Catolicismo em Macau. Uma religião entre templos e fantasmas esfomeados

Na mais velha diocese do Extremo Oriente, pouco mais de 30 mil almas dividem-se entre os ensinamentos da fé e as manifestações de uma cultura milenar. Os sacerdotes que chamam a si a tarefa de guiar o rebanho católico no território reconhecem que para se afirmar, a Igreja Católica tem de ser flexível e estar aberta a uma síntese equilibrada entre as duas realidades.

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Inês Gonçalves

Agência Lusa

Macau tem a diocese mais antiga do Extremo Oriente ainda em funcionamento, mas numa cidade com quase 650 mil pessoas – a maioria chinesas – os 30 mil católicos tendem a integrar elementos de crenças popular, com origem budista ou taoista.

“Às vezes na catequese de adultos perguntam se depois do baptismo podem fazer isto ou aquilo. Temos de explicar que há coisas que não têm problema nenhum, são coisas culturais, de respeito pelos antepassados, outras tem que se ver”, conta à Lusa o chanceler da Diocese de Macau.

O português Manuel Machado vive em Macau há cerca de duas décadas e dedica-se maioritariamente à comunidade católica chinesa. Considera que a mistura entre religião e práticas culturais que nada têm que ver com a fé existe em todo o lado, mas “aqui este aspecto é mais visível” e defende alguma flexibilidade para lidar com práticas “enraizadas”.

É comum ser convidado para cerimónias fúnebres chinesas de um familiar de um paroquiano, baptizado. Mesmo sabendo que é padre, são capazes de lhe dar “o pau de incenso para pôr lá” mas sabem que nunca participa na oração: “Esse diálogo tem sempre de ser feito”, sublinha.

Em Macau convivem diversas tradições religiosas, como a época dos ‘fantasmas esfomeados’, em que as pessoas deixam comida na rua para alimentar os espíritos errantes. Além dos alimentos, as ruas enchem-se de pequenas fogueiras onde são queimados objectos em papel de seda que representam algo que agrade ao espírito.

As procissões católicas partilham a cidade com o Festival Ching Ming – ou Dia dos Antepassados – em que as pessoas se deslocam aos cemitérios, limpam as campas e fazem oferendas.

Há quem vá à igreja e ao templo? “Sim, é natural que sim. Afinal, quantos portugueses vão á bruxa?”, lembra Machado.

“Não vejo grande problema se perceberem porque fazem uma coisa e a outra, sobretudo na relação com a morte. Se vão ao cemitério e queimam incenso ou põem galinha… nós pomos flores e uma vela. [O importante] é o respeito que queremos demonstrar por alguém”, defende.

Para muitos chineses, “o catolicismo parece uma coisa um bocadinho estrangeira”, admite o chanceler da Diocese que considera que isso pode ser uma vantagem pelo atractivo que exerce, por exemplo, nos jovens. Segundo Machado, a comunidade está a crescer, com mais de 100 baptismos no ano passado.

O missionário brasileiro Daniel Ribeiro, que chegou este ano a Macau, encontra, entre os chineses da cidade, um olhar de “respeito” em relação à Igreja, que exerce “um papel cultural muito grande”, mas, ainda assim, de algum distanciamento: “Quando falamos de catolicismo as pessoas que não são católicas, a primeira impressão que têm é que são igrejas bonitas, que há algumas procissões e que é uma religião europeia”, diz à Lusa.

A cidade, “mesmo não tendo um grande número de católicos”, é um lugar “onde o catolicismo é muito vivo”.

“Todos os lugares onde as pessoas vão, elas se encontram com o catolicismo, as Ruínas de São Paulo, as igrejas, os nomes das ruas, os hospitais. Pela história, pela cultura, pela arquitetura, é um lugar que respira cristianismo”, diz, salientando que, ainda assim, a Igreja tem de “trabalhar para se aproximar dos que não são católicos”.

Jojo Ancheril, missionário indiano, em Macau desde 2007, sublinha esta distância. Habituado a um trabalho em zonas rurais e muito pobres, lamenta a “tradição de as pessoas irem ter com o padre”, quando “o padre tem de ir à procura dos necessitados”, até dos que não são cristãos: “Às vezes vou aos casinos, não para jogar, mas para conhecer a situação. Há pessoas que se envolvem na indústria do jogo ou na prostituição. É fácil para mim compreendê-las. A Igreja aqui não fez muito para ajudar com estes problemas”, lamenta.

A chegada a Macau, apesar de fruto de um grande desejo de se aproximar da China, “não foi fácil” para Ancheril, que considera que a cidade está tomada por “materialismo” e que a Igreja, em certa medida, é cúmplice: “A Igreja aqui é bastante rica e há pessoas pobres que precisam da nossa ajuda e apoio, que raramente ajudamos. Ajudamos através da nossa abundância, mas não realmente pela partilha”.

Na Índia, “os pobres, apesar de serem pobres são muito felizes, partilham tudo o que têm”. Em Macau “é muito diferente, aqui as pessoas têm muitas coisas mas não se conhecem, não partilham”, destaca, observando que “em Macau há muitas pessoas solitárias”.

 

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