Leong Heng Teng: “Porque é que não nos deixavam construir uma escola?”

Passaram-se 50 anos desde o “Um, Dois, Três” mas as memórias negativas suscitadas pelo motim nas comunidades chinesa, portuguesa e macaenses ainda perduram. O tópico é ainda um tabu para muitos, mas entre as gerações mais jovens há vontade de conhecer melhor um dos incidentes mais relevantes na história da Macau do Século XX.

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João Santos Filipe*

 

“Nós sentíamo-nos muito zangados. Porque é que não nos era permitido construir uma escola? A origem do incidente foi essa. Porque é que não nos deixavam construir uma escola? Na altura só pensávamos nisso.” Passaram-se cinquenta anos e a pergunta é do actual porta-voz do Conselho Executivo, Leong Heng Teng, que em 1966 foi uma dos residentes do território envolvidas nos episódios que ficariam conhecidos para a história como o “Um, Dois,Três”.

Nessa altura Leong era professor na Escola Primária Keang Peng e tinha entrado há pouco tempo no mundo do trabalho. Após o incidente iria dar aulas para a Escola dos Moradores. Antes disso, foi uma testemunha próxima dos acontecimentos que quase determinaram o fim da presença portuguesa em Macau: “Eu tinha acabado de começar a trabalhar. As pessoas queriam construir uma escola na Taipa. Mas o Governo não autorizava as obras e depois aconteceu isso… Nessa altura, como acontecia com as pessoas em geral, e os professores mais jovens, estávamos muito preocupados com a escola”, disse ao PONTO FINAL.

Em 15 de Novembro de 1966, e depois de meses à espera de uma autorização da Administração portuguesa do território – que só chegaria depois de um desfecho trágico – para construir uma escola na Taipa, vários cidadãos chineses decidiram avançar com os trabalhos. Porém as autoridades portuguesas não gostaram da atitude e dispersaram operários e estudantes através da força, prendendo seis dos responsáveis pela atrevida decisão.

O episódio foi o gatilho que espoletou a sequência de incidentes que viriam a resultar, no dia 3 de Dezembro, na morte a tiro de cerca de uma dezena de manifestantes chineses pelas autoridades portuguesas. As mortes foram uma resposta trágica à invasão de vários os serviços do Governo, com agressões pelo meio.

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Contudo e apesar dos anos passarem, ainda são muitos os residentes do território que têm dificuldade em lidar directamente com a memória de um acontecimento político que marcou profundamente Macau. Mesmo Leong Heng Teng, depois de explicar a situação, mostra-se reticente em dar continuidade à conversa: “Estas perguntas obrigam-me a falar de coisas sobre as quais já se passaram muitos anos e isso exige um grande esforço de memória. Quando me perguntam não sei por onde começar. Preciso de me preparar para falar do assunto”, diz o actual porta-voz do Conselho Executivo, que assim recusa dar continuidade à conversa.

 

Motivo para o alheamento político

 

Esta postura não é uma surpresa. O episódio deixou marcas profundas tanto do lado chinês, como português e macaense. E se hoje muita da população evita envolver-se em qualquer tipo de actividades políticas, a memória do “Um, Dois Três” é uma das explicações para essa realidade. Esta é a visão de Agnes Lam, académica da Universidade de Macau que realizou um documentário para o canal chinês da TDM.

“Em Macau as pessoas ligavam muito mais à política nos anos 60. Aliás uma das razões pelas quais considero que as pessoas hoje evitam pensar e discutir política é o epsidódio do Um, Dois, Três”, disse Agnes Lam, ao PONTO FINAL.

“Faz parte da memória colectiva de Macau a forma como as diferentes ideias políticas acabaram em violência. É por isso que as pessoas não querem debates políticos nem envolverem-se em discussões”, acrescenta.

Outra causa apontada por Agnes Lam é o tamanho do território. Com uma área e população limitada, os confrontos políticos podem facilmente colocar frente-a-frente amigos ou conhecidos. Para evitarem situações do género, as pessoas preferem alhear-se.

Se por uma lado há quem tenha problemas em falar do tema, por outro também há quem fale da situação com naturalidade, como é o caso de António Cambeta, português que chegou em Macau em 1963, com apenas 20 anos.

 

Tensões antigas

 

“Os chineses tinham sido sempre subestimados e maltratados pelos portugueses. Houve uma altura em que se fartaram. Nessa altura, e depois de ter acontecido a Revolução Cultural na China, eles queriam uma resposta rápida para a construção e queriam alterações na forma como a Lei tratava os chineses”, disse António Cambeta, ao PONTO FINAL.

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“Aquilo foi tudo provocado pelo requerimento. Nem era uma questão de se ter de pagar subornos ou algo parecido, só que os portugueses nunca mais autorizaram a construção da escola e eles começaram as obras”, recorda.

Foi no dia 3 de Dezembro que a tensão entre chineses e portugueses atingiu um trágico clímax, com as autoridades a dispararem perante a multidão de manifestantes. Antes disso, uma turva furiosa já tinha invadido o Leal Senado, a conservatória da Santa Casa da Misericórdia e derrubado a estátua do Coronel Vicente Nicolau de Mesquita, situada no centro do que é actualmente o Largo do Senado.

“As chaimites entraram pela Rua junto ao Hotel Central onde era a Polícia de Segurança Pública e abriram fogo, matando várias pessoas e deixaram outra feridas. Posso dizer que na Avenida Almeida Ribeiro vi as chaimites fazerem fogo contra os manifestantes”, atesta Cambeta.

Porém não foi só a população chinesa a sofrer com o incidente. Devido ao adensar da tensão,  portugueses e macaenses depararam-se com um ambiente de bloqueio comercial, que os impedia de conseguir comprar comida ou utilizar os serviços públicos da cidade.

“Num desses dias fui trabalhar de manhã e quando tentei apanhar o autocarro na rua Coelho Amaral, o condutor disse-me que não me podia transportar porque eu era português”, lembra Cambeta, que chegou a Macau para aqui cumprir o serviço militar.

“Finalmente, disse-lhe em cantonês que não era funcionário público, nem militar ou polícia e pedi-lhe para ele me levar. O condutor, depois, disse-me para ir para o fundo do autocarro e virar a cara para o interior, para não ser visto da rua, alertando que no dia seguinte não me transportaria”, recorda.

 

Bloqueio a portugueses e macaenses

 

Embora tivesse apenas 4 anos, Fernando Gomes, médico local, também recorda episódios semelhantes, principalmente no que dizia respeito ao acesso a comida e a bens de primeira necessidade: “A minha mãe era macaense e ainda foi ao mercado, tentando disfarçar-se um pouco para não ser conhecida. Mas as pessoas conheceram-na e apontaram que era casada com um português… E já não lhe quiserem vender nada”, conta ao PONTO FINAL.

“Aquilo na altura foi chocante porque afinal – e de um momento para o outro –  comerciantes a quem comprávamos coisas há anos e com quem havia relações da amizade recusavam-se a vender-nos comida. Sentíamos que queriam que morrêssemos à fome”, acrescenta.

Fernando Gomes lembra igualmente os tempos difíceis e não hesita em dizer que a situação lhe causou um trauma pela sua intensidade, o que faz com que se recorde do que aconteceu, apesar de na altura ter pouco mais de quatro anos: “Na altura os portugueses e macaenses tinham duas opções: ir para Hong Kong à espera que a situação acalmasse ou ir em comissão de serviço para outras colónias”, explicou.

“Eu como era novo queria ser retirado de Macau, porque achava que viajar era bestial. Só que a minha avó tinha problemas de saúde e era complicado sair de Macau. Ela depois até acabou por ser internada. Mas na altura dizia-nos para irmos embora porque ela era velha e podia ficar em Macau para morrer. Foram momentos intensos e com muito choro”, recorda o clínico.

Depois de momentos de tensão entre as diferentes comunidades, finalmente a 29 de Janeiro de 1967-  e numa altura em que a situação já estava mais calma –  o Governador Nobre de Carvalho assina um declaração em que pede desculpas à comunidade chinesa. O acordo foi assinado na Câmara do Comércio Chinesa e contou com a intermediação de Ho Yin, presidente da câmara.

Além do pedido de desculpas e indemnizações pagas às famílias das vítimas, Portugal renunciou ao Direito perpétuo sobre Macau e comprometeu-se a deixar de dar auxílio aos nacionalistas do partido Kuomintang, decisão que reforçou a influência do Partido Comunista Chinês no Território.

Após este incidente, e até 1999, altura da transição, nunca mais se registaram episódios com esta gravidade entre as comunidades que têm o território como casa. Também com o passar dos anos, o episódio vai-se tornando cada vez mais distante, principalmente entre os imigrantes e as gerações chinesas mais novas.

 

Um acontecimento distante

 

“Apesar de ser um dos eventos com maior importância política para Macau e um ponto de viragem, actualmente os alunos não são ensinados nas escolas sobre o mesmo. Isso faz com que não o conheçam, tal como não conhecem a História de Macau”, defende Sulu Sou, activista político de 25 anos e membro da associação pró-democrata Novo Macau.

 

O activista considera que o tabu tem hoje em dia uma justificação política e como a administração mudou, há interesse em evitar promover qualquer tipo de discurso que possa originar uma luta violenta: “As pessoas que no passado usaram acções violentas para lutar contra o Governo português em 1966, agora não querem falar nisso. Eles teme que os adolescentes de hoje recorram a esses meios se não gostarem das políticas do Governo”, afirma ao PONTO FINAL.

“Não nos podemos esquecer que essa geração hoje em dia crítica os métodos utilizados pelos adolescentes em Hong Kong, como no movimento Occupy Central, apesar de terem feito o mesmo com mais violência. É por isso normal que eles não se sintam bem a partilhar as suas memórias”, frisa.

No entanto, Sulu Sou também reconhece que muitas pessoas sem responsabilidades políticas mostram mais abertura para falar dos acontecimentos de 1966: “Se não tiverem responsabilidades, a percentagem de pessoas que aceita falar é de 50 por cento. Mas não nos podemos esquecer que isso faz parte da História de Macau e que temos a responsabilidade de não a deixar esquecer”, conclui.

 

 

*Com E. G.

 

 

 

 

 

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