a este jornal que estavam à procura de um local adequado e que este seria o Museu Comando, onde a obra seria finalmente “mostrada ao público, já restaurada”: “Encontrado esse local, que pertence à Associação, está a estudar-se a melhor maneira de a exibir, integrada no espólio do Museu Comando”, foi a declaração prestada por José Lobo do Amaral e então citada pelo PONTO FINAL.

Meio século volvido sobre os acontecimentos do “1,2,3” e  Vicente Nicolau de Mesquita continua longe da vista. Fontes conhecedoras do processo garantem ao PONTO FINAL que a estátua já estará restaurada, mas esta informação não foi confirmada.

Relativamente ao referido Museu Comando também pouco ou nada se sabe. Terá sido inaugurado em 2007 (em Mafra?), mas não está aberto ao publico – o que, por si só, inviabiliza a promessa de mostrar a estátua publicamente.

 

ALGÉS?

A última vez que se falou publicamente na estátua de Vicente Nicolau de Mesquita foi em 2013.  Rogério Luz, autor do portal Projecto Memória Macaense, divulgou um email, anónimo, que dava conta que a estátua estaria nas instalações da Fábrica de Cerâmica de Valadares, em Vila do Nova de Gaia, naquela altura em processo de insolvência. O email era acompanhado por fotos do Google Earth – de 2007 – que mostrariam alegadamente essa localização.

O PONTO FINAL deslocou-se ao local na passada semana e conseguiu apurar que a nova gestão da Fábrica desconhece esse passado, sublinhando que a peça não se encontra nas instalações.

Informações mais recentes apontam para que a estátua possa ser colocada em Oeiras, na Bataria da Lage, após as obras ali realizadas.

A Bataria da Lage é uma unidade de artilharia de defesa da costa, situado no concelho de Oeiras, que se encontra desactivada. Não foi possível, contudo, saber qual a relação entre a Bataria e os Comandos e que condições tem a o espaço para ter a estátua, que será exibido sem o enorme pedestal que existia em Macau a homenagear aquele que o investidor António Aresta designa por “o último herói romântico de Macau”.

 

DERRUBADA

Em 1910, conta António Aresta, “a memória e a honra de Vicente Nicolau de Mesquita foram reabilitadas em 1910 pelo Juízo Eclesiástico, o que permitiu que os seus restos mortais fossem transladados para o Cemitério de São Miguel com as honras inerentes”. Em 1940, o Leal Senado inaugura a Avenida do Coronel Mesquita e é então que surge a estátua em bronze, em que se podia ler: “Homenagem da Colónia ao Herói Macaense Coronel Vicente Nicolau de Mesquita. 25 de Agosto de 1849. Monumento erigido por subscrição pública e auxílio do Governo da Colónia. Foi inaugurado por ocasião das festas comemorativas do duplo centenário da Fundação e Restauração de Portugal. 24 de Junho de 1940. Oferta do Leal Senado”.

No Cemitério de São Miguel ainda existe o seu busto em mármore, onde se pode ler: “Vicente Nicolau de Mesquita, heróico defensor de Macau em 25 de Agosto de 1849”; “Erecto por subscrição pública com o concurso da primeira subscrição promovida pela Comunidade Portuguesa de Hong Kong em 1884”; “Tomou Passaleão em 25-8-1849. Faleceu em 20-3-1880. Foi transladado em 28-8-1910. Teve nesse dia honras militares e eclesiásticas”.

Por esclarecer está o processo que levou à transferência para Portugal de uma peça que faz parte da história de Macau (e não de Portugal). O PONTO FINAL contactou Jorge Rangel, que era secretário-adjunto na governação de Almeida e Costa, mas o actual presidente do Instituto Internacional de Macau disse-nos não ter tido qualquer envolvimento no processo, por não ser a sua área de competência.

 

 

“O inimigo foi tomado de pânico e abandonou o forte”

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Depois de assassinarem o governador Ferreira do Amaral, “nas cercanias da Porta do Cerco, junto do Forte do Passaleão, reuniu-se um pequeno exército chinês, com mais de 2000 homens, com o objectivo de invadir e conquistar Macau e cuja artilharia começou a fazer fogo sobre o território. A situação era dramática, o Conselho de Governo estava tolhido de indecisão e a angústia tomava conta de uma cidade que se sentia indefesa. Aparece Vicente Nicolau de Mesquita, então subtenente de artilharia, a oferecer-se «como voluntário para, com um grupo escolhido por ele, assaltar o Forte do Passaleão», no dia 25 de Agosto.

A descrição de Carlos Montalto de Jesus é verdadeiramente épica: «À frente de dezasseis homens com um morteiro – presente de um comandante naval francês a Amaral – Mesquita correu para o campo de acção e entregou ao capitão Sampaio uma ordem do Conselho para avançar com as forças até aos arrozais; aí, ele mesmo carregou e assestou o morteiro. A carga, rebentando onde havia mais gente, dentro do forte, criou um pânico evidente. Foi o único tiro eficazmente disparado. No coice, uma roda partiu-se, incapacitando o morteiro. Mesquita pediu, então, formalmente, ao oficial em comando, permissão para assaltar o forte, apresentando a autorização do Conselho para esse efeito; em seguida, dirigindo-se às tropas, pediu aos que o queriam seguir que dessem um passo em frente. Vinte bravos o fizeram e, com os dezasseis escolhidos que tinham trazido o morteiro, seguiram em fila indiana pelos estreitos caminhos que bordejavam os arrozais para além dos quais, no cume de um escarpado cabeço, o Forte do Passaleão lançava para o ar fumo e estrondos. Quando se aproximavam eram tais o canhoneio e a fuzilaria que o capitão Sampaio chegou a ordenar a retirada. Ao ouvir o toque de corneta para esse fim, Mesquita, sedento de sucesso, ordenou ao seu corneteiro que tocasse para avançar; e enquanto isto ocorria, um tiro, passando a assobiar, fendeu a corneta em dois pedaços. Incitados pelos gritos de Mesquita, lançaram-se então para a frente os galantes trinta e seis, com um entusiasmo digno dos mais orgulhosos dias do heroísmo luso. (…) Quando escalavam o cabeço escarpado, disparando, o inimigo foi tomado de pânico e abandonou o forte, assim como as elevações vizinhas. Quase exaustos sob o sol escaldante, Mesquita e os seus seguidores saltaram para o forte mesmo a tempo de matar um soldado que estava prestes a deitar fogo ao paiol por meio de uma pederneira. Os canhões – de vinte e nove quilos – foram então encravados. Um dos heróis, que trazia uma bandeira portuguesa dobrada junto ao peito, desdobrou-a e, por entre frenéticos vivas, desfraldou-a por cima das ameias do Passaleão, conquistado à custa de apenas um soldado gravemente ferido. (…) Do paiol, Mesquita fez um rastilho de pólvora até ao local onde o grupo estava reunido e aí acendeu-o. Com um estrondo medonho o paiol voou pelos ares e a muralha adjacente cedeu, desmantelando vários canhões»”, segundo o historiador António Aresta.

 

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