“Our Seventeen”, de Emily Chan: “Um filme comercial, inteligente, com alma artística”

A realizadora de Macau, Emily Chan, vai estrear a sua segunda longa-metragem “Our Seventeen” na secção “Hidden Dragons”, dedicada a filmes que representam as últimas tendências do cinema asiático contemporâneo. O filme correspondeu a uma escolha inicial do ex-director Marco Müller para abrir oficialmente o 1º Festival Internacional de Cinema de Macau.

Emily Chan

Cláudia Aranda

“Our Seventeen” “é um filme comercial com alma artística”, é “um primeiro raio de esperança para o cinema ‘mainstream’ inteligente de Macau”, escreveu na sua apreciação geral o ex-director do 1º Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Prémios de Macau (IFFAM, na sigla inglesa), Marco Müller. O antigo programador chegou mesmo a seleccionar a obra de Emily Chan para filme de abertura oficial do festival, revelou a cineasta ao PONTOFINAL.

A proposta não vingou e é “Polina, danser as vie”, um filme francês de Angelin Preljocaj e Valérie Müller, com Juliette Binoche no elenco, que vai abrir o cartaz do evento. Conversando com o PONTO FINAL – nas apertadas instalações da produtora E.C. Film Production, no número 258 da Rua do Campo – a realizadora Emily Chan Nga Lei, de 28 anos, não se mostra incomodada com a decisão. Pelo contrário. A jovem realizadora revela-se sobretudo feliz por o seu filme poder ser mostrado no primeiro grande festival de cinema que é organizado no território, na secção “Hidden Dragons”, dedicada a jovens realizadores e a filmes que representam as últimas tendências do cinema asiático contemporâneo.

À jovem residente de Macau – para onde veio com cinco anos, proveniente de Fujian, na República Popular da China – não havia sequer ocorrido participar no festival de Macau, que julgou destinado a outro tipo de cinematografia. Apenas começou a convencer-se de que o seu trabalho poderia ser considerado interessante por uma audiência menos “mainstream” e com vasta experiência em cinema de todo o mundo quando, durante a montagem do filme, ainda em Agosto, Marco Müller a incentivou a participar no festival.

A realizadora conta que o ex-director do IFFAM, depois de ver “Our Seventeen”, quis visualizar toda a sua obra, as curtas, os documentários, a sua primeira longa-metragem e o primeiro sucesso de bilheteira de um filme de Macau: “Timing”.

“Macau afinal tem realizadores de cinema e aqui estão a fazer-se filmes, a Emily é o exemplo disso”, terá dito Müller, antes de se demitir do cargo em meados de Novembro. Na apreciação que fez do filme, o também antigo director dos festivais de Roterdão, Veneza e Locarno, afirma: “’Our Seventeen” apanhou-me de surpresa pela sua capacidade de entender a adolescência e a maioridade e pelo uso inteligente da comédia e do romance para falar sobre as diferenças entre a cidade de hoje e de épocas anteriores. Emily Chan já era uma realizadora bastante conhecida no circuito das produções de baixo orçamento e com este filme confirma a sua maturidade”.

 

Adolescentes e músicos com pressa de crescer

 

Emily Chan está agora bastante expectante em relação à avaliação que lhe vai ser feita pelo público do festival: “Em comparação com outras obras participantes, este meu filme é o que tem o orçamento mais baixo”, explica.

Antes de ser uma longa-metragem, “Our Seventeen” foi uma curta, com o mesmo título, estreada em 2014. Perante a boa reacção do público, a cineasta resolveu partir do mesmo argumento, acrescentar detalhes e dedicar mais dois anos a produzir uma longa metragem sobre um assunto que lhe interessa particularmente, a adolescência: “Queria fazer um filme sobre adolescentes, que é um tema bastante popular em Taiwan, no Continente, mas queria fazer algo nosso, de Macau”, explica.

E porque a realidade é sempre melhor do que a ficção, para a versão longa de “Our Seventeen”, Emily não precisou de ir longe para encontrar uma boa história. Bastou ouvir os relatos de infância do próprio companheiro, o artista plástico e músico vocalista da banda local “Blademark”, Fortes Pakeong Sequeira. O personagem principal Winson – que herdou o nome próprio de Pakeong – é representado na tela por Sean Pang Veng Sam, um cantor de Macau, que encarna um jovem revoltado, mas com talento para a música, que viveu uma meninice pouco convencional, tal como Pakeong.

De Pequim, onde vive, Winson regressa a Macau, já com 34 anos, e encontra o amigo da adolescência, com quem revive a juventude, Peter – representado por King Wu, também ele músico e elemento da popular banda de Hong Kong, C-all Star. Para contracenar com o protagonista Winson, a cineasta contratou uma estrela de Hong Kong, Angela Yuen, que faz o papel da “bad girl” ou “menina má”, de nome “Chantelle”, que não se conforma com o padrão de comportamento que a sociedade espera dela.

“Our Seventeen” é uma “história de memórias de juventude” vivida em “flashback” pelos protagonistas que revivem a adolescência, altura em que criaram uma banda de música rock: “Quando tínhamos 17 anos pensávamos que já éramos adultos e podíamos tomar as nossas decisões sobre muitas coisas, estávamos ansiosos por crescer mas, ao mesmo tempo, aterrorizados por entrar na vida adulta”, diz.

A banda sonora é da autoria do grupo Blademark, que com a sua música “injectam a vitalidade e a alma do rock” na narrativa fílmica, lê-se na sinopse.

Do elenco principal do filme fazem ainda parte Kyle Li, um actor da nova geração de Hong Kong. De Macau, além do protagonista Sean Pang, entram a cantora e actriz Mary Ma e a veterana Kate Leong.

 

Emily Chan
Fotografia: Eduardo Martins; 

Sem filmes comerciais não há indústria

A opção por actores de Hong Kong resulta da dificuldade em “encontrar em Macau jovens profissionais com experiência de representação”.  Por outro lado, foi uma decisão consciente, tomada por motivos comerciais. “Em Macau não temos uma audiência muito grande e os actores de Hong Kong vão atrair mais público”, explica a realizadora.

Alguns dos actores podem vir da região vizinha, mas o cunho artístico, a estética e a narrativa  que a realizadora imprime à sua cinematografia é definitivamente “made in Macau”, frisa Emily Chan. A realizadora distingue o seu filme, que tem como marca “o espírito de Macau”, dizendo que, na China, “este tipo de filme, com jovens em idade de liceu, têm que ter sempre guerras e lutas entre rivais, as relações de amor são muito intensas, há uma atmosfera pesada e agressiva”. Mas, em Macau, há menos dramatismo e os comportamentos são menos exuberantes: “Somos calmos, lentos, amamos, mas não de forma tão forte e obsessiva”. Em termos estéticos, Emily também faz questão de deixar a sua impressão digital: “Na China tudo é demasiado trabalhado e encenado, mas eu prefiro mostrar imagens mais cruas e puras, por exemplo”, explica.

O filme é assumidamente comercial e essa foi sempre a intenção da cineasta, que quer mostrar que é possível em Macau fazer filmes “mainstream”, atrair público e obter o retorno do investimento com as receitas de bilheteira, tal como aconteceu com a primeira longa-metragem, “Timing”.

O orçamento para esta produção, agora em estreia no IFFAM, é patrocinado exclusivamente por entidades privadas: 800 mil patacas foram concedidas por uma concessionária de jogo – a Melco Crown Entertainment, que inaugurou o ano passado o Studio City, inspirado no mundo do cinema -, enquanto que produtoras de cinema de Pequim investiram outros dois milhões de Yuan (2,3 milhões de patacas).

Emily Chan não tem dúvidas que fazer filmes artísticos é importante, mas acredita que a cinematografia de autor só poderá subsistir em Macau se houver uma produção de filmes comerciais que sustente essas opções menos “mainstream”: “Sem filmes comerciais nunca poderemos desenvolver uma indústria de cinema em Macau”, afirma.

Emily Chan espera com “Our Seventeen” repetir ou superar o sucesso da sua primeira-longa metragem e tornar-se um exemplo para a indústria local de “que é possível” fazer filmes em Macau: “Não podemos estar sempre à espera do apoio do Governo”, frisa. Depois da estreia em Macau, “Our Seventeen” vai estar em Hong Kong como filme de abertura do “Asian Youth Film Festival”.

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