Marco Martins: “’São Jorge’ é um filme com uma temática universal”

Marco Martins falou ao PONTO FINAL antes de chegar a Macau para a estreia asiática de “São Jorge”, uma das películas em competição no 1º Festival Internacional de Cinema de Macau e Cerimónia de Prémios (IFFAM). O filme aborda um tema “universal”: um pai que luta para manter a família unida em tempo de crise económica. Em entrevista, o realizador português promete continuar a filmar a austeridade e a “colocar uma lupa sobre situações sociais” que lhe interessam explorar.

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Cláudia Aranda

É em Inglaterra que Marco Martins se encontra a realizar pesquisa junto a uma comunidade de imigrantes portugueses e é no intervalo das entrevistas de campo que o realizador conversa por telefone com o PONTO FINAL, dias antes da sua chegada a Macau. O realizador vai estar no território para a estreia asiática da sua última obra – a o filme “São Jorge” –  um dos doze em competição no 1º Festival Internacional de Cinema de Macau e Cerimónia de Prémios (IFFAM).

“São Jorge” chega a Macau depois de uma estreia mundial retumbante no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde o actor português Nuno Lopes foi distinguido pelo júri da secção “Orizzonti”, com o prémio especial de melhor actor, pelo seu desempenho como “Jorge”, um pugilista desempregado, morador nos subúrbios de Lisboa, que se vê obrigado a aceitar um emprego numa empresa de cobranças para sobreviver à crise e ao período de austeridade económica que se vive em Portugal. Depois de Veneza, “São Jorge” tem feito um percurso grande por festivais internacionais, como Chicago, São Paulo, Estocolmo entre outros. Não estreou comercialmente em nenhum lugar, mas já se encontra vendido para distribuição comercial na República Popular da China, adiantou o realizador ao PONTO FINAL.

O autor de filmes como “Alice” (2005), protagonizado também por Nuno Lopes, chega a Macau já com alguma bagagem do continente asiático e, sobretudo, do Japão, onde realizou documentários como “Traces of a Diary – Fragmentos de um Diário” que retrata o trabalho de fotógrafos do Japão actual. O Japão também é um dos cenários em “Twenty one twelve: The day the world did not end“ – “21/12: O dia em que o mundo não acabou” – um projecto realizado com o artista italiano Michelangelo Pistoletto.

 

– Depois de Veneza, o que representa estar em competição na edição inaugural do festival internacional de cinema de Macau?

 

Marco Martins – Para mim significa muito. O filme foi seleccionado por Marco Müller (ex-director do IFFAM) e como programador influente que é e tendo ele descoberto muitos realizadores ao longo do tempo, o facto de ele ter escolhido o “São Jorge” representa muito. Há um país para o qual o filme já está vendido para distribuição comercial, que é a China. Já estava vendido para a China, antes mesmo de surgir Macau. Estou com uma grande expectativa para saber o que será este novo festival. Fiquei um pouco triste com a saída do Marco Müller, claro, mas a expectativa continua, mantém-se.

– Que impacto imagina que este filme – uma história que aborda  a austeridade em Portugal – possa vir a ter na República Popular da China?

 

MM – Cada vez que apresentamos um filme num novo território, numa cultura que é diferente da nossa, existe sempre uma expectativa de saber como é que o filme vai ser compreendido, quais as especificidades culturais que conseguirá ultrapassar. Acho que isso é muito bonito no cinema, é essa linguagem universal que é possível. O São Jorge, apesar de ser muito regional, é um filme que se passa na Margem Sul (em Lisboa), é sobre o desemprego em Portugal, a troika. Apesar de ser muito específico, é um filme com uma temática universal: um pai que está a lutar para manter o filho com ele, para que a mulher não volte para o Brasil. Nos países ocidentais, na Europa, nos Estados Unidos, o tema do emprego é um tema muito pertinente, porque as condições de trabalho das classes sociais mais desfavorecidas são cada vez piores, o que leva a estas grandes vagas de emigração. Por exemplo, agora estou aqui em Inglaterra, em Great Yarmouth. Neste momento, estão cá cerca de 10 mil portugueses a trabalhar, o que é muito, a ganharem salários ligeiramente mais altos do que em Portugal, mas em condições muito difíceis, muito duras. Por isso é que acho que esta temática da austeridade em Portugal continua muito actual.

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– Como é que o filme foi selecionado para Macau?

 

MM – Penso que foi em Veneza que o Marco Müller o viu, estive com ele lá. Não falei especificamente sobre o filme, mas penso que ele o viu e o seleccionou para o festival de Macau. Os programadores dos festivais normalmente estão em Cannes, Veneza e Berlim, pelo menos, e partir daí seleccionam para os outros festivais. A partir do momento em que se entra em um desses três festivais as portas dos outros festivais à volta do mundo abrem-se.

 

– Acha que já há festivais de cinema suficientes ou é importante haver mais eventos como estes?

 

MM – Há um grande “boom” de festivais. Penso que teve que ver com o desaparecimento dos circuitos comerciais tradicionais, acho que os cinemas um pouco por todo o mundo estão monopolizados pelas grandes cinematografias, a americana acima de tudo. Na Ásia é um bocadinho diferente.  Mas, cinematografias como a portuguesa, a romena, a argentina, a mexicana, a chilena, são cinematografias muito interessantes que acabam por não ser vistas, salvo raras excepções, protagonizadas por filmes que têm grande sucesso e que, depois, conseguem ter uma distribuição comercial. Mas, para o público em geral conseguir ver esses filmes, o circuito dos festivais é extremamente importante. É onde as pessoas, de facto, conseguem ter contacto com as cinematografias de todo o mundo e as vozes mais pertinentes, o cinema mais de vanguarda. Portanto, os festivais, neste momento, têm um papel fundamental. Acho que quantos mais festivais melhor, mais hipóteses os filmes têm de serem vistos e das pessoas mostrarem o seu trabalho. Porque os filmes, infelizmente, são cada vez menos vistos em sala e o cinema é para ser visto em sala. A experiência de ver um filme deveria ser sempre em sala e nós, infelizmente, cada vez mais vemos os filmes em computador e, claro que a experiência e o contacto com a obra é totalmente diferente, é muito menos emotiva. Eu nasci a ver cinema e adoro ver cinema em sala, por isso faz-me sempre confusão quando dizem: “Vi o teu filme, mas vi em computador”. Na televisão acho que a experiência é distinta, mas ainda acho que é uma experiência boa.

 

– Em conversa com o actor Nuno Lopes, que o PONTO FINAL também entrevistou, percebe-se que há uma grande cumplicidade artística entre o Nuno e o Marco, são amigos e a próprio personagem “Jorge” do filme “São Jorge”, foi construída um pouco a dois. Pode falar desta partilha e desta parceria artística?

 

MM – Quando comecei a escrever o guião pensei logo em fazer o filme com o Nuno. Portanto, envolvi o Nuno muito cedo no projecto e no processo de pesquisa. Não no processo de escrita. Esse foi um processo entre mim e o Ricardo Adolfo, que é um escritor português que vive no Japão, do qual sou muito amigo. É um escritor de romances, que trata muito destas temáticas das classes desfavorecidas, do mercado de trabalho. O Nuno acompanhou-me muito na pesquisa no mundo do boxe, das cobranças, nos bairros, sempre que ele tinha disponibilidade acompanhava-me. O nosso trabalho de construção do personagem, do universo do “Jorge”, que é a personagem dele, foi muito partilhado e discutido entre os dois. Acho que isso acontece porque nós, de facto, temos uma relação muito próxima, somos amigos, mas mais do que isso, partilhamos processos de trabalho. O Nuno trabalhou comigo num processo que foi muito importante para o “São Jorge”, que foi uma peça de teatro que fiz nos estaleiros navais de Viana de Castelo. Durante um ano trabalhámos com um grupo de trabalhadores dos estaleiros navais e tivemos este primeiro contacto com uma coisa que é muito forte no filme, que é o mundo dos actores não profissionais. Foi a primeira vez que, quer ele quer eu, trabalhámos com pessoas não profissionais num projecto. O Nuno acompanhou muito o processo criativo, de preparação do filme. Por isso, ele diz que, quando começou a representar, não pensou muito nisso porque já estávamos há quase dois anos a trabalhar no filme.

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– O filme “São Jorge” teria sido possível sem o actor Nuno Lopes?

 

MM – (risos) Hoje em dia, não consigo pensar na personagem do “Jorge” sem pensar no Nuno, porque o criámos os dois, mas se o Nuno não estivesse envolvido no projecto… Isto é sempre difícil de dizer, mas depois do objecto existir, nós só o conseguimos conceber com os actores: não só o Nuno mas também o José Raposo, as personagens do Bairro da Bela Vista, todos fazem parte daquela construção. Com outro actor, seria outro filme. Acho que os actores definem muito a natureza dos filmes. Existiria com certeza, mas seria um filme diferente.

 

– Para o guião contou com a colaboração do escritor Ricardo Adolfo. Como é que se desenvolveu essa parceria? Onde começa e termina o trabalho de um e de outro?

MM – Os processos de escrita em colaboração são sempre muito distintos. Pode-se escrever o guião a dois, no nosso caso, tinha uma equipa de pesquisa com duas pessoas que estavam nos bairros a fazerem entrevistas. Quando eu não podia fazer as entrevistas e estar com os cobradores de dívidas ou os moradores dos bairros ou do boxe, havia duas pessoas que estavam a fazer entrevistas  e a transcreve-las e eu fui criando uma série de material. A primeira versão do guião fui eu que a escrevi. Depois passei esta versão para o Ricardo que escreveu a segunda e por aí adiante até chegarmos à versão do guião em que já se confunde o que é de um e o que é de outro.

 

– O Marco está bastante ligado ao teatro…

 

MM – O Teatro apareceu na minha vida depois do filme “Alice”. Fui convidado pelo Jorge Salavisa para fazer um espectáculo no Teatro São Luiz, eu não tinha qualquer relação com o teatro, era um espectador – nem sequer muito assíduo – e tive um espectáculo chamado “Quando o Inverno Chegar”. Fiz um trabalho de raiz, com um grupo de actores – a Beatriz Batarda, o Gonçalo Waddington, o Nuno Lopes –  e criei o “Arena Ensemble”, um grupo de teatro criado com a gente que estava nesse espectáculo. A partir daí, gostei muito de trabalhar em teatro e é algo que continuo a fazer ao longo da minha vida. Até porque os projectos de cinema têm uma gestação longa, desde fazer o guião, conseguir os apoios para fazer um filme, pode demorar dois anos, três anos. O “São Jorge” levou quatro anos a ser feito. Durante esse tempo gosto de ter um projecto de teatro, que acaba por ser algo mais rápido, onde há o contacto com o público mais imediato, em que se está dois meses com um grupo de actores a trabalhar um texto e passados dois meses estreia-se. Consegue-se trabalhar também outras formas dramatúrgicas, que depois alimentam o meu trabalho no cinema.

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– O Marco Martins já referiu que está agora em Inglaterra a seguir o percurso da austeridade ou a marca dos locais onde esta levou os portugueses. Este é um tema que o Marco vai continuar a explorar?

 

MM – Acho que o espectáculo de que falei, nos estaleiros navais de Viana do Castelo, marca uma viragem nas minhas temáticas. A crise económica de 2011, 2012, em Portugal, criou um alerta para uma geração que nunca tinha tido atenção a temas sociais. O mesmo acontece agora também com a crise dos refugiados. Há aqui uma mudança do que é o paradigma sobre o trabalho e a condição social das classes mais desfavorecidas. De repente, tornou-se muito visível e muito premente falar sobre essas pessoas. Neste momento, acho importante falar sobre isso, é algo sobre o qual, quer os Media em geral, quer a ficção para televisão não conseguem falar de uma forma suficientemente profunda e reflectida e acho que o cinema tem esse papel. No cinema há outro espaço, há outro tempo e a ficção tem essa grande capacidade de colocar uma lupa sobre determinados momentos históricos, sobre determinadas situações sociais que me interessam explorar.

– O que espera encontrar em Macau desta vez?

MM – A China em geral –  e Macau em particular – acho sempre muito interessante porque a estão a mudar muito rapidamente. Há sempre essa expectativa de saber de que forma é que Macau está a mudar e que transformações são essas e há sempre esse fascínio sobre uma cultura que nós não conhecemos muito e, então, exerce sempre um forte fascínio.

– Em relação à Ásia, há uma atracção pelo desconhecido?

MM – Em relação ao Japão é o encontro com uma civilização e uma cultura que é o mais distinta de nós possível. Quando viajamos por África, pela América do Sul ou pela Índia conseguimos encontrar pontos de contacto e esta história da globalização faz com que, de facto, existam pontos de contacto. No Japão há um salto de civilização enorme, há uma redescoberta de uma série de coisas que eu julgava já fechadas dentro de nós, quer em relação à literatura, quer em relação à arte e à arquitectura. É como abrir uma porta sobre uma nova cultura: é uma descoberta que eu julgava que já não era possível, isto atraiu-me e fiz os documentários no Japão.

 

– Vai fazer um filme depois de fazer a pesquisa em Inglaterra?

MM – Inicialmente vamos fazer uma peça de teatro com pessoas da comunidade. Vai ser uma peça de teatro comunitária com pessoas daqui de Great Yarmouth, para estrear em Londres em 2018 num festival internacional de teatro. Depois, a partir daí espero fazer um filme. É essa a ideia tentar com este material e esta pesquisa que estamos a fazer para este espectáculo – que irá para o Teatro Maria Matos em Portugal –  construir também um filme.

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