“O meu trabalho foi não parecer um actor no meio de gente real”

Para Nuno Lopes “a Ásia é uma espécie de sonho eterno”, “uma lua distante”, que ele anseia conhecer. Ao PONTO FINAL o protagonista de “São Jorge”, do realizador Marco Martins, em competição no IFFAM, revela-se “um fã absoluto” do cinema asiático, sobretudo da representação, que o comove e inspira. Alegra-o que “São Jorge” estreie na Ásia e que as pessoas vejam o que se passou em Portugal nos anos de austeridade. Esta noite é conhecido o filme vencedor da edição inaugural do Festival Internacional de Cinema de Macau.

Main Poster_São Jorge.jpg

Cláudia Aranda

Nuno Lopes vive manhãs e tardes bastante ocupadas por estes dias com os ensaios para a peça de teatro “A Noite da Iguana”, de Tennessee Williams, com estreia marcada para Janeiro, em Lisboa. Por causa deste trabalho, o actor não pode marcar presença no 1º Festival Internacional de Cinema de Macau e Cerimónia de Prémios de Macau (IFFAM) na estreia asiática do filme “São Jorge”, do realizador Marco Martins, que integra a lista dos filmes em competição no festival. Foi apenas no intervalo dos ensaios que Nuno Lopes encontrou uns instantes para falar com o PONTO FINAL sobre o trabalho que lhe valeu já a distinção com o prémio especial de melhor actor pelo júri da secção “Orizzonti” do Festival Internacional de Cinema de Veneza. “São Jorge” conta a história de um pugilista desempregado, que se vê obrigado a aceitar um emprego numa empresa de cobranças. O filme é também um olhar sobre a crise financeira em Portugal e a intervenção da troika – Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional – que impôs medidas severas de austeridade ao país, com impacto directo no empobrecimento das famílias.

 

– Que expectativas tem em relação ao Festival Internacional de Cinema de Macau?

Nuno Lopes – Primeiro que tudo fico muito contente por o filme ser exibido na Ásia, porque acho que, quanto mais o filme viajar pelo mundo, mais as pessoas têm oportunidade de conhecer o que se passou em Portugal neste período da Troika. Acho que há uma distância muito grande em relação aos nossos problemas aqui. Só se ouve falar dos números do relacionamento de Portugal com a Troika, com a austeridade imposta pela Europa e acho que o filme mostra o outro lado dos números, mostra como é que isso foi vivido na realidade. Há um lado quase documental no filme. Nós tivemos oportunidade de conhecer pessoas que ficaram com a vida destruída, em resultado da austeridade. E, portanto, é uma maneira de levar essas vozes, essas pessoas a um lugar onde, presumo, só se conheçam os números, e os números mentem. Quando se diz que Portugal tem 19 por cento de desemprego, isso é só um número, quando se vê o que é que significa na vida de uma pessoa, temos uma consciência maior do que foi o problema da austeridade em Portugal. Por isso alegra-me muito que o filme possa levar as vozes destas pessoas para fora da Europa.

– O Nuno Lopes já venceu o prémio de melhor actor na secção “Orizzonti” em Veneza. Que importância tem para si o facto do filme estar também em concurso em Macau?

NL – Pessoalmente é um prazer enorme participar neste festival, com este director com esta selecção de filmes. Apesar de ser o primeiro ano, percebe-se que pode tornar-se num dos grandes festivais de cinema do mundo. É uma honra para mim e para o Marco [Martins] podermos participar nesta primeira edição.

– Quando se refere a “este director”, está a referir-se a Marco Müller [que se demitiu da direcção do festival]. Conheceu-o pessoalmente?

NL – Não, nunca o conheci pessoalmente, infelizmente, e tenho muita pena de não poder ir a Macau porque gostaria muito de o conhecer. Mas, é uma pessoa importantíssima no mundo do cinema, que é conhecida pelo seu bom gosto e pela sua qualidade e basta saber quais são os filmes que vão estar em Macau para se perceber o trabalho que ele fez.

– Trabalhar na Ásia interessa-lhe? Ou prefere Hollywood?

NL – Não faço restrições de fronteira. O que me interessa fazer são bons filmes. Se o meu filme aparecer na Ásia, irei para a Ásia com todo o gosto. Se aparecer nos Estados Unidos irei também, com todo o gosto. Adoraria trabalhar na Ásia, porque nunca trabalhei, mas não tenho qualquer tipo de desejo por um tipo de indústria. Não olho para o cinema como uma indústria. Portanto, o que me interessa não é chegar a um mercado, o que me interessa é fazer um filme que eu acho que tem que ser feito e que me interesse o projecto. Se esse projecto aparecer na Ásia irei com todo o gosto. Teria muita vontade de fazer qualquer coisa na Ásia.

– Vai querer continuar a representar papéis que requerem uma grande preparação, como é o caso do seu personagem em “São Jorge”?

NL – O “São Jorge” tem uma particularidade: foi construído comigo. Eu e o Marco Martins começámos a colaborar – o nosso primeiro filme foi o “Alice” [de 2005]. Entretanto, formámos um grupo de teatro, o “Arena Ensemble”, e continuámos a trabalhar juntos em teatro. Ao fim de quase 10 anos, sentámo-nos e decidimos que era altura de fazermos outro filme juntos e este filme surge de uma colaboração a dois. Na criação da história, na pesquisa para o filme. Ou seja, não é um filme normal para mim, no sentido em que não sou apenas um actor escolhido pelo realizador. É um filme que foi construído comigo. E isso, sim, interessa-me fazer este tipo de projectos, interessa-me continuar a trabalhar com o Marco Martins neste sentido. Como disse, temos um grupo de teatro, costumamos colaborar juntos, seja em teatro, seja em cinema. Isso interessa-me: colaborar na criação de um filme, não só como protagonista, mas na criação geral do filme. À parte isso, gostaria muito de trabalhar, de ter novos desafios e acho que se aprende imenso quando se está a trabalhar fora, com novas culturas e agradar-me-ia imenso trabalhar fora de Portugal. Acabei de fazer um filme em França, em Marselha, um filme francês. O ano passado fiz um filme no Brasil, portanto já tenho andado a construir essa ponte entre os trabalhos que faço em Portugal e fora. Respondendo à pergunta directamente: não tenho qualquer vínculo com Portugal, o que me interessa são os filmes. Se me aparecer um projecto bom na Antártica eu vou.

– No caso de “São Jorge” teve que fazer um trabalho muito profundo. Fez pesquisa em bairros sociais dos arredores de Lisboa, no meio do boxe e das cobranças difíceis, submeteu-se a treino físico intenso e até ganhou peso, 20 quilos. Era indispensável passar por esse processo de preparação ou foi o Nuno que fez questão de tornar o personagem o mais credível possível?

NL – Eu fiz questão. Mas também era fundamental. A ideia surgiu porque eu sempre tive o sonho de fazer o papel de um “boxeur”. E, uma das maneiras de convencer o Marco Martins, foi dizer-lhe que nos planos [cinematográficos] em que eu estivesse a lutar ele não teria que fazer cortes para fingir que estávamos a dar socos, porque eu iria treinar e aprender a lutar. As lutas que estão no filme são combates a sério. Essa foi uma das maneiras de convencer o Marco a fazer o filme, não que ele precisasse de ser convencido. Mas, acima de tudo –  e essa é a parte interessante –  é que a realidade entrou-nos pelo filme adentro e de repente começámos a perceber que aquelas pessoas daqueles bairros, as pessoas do boxe eram em si mesmas fundamentais para contarmos esta história. E, a história, não poderia ser só o que era para nós o relato da austeridade nestes últimos quatro anos. Queríamos que houvesse vozes reais no filme e que as pessoas, ao verem o filme, se apercebessem que havia ali opiniões com as quais, inclusive nós, não concordaríamos, mas que são opiniões reais, de pessoas reais. Na maior parte do filme quase todos os personagens não são actores, salvo três ou quatro, como a minha mulher, o meu pai, uma vizinha. Mas a maior parte dos personagens são mesmo “boxeurs”, cobradores, moradores dos bairros. O meu trabalho foi, acima de tudo, de não parecer um actor no meio de gente real. E, portanto, eu teria que me aproximar ao máximo da realidade deles e deixar-me submergir nesse mundo, na maneira de falar, no sotaque e, sobretudo, na maneira de pensar que é típica das pessoas que trabalham no boxe e que fazem cobranças e que vivem nestes bairros.

– O Nuno Lopes quando recebeu o prémio em Veneza faz um discurso em que chama a atenção dos políticos em Bruxelas para olharem mais para as pessoas e menos para os números. Alguma vez lhe passou pela cabeça que o filme se poderia transformar numa forma de passar uma mensagem política?

NL – No início, começámos a estudar para fazer um filme sobre boxe. Só que estávamos numa época em Portugal que seria impossível falar de outra coisa senão na crise. Existia tanto na vida das pessoas que, quando começámos a fazer a pesquisa, o único tema que vinha sempre à baila era o facto de estarmos em crise e das pessoas estarem a passar dificuldades devido à austeridade. E, portanto, quando nos apercebemos disso e resolvemos fazer um filme sobre a crise, logo à partida era uma mensagem política. O nosso objectivo depois passou a ser contar bem a história, de maneira a que essa mensagem passasse. Portanto sim, há uma ideia política no filme, logo à partida, na escrita do guião e no tipo de pesquisa que fizemos. Agora, se estava à espera de fazer um discurso a receber um prémio em Veneza, isso não estava. Mas, acho que o filme tem uma mensagem política e por isso é que digo que é para mim muito importante que o filme estreie na Ásia e que as pessoas vejam o que se passou em Portugal nestes quatro anos, para terem uma ideia de como a Europa está a tratar dos seus problemas.

– É um actor que procura desafios, quais são os seus limites na construção de um personagem?

NL – Não tenho qualquer tipo de limites. Quer dizer, tenho os limites do bom senso, que são os limites que toda a gente tem. Se o personagem pedir uma coisa que faça sentido, o único limite é não morrer a fazer o filme. Fora isso não tenho mais nenhum limite.

– O mundo asiático tem lugar no seu imaginário? Tem referências do mundo cinematográfico asiático, por exemplo?

NL – Sim, eu sou um fã absoluto do cinema asiático, do Apichatpong [Apichatpong “Joe” Weerasethaku, da Tailândia], do Hou Hsiao-Hsien [de Taiwan], há uma data de cineastas asiáticos que têm uma influência enorme, não só na minha vida como na vida do Marco Martins. Lembro-me perfeitamente – mal acabámos de filmar o “Alice” -a quantidade de filmes que começámos a ver da Ásia, foi um momento alto, em que apareceu o Hou Hsiao-Hsien com o “Millennium Mambo” [de 2001] e houve uma data de filmes que nos influenciaram enormemente para a construção, não só deste, mas de muitos trabalhos que fizemos entretanto. Para além disso, nunca tive a sorte – e infelizmente não vai ser desta – de viajar para a Ásia. Para mim a Ásia é uma espécie de sonho eterno. Já fui convidado várias vezes para ir à Ásia e nunca pude ir. É como se fosse um mundo, que não conheço, que fica distante demais, uma espécie de lua onde adoraria estar e pela qual tenho uma curiosidade gigante, mas, infelizmente, há sempre qualquer coisa que me impede de ir. Espero que isso um dia mude, porque tenho mesmo muita vontade de conhecer melhor a Ásia. O cinema asiático tem uma importância mesmo muito, muito grande na minha carreira.

– De que forma o cinema asiático o influencia?

NL – Várias coisas. Acima de tudo há uma vaga de realizadores asiáticos que surgiram nos últimos 15 anos que basicamente ditou as novas regras do cinema contemporâneo, na minha opinião. Há uma visão em realizadores como o Apichatpong e o Hou Hsiao-Hsien – são só dois exemplos –  que trazem uma maneira completamente nova de ver cinema e uma nova maneira de explorar as narrativas de cinema. E, depois, para além disso, como actor há uma simplicidade na maneira de representar dos actores asiáticos que me comove sempre e à qual anseio chegar um dia. Acaba por ser uma referência enorme para mim, sobretudo, na representação de cinema porque há qualquer coisa de vital mas simples – quando digo simplicidade não digo simplista, digo simples na dificuldade que é fazer uma coisa simples -, a qual me comove constantemente e me inspira.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s