Nove mil telas para contar o lento definhar da cidade

A Delegação de Macau da Fundação Oriente estendeu a Lai Sio Kit o convite para uma primeira mostra individual na Casa Garden. O artista respondeu com uma série de nove mil telas pintadas a acrílico, em pequena escala, que traduzem o envelhecimento dos mosaicos e da Macau antiga que os envolve. A exposição “O Tempo Corre” é amanhã inaugurada, às 18h30, e permanece patente ao público até 8 de Janeiro.

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Sílvia Gonçalves

Nove mil telas, ínfimas, onde se desenrola uma passagem do tempo que revela o envelhecimento da cidade. Nove mil pequenas representações de mosaicos que subsistem nas paredes fustigadas pela cavalgada dos anos, que o abandono reduzirá a cinzas. Lai Sio Kit apresenta-se na primeira individual que organiza na Casa Garden com uma proposta plástica onde a pintura acrílica cria a ilusão do mosaico que transita da nitidez à erosão, numa série infinita a que chamou “O Tempo Corre”. A proposta foi-lhe estendida pela Fundação Oriente, que inicia com o artista uma sequência de exposições anuais dos vencedores do Prémio para as Artes Plásticas. Ana Paula Cleto aponta-o como um dos artistas mais promissores de Macau, um daqueles que escapará à banalidade que tantas vezes fere a criação artística.

“A pintura dele tem muito a ver com a contemplação da cidade. O que nós vamos ver aqui é uma espécie de mosaicos que são muito comuns ainda em Macau. São telas pintadas a acrílico, do tamanho de mosaicos. Ele chamou à exposição ‘O Tempo Corre’ porque percebe-se que há o passar do tempo, é o passar do tempo da cidade, até ao envelhecimento dos mosaicos”, descreve Ana Paula Cleto.

A coordenadora da delegação de Macau da Fundação Oriente fala  do desgaste gradual conseguido através do uso da cor. “A passagem do tempo vê-se através do tratamento de cor. Há telas em que o mosaico é nítido, as formas são mais ou menos nítidas, e depois há uma espécie de ‘degradée’. Ele instala aqueles mosaicos todos, mas na instalação que faz, percebe-se o escurecimento das telas, ele imprime o envelhecimento, elas ficam mais escuras, algumas quase que têm verdete, outras ficam com tons castanhos, acobreados”, sublinha.

A primeira mostra individual de Lai Sio Kit na Casa Garden resulta de uma proposta da Fundação Oriente, que inicia com o artista um conjunto de exposições dos pintores já premiados pela instituição:“Ele foi o nosso vencedor do primeiro Prémio Fundação Oriente para as Artes Plásticas [em 2012]. E nós agora vamos tentar fazer, cada ano, uma exposição individual de cada um dos vencedores. Este ano começamos com o Lai Sio Kit. Para o ano que vem, já falei com o Eric Fok, embora ele só possa fazer no início de 2018. A ideia é proporcionar-lhes a oportunidade de fazerem uma exposição individual aqui”, adianta a delegada da Fundação Oriente no território.

Ana Paula Cleto, que há anos observa o trabalho de Lai Sio Kit, dá conta de uma evolução que o posiciona, defende, na galeria dos incontornáveis: “Eu acho que é um dos artistas mais promissores de Macau. Ele ganhou o prémio porque é um artista muito talentoso, estudou em Pequim, teve oportunidade de estar em Portugal [na residência artística atribuída pelo prémio], de conviver com outros artistas lá, e isso de facto transforma-os. Há uma abertura, o contacto com artistas em Portugal dá-lhes uma perspectiva diferente”, defende.

A convicção da coordenadora leva-a a ampliar o elogio: “Eu acho que o Lai Sio Kit vai ser um dos artistas mais importantes de Macau. Ele é artista por natureza, por educação, por vocação. Eu aposto muito neste artista. Acho que as pessoas têm que olhar para o Lai Sio Kit como um artista por inteiro”. E recorda: “Dentro da comunidade dos artistas mais jovens, já é um dos mais considerados. Ele é o director-geral da AFA [Art For All Society], portanto já é muito considerado pelos seus pares”, observa.

Se a exposição de Lai Sio Kit encerra a 8 de Janeiro, a Casa Garden tem já outras mostras agendadas para o arranque do novo ano. A primeira, com fotografia e vídeo de Peng Yun e José Drummond, co-organizada pela associação Babel, é inaugurada a 20 de Janeiro na galeria principal. Segue-se, a 24 de Janeiro, uma mostra de pintura de Manuela Martins, na galeria de exposições temporárias. Para Fevereiro está já prevista uma exposição de fotografia do arquitecto João Palla, adianta ainda Ana Paula Cleto.

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