O divertido anacronismo dos mapas de Eric Fok

As hiperdetalhadas ilustrações e mapas do artista de Macau, retratando a cidade de hoje com recurso a um estilo bem antigo, podem ser apreciadas no Café do IFT no Anim’Arte Nam Van até 10 de Fevereiro. A mais recente mostra de Fok, da iniciativa do Instituto de Formação Turística, foi ontem inaugurada.

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Rodrigo de Matos

As manchas e o estado amarelo-acastanhado do papel quase enganam. O estilo dos desenhos a tinta-da-china preta também ajudam a dar a ideia de que se trata de uma ilustração bem antiga, mais precisamente uma imagem do porto que dominava o Sul da Península de Macau por volta do Século XVII. Mas, pelas barbas de Heródoto, o que é que a Torre de Macau está aqui a fazer? E o casino Grand Lisboa, plantado como uma ilha no meio da água, cercado de juncos e caravelas? Algo de divertidamente anacrónico se passa no espaço Anim’Arte Nam Van: é a exposição “Coisas Mudam com o Passar dos Anos”, de Eric Fok Hoi Seng.

O rigor no detalhe do traço de Eric Fok denota bem o fascínio que sempre teve por mapas e ilustrações de outros tempos. Quando está em viagem, o artista procura sempre adquirir livros com ilustrações e mapas antigos, que possam servir de inspiração e referência para os seus trabalhos. Um trabalho de paciência, como explica o próprio artista: “Fiz muitas pesquisas para saber como era toda esta área antes de lhe terem sido acrescentados os aterros. Comparando com o mapa de hoje, verificamos que estes grandes casinos e construções estão situados onde antes só havia água”. Fok detém-se um pouco a explicar como surgiram alguns dos elementos incluídos nessa grande ilustração, a que chamou “Paraíso” e que levou um mês inteiro a desenhar (sem contar as muitas horas de pesquisa ou a preparação do papel para lhe dar um aspecto antigo). As naus e caravelas que ali aparecem a conectar as “ilhas-casino”, observa, são representações simbólicas dos autocarros turísticos que fazem hoje essas travessias: “São os meus shuttle-boats”, diz o artista entre risos.

Se os desenhos têm em si uma mensagem crítica ao desenvolvimento avassalador dos nossos dias, Eric Fok prefere deixar o observador livre para fazer as reflexões que entender: “Todos temos direito aos nossos pontos-de-vista e a fazermos as nossas leituras. Algumas pessoas podem extrair algum tipo de mensagem subliminar da mesma imagem onde outras só vêem um mapa”, assinala o autor, considerando válidas ambas as abordagens.

 

Caixas de memórias

 

A exposição no Café do Instituto de Formação Turística (IFT) no espaço Anim’Arte Nam Van foi inaugurada ontem e estará patente ao público até 10 de Fevereiro. Além da ilustração descrita, inclui outras seis, mais ou menos surrealistas, produzidas entre 2013 e 2016, e ainda duas caixas que comprou em lojas de antiguidades e sobre as quais posteriormente trabalhou, cobrindo-as de desenhos no mesmo estilo.

“As caixas de madeira representam as grandes viagens que se faziam noutros tempos. Antigamente, as pessoas usavam caixas como aquelas para guardar especiarias e outras coisas que usavam nas suas trocas. Quando as comprei, imaginei a história daqueles objectos. Os desenhos que fiz nelas estão relacionados com essas histórias por mim imaginadas”, explicou aos jornalistas.

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