No jardim do Consulado repousa agora o encontro subversivo entre Vhils e Pessanha

Alexandre Farto – ou Vhils, a identidade que o artista português cedo emprestou à sua intervenção no espaço urbano – inaugurou na sexta-feira, no Consulado-Geral de Portugal, um mural sobre o qual escavou o rosto de Camilo Pessanha. À peça – a primeira que apresenta numa representação diplomática portuguesa –  chamou “Invisível – Visível”. Para voltar as atenções sobre o poeta que agitou o cânone.

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Texto de Sílvia Gonçalves

Fotografia de Eduardo Martins

Avoluma-se a multidão entre a escadaria e os jardins de luz difusa. Apontam os olhares no sentido do pano vermelho-institucional, que cobre o muro cravado no relvado, onde sobram ainda despojos de tijolo e betão que o movimento cirúrgico de perfuração lançou sobre o chão. Entre os rostos velados pela noite, sussurra-se a inquietude perante a ausência do artista que tarda em cruzar os portões, trazido pelas águas da grande metrópole onde há meses fixou raízes. Habituado ao exercício tantas vezes anónimo de apropriação da rua, a sentir-lhe o pulsar da erosão que se desvenda entre camadas, ele avança depois sobre o pequeno púlpito para se recolher na sombra de quem lhe estende o louvor. Num cenário distante da transgressão que é matriz da intervenção artística em espaço urbano, Alexandre Farto inaugurou um mural onde esculpiu um rosto que traduz, tal como ele, uma dimensão subversiva: Camilo Pessanha.

Perfurar, escavar camada sobre camada o rosto pintado que o stencil estendeu sobre a superfície. Emprestar-lhe textura, profundidade e volumetria. Ampliar a visibilidade do rosto que se impõe na aceleração da cidade com a omnipresença de um grito mudo. Aos 29 anos, Alexandre Farto carrega já biografia extensa num mundo de arte urbana que em anos recentes acentuou a transposição da acção furtiva na rua para o cenário até então interdito e sacrílego de museus e galerias. Representado pela galerista Vera Cortês desde a adolescência, Vhils cruzou cedo a intervenção ilegal e cronometrada do graffiti com o tempo lento e de maturação do processo expositivo. Num movimento contínuo dentro e para lá da rua, sem lhe rejeitar o vínculo de pertença.

Da singularidade da técnica escultórica a que há anos recorre – e onde o martelo pneumático ou o cinzel se conjugam por vezes com a carga explosiva –  resultou uma infinidade de rostos em grande escala que se impõem na mancha urbana de cidades como Londres, Lisboa, Los Angeles, Madrid, Moscovo, Xangai, Sidney ou o Rio de Janeiro. A estreia em Macau acontece depois de “Debris”, a primeira exposição individual em Hong Kong, que entre Março e Abril se instalou no Cais 4 do terminal marítimo de “Central”, e ainda noutros pontos da cidade onde o artista fixou residência, ainda que de modo intermitente, há mais de um ano.

Alexandre Farto chega a Macau numa iniciativa conjunta do Consulado-Geral de Portugal e da Casa de Portugal, convidado a intervir no espaço público da representação diplomática portuguesa no território, de que resultou uma peça a que chamou “Invisível – Visível”. O projecto dá continuidade a outros que tem desenvolvido, “com figuras que são relevantes para a história dos sítios” onde habitualmente actua: “Vem nesta perspectiva de tornar o invisível, visível. Tornar a história que muitas vezes está presente nos sítios visível”. A que associou a dimensão de tributo: “Neste caso tentei fazer esta homenagem também à obra de Pessanha, que é uma obra muito relevante para a história de Macau”, contou o artista, em declarações à imprensa, já depois de arrancado o pano que desvendou perante o clamor da massa humana – onde figuravam dois trinetos de Pessanha -, o rosto impassível do poeta.

“A técnica vem já de um projecto que tenho feito há vários anos. Consiste basicamente em marcar as diferentes tonalidades e, dependendo da profundidade a que vou, consigo ir buscar camadas diferentes. Vem muito deste conceito do acto que destrói mas também cria, e tem a ver com o facto também de querer expor a história do local”, explica Alexandre.

A permanência em Hong Kong não conhece para já um termo definido. O artista descreve a relação que desenvolve com a metrópole como um caminho de experimentação que lhe permite acrescentar espaços de reflexão: “O trabalho tem uma natureza muito urbana desde o início, surgiu do meio urbano. E estar exposto a Hong Kong e à sua intensidade é uma coisa que a mim me puxa e me faz reflectir e me faz criar o trabalho e criar novos caminhos com o trabalho. Por isso, até agora, essa relação é para continuar”, assume.

 

“ESTOU MUITO MAIS HABITUADO A ESTAR NA SOMBRA, QUE É ONDE TAMBÉM QUERO CONTINUAR”

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Sucedem-se os pedidos para uma fotografia de quem não resiste a cristalizar o encontro com o artista que há muito alcançou dimensão global. Rosto fechado, mãos enterradas nos bolsos, Alexandre sacode como pode o desconforto. Ao PONTO FINAL, descreve depois como lida com o aparato que nesta noite o envolve: “Para mim é gratificante, mas não são as zonas onde me sinto mais confortável. Estou muito mais habituado a estar na sombra, que é onde também quero continuar. Porque o foco, a ideia do trabalho é que fique nas pessoas que estou a representar e na história que está representada pelo trabalho. Mas acho que se nota no meu não-à-vontade (risos)”.

Uma exposição que o artista urbano, em regra, facilmente dispensa: “Sim, mas às vezes temos que conseguir fazer compromissos entre os nossos ideais e as coisas que queremos”. Um compromisso que gradualmente o levou a desvendar o próprio rosto, identidade que durante anos preferiu manter ocultada: “Foi uma coisa a que fui cedendo com o tempo. Aí justificava-se, com o trabalho todo ilegal que ainda se mantinha e que não tinha prescrito. Acho que as missões continuam a ser as mesmas”, assume o artista. Alexandre Farto raras vezes pessoaliza um trabalho quase sempre desenvolvido em colaboração. Na sua equipa permanecem elementos das ‘crews’ com que no passado partilhou, no Seixal onde cresceu, noites de intervenção clandestina.

Macau afigura-se nos projectos que o artista desenvolve nesta altura e que deverão ser concretizados num tempo próximo: “Em Janeiro estamos com vários projectos. Já para começar estamos a trabalhar num projecto grande para Macau. Quero deixar margem para poder alterar as coisas todas que quiser”, assinala, como que a justificar a escassez de informação que está disposto a libertar. Depois da monumentalidade do Consulado, em que espaços da cidade gostaria o artista de intervir? “Ainda estou à procura, tenho estado a ver. Mas sem dúvida que áreas que tenham mais alma me interessam mais do que partes novas. Interessa-me muito mais os bairros antigos, e é nesse caminho, mas nem sempre é fácil. É nessa perspectiva que tenho estado a tentar explorar”, revela Alexandre, para regressar depois à sombra, de onde prefere agir sobre o mundo.

 

 

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