“A História precisa de ser discutida”

A Livraria Portuguesa acolheu no sábado o primeiro de dois debates públicos por ocasião do 50º aniversário do motim “1,2,3”. A iniciativa, promovida pela plataforma Energia Cívica de Macau, contou ainda com a projecção de um documentário alusivo aos acontecimentos de 3 de Dezembro de 1966.

1-motins-123

Wendi Song

O debate e a projecção de um documentário sobre o motim “1,2,3”, inserido nas “Mesas Redondas Cívicas” organizadas pela plataforma Energia Cívica de Macau, decorreu no sábado na Livraria Portuguesa por ocasião dos 50 anos da maior revolta popular a ter o território como palco durante a segunda metade do século XX.

Quatro entendidos na questão – nomeadamente Agnes Lam, Ricardo Pinto, Camões Tam e Ho Ka Ki – foram convidados a partilhar as suas opiniões no debate co-organizado pela Livraria Portuguesa.

A discussão começou com a projecção do documentário “Motim 1,2,3”, produzido há 30 anos por Agnes Lam e Ricardo Pinto, quando exerciam funções na Teledifusão de Macau. O  programa foi  produzido em 1996, mas só acabaria por ser transmitido no canal em língua portuguesa da estação pública três anos depois, nas vésperas da transferência de administração.

Em tempos, o “1,2,3” foi considerado, segundo Agnes Lam, académica da Universidade de Macau, o “maior tabu político” de Macau. Desencadeado pela Revolução Cultural que decorreu na China Continental, foram os chineses com ideais políticos de Esquerda que confrontaram a Polícia de Macau, em forma de protesto, contra a não concessão,  por parte da administração portuguesa de Macau, relativamente à construção de uma escola na ilha da Taipa.

O auge dos acontecimentos materializou-se a 3 de Dezembro de 1966, quando um grupo de manifestantes cercou a sede do Governo e saqueou o edifício do Leal Senado. As autoridades portuguesas em Macau mobilizaram a polícia anti-motim para dispersar a multidão, o que acabou por causar oito mortes e mais de duas centenas de feridos. O resultado foi a assinatura de uma série de convénios, tidos como humilhantes, por parte das autoridades portuguesas do território

O Governo Português, liderado naquela altura por António de Oliveira Salazar, assinou dois acordos com a comunidade chinesa de Macau e com a China Continental, comprometendo-se a compensar com 2 milhões de patacas a comunidade chinesa e a proibir todas as actividades de Kuomintag, o Partido Nacionalista Chinês, no então enclave sob administração lusa.

Esta mudança levou ao término do conflito, mas limitou os poderes das autoridades Portuguesas, alargando o poder de Pequim sobre Macau desde então e encorajando, mais tarde, as rebeliões que se fizeram sentir na então colónia britânica de Hong Kong em 1967.

Estas questões mantiveram-se restritas durante algum de tempo. Em 1995, Ricardo Pinto decidiu conduzir uma série de investigações sobre a posição de Macau durante o período da Segunda Guerra Mundial, recorrendo ao material que se encontra no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. O administrador do PONTO FINAL notou que, depois de 30 anos, os documentos confidenciais sobre o “1,2,3” haviam sido divulgados e estavam agora disponíveis para consulta pública.

Ricardo Pinto decidiu, então, conduzir algumas entrevistas em Lisboa, tendo conseguido conversar com algumas figuras relevantes na reconstituição da narrativa do incidente, incluindo Silva Cunha, Ministro do Ultramar e Rui de Andrade, oficial que se encontrava aquartelado na Taipa naquela altura e que esteve envolvido nas atribulações, relacionadas com a construção da escola na Taipa, que estiveram na origem dos acontecimentos de 3 de Dezembro.

Agnes Lam era colega de Ricardo Pinto no canal em língua portuguesa da TDM, em 1995. Depois de algumas discussões – e atingido o consenso de que o motim do “1,2,3” é um marco na história de Macau – decidiram realizar um documentário para trazer as investigações a público.

O documentário foi realizado separadamente, sendo que Lam desempenhou um papel importante no contacto com participantes chineses ligados ao acontecimento. Quando ficou concluído, o programa estava disponível em versão chinesa e em versão portuguesa.

A versão chinesa de Agnes Lam foi emitida e elogiada pelos meios de comunicação locais. Por outro lado, a emissão da versão portuguesa de Ricardo Pinto foi rejeitada pelo administrador da TDM em funções naquele tempo.

Três anos mais tarde, a versão do administrador do Ponto Final foi, subitamente, difundida, pelas 16h, sem qualquer tipo de promoção. Para Ricardo Pinto, o próximo passo é introduzir legendas em língua inglesa no seu documentário de forma a atingir mais audiência.

Depois da projecção do “Motim 1,2,3”, os convidados do debate partilharam as suas opiniões sobre o acontecimento e as suas causas e efeitos na história de Macau, sobre a forma como devem ser entendidos os poderes políticos do território hoje em dia ou as razões dos diferentes resultados de rebeliões de Esquerda similares em Macau e em Hong Kong, mas que levaram às posições distintas perante o Governo Central Chinês.

No final da discussão, Agnes Lam – actualmente académica da Universidade de Macau – anunciou que se encontra a trabalhar num livro sobre a rebelião de 1966, uma vez que teve acesso a novos documentos e materiais depois da realização do documentário.

Os quatro participantes convidados para o debate concordaram com a importância das discussões acerca deste tipo de eventos históricos: “A História não deveria ser escondida, precisa de ser discutida. Só podemos perceber a actual situação da nossa sociedade se tivermos conhecimento da nossa História”, concluiu Ricardo Pinto.

Ontem, teve lugar na Livraria Portuguesa um segundo debate aberto ao público e intitulado “História que os residentes de Macau devem conhecer: Meio Século sobre o turbulento motim 1,2,3”. O encontro foi organizado pela associação Juventude Dinâmica de Macau (ver texto na página 15)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s