Para a geração maquista que desponta, é tempo de tomar em mãos o futuro

Algumas dezenas de jovens, maioritariamente da diáspora, acorreram ontem ao Consulado de Portugal em Macau para uma sessão, organizada pela Associação de Jovens Macaenses, em que foram exibidos filmes sobre a identidade maquista. Após a projecção, o PONTO FINAL registou uma convicção, partilhada entre os de cá e os de longe: a de que a geração abaixo dos 45 está apta a dar continuidade ao legado.

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Sílvia Gonçalves

Michele carrega no nome o cruzamento de mundos que lhe correm no sangue. Michele Maria Chan, a americana nascida na Califórnia, traz na genealogia pai e mãe macaenses, a que soma a convicção – sentida desde a infância – de pertença a uma cultura que não encontrava semelhança com nenhuma outra. Na escola, habitou-se ainda menina a colocar-se diante da turma e a apresentar aos colegas a cultura cravada numa península que ninguém parecia conhecer, a cozinha de fusão que não encaixava no quotidiano dos amigos portugueses e chineses. No entardecer de ontem, Michele deambulou entre as dezenas de jovens que, como ela, chegaram de longe para um encontro global onde a juventude ainda é pouco visível. Uma questão de tempo, dizem eles, certos de que a geração a que pertencem tomará em mãos os destinos da família maquista.

“Quando era criança, não era tão óbvio, porque entre os meus familiares o background era o mesmo. Só se tornou mais claro quando comecei a conhecer amigos, pessoas de culturas diferentes, que a minha cultura é muito única”, contou Michele ao PONTO FINAL. O confronto com a singularidade da matriz que lhe está entranhada acontece quando percebe quão distantes eram os hábitos de quem a rodeava: “Conheci chineses que não eram católicos, que comiam diferentes comidas. Conheci portugueses ou europeus que não comiam coisas de fusão. Só então se tornou claro que a cultura macaense é muito única, é mesmo Ocidente encontra Oriente. É uma fusão, ao contrário de qualquer outra cultura do mundo”, explica.

Em casa, o habitual cruzamento de línguas também denunciava uma mestiçagem que é, resto, um retrato da própria América: “A minha mãe fala um pouco de português, mas em casa falamos inglês e cantonense. A minha mãe é metade portuguesa e estudou numa escola portuguesa, o meu pai estudou numa escola chinesa”.

E como se define a mulher, hoje com 31 anos, nascida na Califórnia? “Sinto-me macaense e americana. É algo pelo qual estou muito grata. Ao crescer na América é um elogio acarinhar o lugar de onde vens, conhecer as tuas raízes. Isso é parte da minha cultura americana, ser diversa e conhecer a tua etnicidade e cultura é muito importante. Sinto-me muito macaense, sinto-o desde pequena, tem vindo a crescer em mim, a comer minchi, a celebrar o Ano Novo Chinês mas indo também à missa”, sublinha.

Michele começou cedo a descrever na escola o lugar onde pousavam as raízes: “Fazia apresentações na escola sobre Macau, partilhava a minha cultura com a minha turma. Sentia-me tão orgulhosa, ensinava os meus pares sobre a minha cultura, sobre de onde vem a minha família”.

A educadora, que se estreia no Encontro das Comunidades Macaenses, chega ao território pela sexta vez, acompanhada da mãe e da tia. E diz-se surpreendida com a juventude que veio encontrar: “Na Casa de Macau USA, a que pertenço, em Freemont, há poucos membros jovens. Então vir aqui e ver tantos jovens é muito motivador, ver que há jovens macaenses a vir de todo o mundo que estão tão interessados como eu em preservar a nossa cultura. Isto é só o princípio, estamos a crescer e acho que haverá cada vez mais”.

Na sessão ontem promovida pela Associação dos Jovens Macaenses (AJM) foram projectados dez pequenos filmes, produzidos por macaenses de cá e da diáspora, onde cada um procurou definir o que significa ser macaense. Para Mariana Pereira, que produziu um dos filmes, a resposta arruma-se assim: “Ser macaense é conseguir ligar o que os nossos pais consideram ser macaense: nascer cá, ter uma certa religião que muitos de nós já não têm, ter uma série de tradições e participar activamente na comunidade. E ligar isso com o futuro de Macau, com o Macau dos casinos, o Macau do património, o Macau que recebe turistas e tem que saber falar bem inglês e mandarim”.

Para a arqueóloga de 29 anos, que reside em Macau, a sentença de extinção não se aplica à comunidade: “Acho que vai haver uma transformação na comunidade, no futuro talvez algumas Casas desapareçam. Mas vai haver continuidade e uma ligação, porque há pessoas que se ligam muito a Macau, apesar de não terem nascido cá, e isso é que é importante”, defende.

Para Cristina Clemente, de 21 anos, a identidade macaense traduz sobretudo esse cruzamento de referências que se reflecte inclusive no uso da língua: “Ser macaense não é só ter família macaense, mas também ter os costumes. Por exemplo, o Natal e o Ano Novo Chinês serem igualmente importantes, ter o casamento macaense. Numa frase nunca é possível ter só uma língua, é sempre uma mistura de várias línguas. Temos que saber preservar essa mistura, e continuar”, conclui.

 

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