“Um filme acaba por custar o dinheiro que se consegue obter”

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata são duas das presenças confirmadas no 1º Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de entrega de prémios de Macau (IFFAM). Os cineastas vêm procurar financiamento na secção “Crouching Tigers” e realizar pesquisa de campo para o projecto “San Ma Lo 270, Macau”. A dupla espera conseguir uma co-produção com Macau e orçamento suficiente que lhes permita “respirar”.

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Cláudia Aranda

“San Ma Lo 270, Macau” será o quarto filme tendo Macau como pano de fundo e assinado em duo pelos realizadores portuguese João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, depois das curtas-metragens “Alvorada Vermelha” (2011) e Iec Long (2015) e da longa-metragem “A última vez que vi Macau” (2012). O convite para regressar ao território foi a cereja no topo do bolo depois de um ano bastante positivo para a dupla de cineastas: João Pedro Rodrigues foi premiado na edição de 2016 do festival de Locarno com o prémio para Melhor Realizador com o filme “O Ornitólogo”. Em Dezembro os cineastas chegam a Macau, deixando para trás Paris, onde inauguraram em Novembro a retrospectiva “Où en êtes-vous, João Pedro Rodrigues?” (“Onde está você, João Pedro Rodrigues”), no Centro Pompidou (ver coluna).

 

– Para quando a estreia em Macau do filme “O Ornitólogo”?

João Pedro Rodrigues – Não está previsto ainda. A estreia asiática do filme foi no Festival Internacional de Cinema de Busan, na Coreia do Sul, [em Outubro], que é o maior festival de cinema asiático. Este filme foi realizado só por mim, o João Rui foi argumentista e director artístico. Recentemente estivemos em Japão, no Festival Internacional de Cinema de Tóquio.

João Rui Guerra da Mata – É essa estreia asiática em Busan que impediu a exibição do filme no Festival Internacional de Cinema de Macau. Porque o festival de Macau exige estreias asiáticas. Em relação ao “O Ornitólogo”, em Macau não está previsto nada mas, no fundo estas coisas têm de partir um pouco de convites que são feitos.

– Por quê fazer a estreia asiática em Busan?

JPR – Foi uma decisão tomada em conjunto com o promotor internacional do filme, que está na Alemanha e que se chama Films Boutique. Eles acham importante para o filme ser visto no festival, que é o mais importante da Ásia. Isto sem querer tirar importância ao festival de Macau. Mas, o Festival de Busan é um certame que está estabelecido há muitos anos e o festival de Macau conhece este ano a sua  primeira edição.

JRGM – Quando o João Pedro diz que é o maior festival asiático, o que acontece em Busan é que o mercado é grande. Em termos de possibilidades de compra do filme por parte de distribuidoras de vários países, não só asiáticos, Busan é realmente o festival asiático que tem o maior mercado. Por isso, o “sales agent” – Films Boutique – estava interessado em exibir a obra nesse grande festival com um grande mercado. Por outro lado, há também uma relação que se estabeleceu entre nós, a organização e os programadores do festival. Ao longo dos últimos anos houve imensas polémicas porque as autoridades municipais não concordam com as linhas editoriais do festival e queria ser a própria câmara municipal de Busan a criar um grupo para escolher os filmes. Busan tem essa vertente muito direcionada para o mercado, mas é, também, o maior festival na Ásia a divulgar a “art house cinema“. Tem uma vertente muito “red carpet” – cheia de estrelas, mais comercial –  mas também tem um grande empenho em mostrar cinematografias não-normativas ou menos “mainstream”, digamos sim. E nós criámos esta relação, gostam do nosso trabalho e nós gostamos de apoiar festivais que nos apoiam. Achámos que era fundamental, este ano, estarmos em Busan a apoiar os programadores e a direcção do festival que sempre nos deu o seu apoio. [A polémica estalou há dois anos, quando foi exibido um documentário sobre o naufrágio do ferry Sewol, ocorrido em 2014, em que morreram centenas de pessoas. No filme, os autores culpam as autoridades. O presidente do município de Busan, na altura, proibiu a projecção do documentário, sendo que este foi projectado na mesma, e a câmara municipal ameaçou deixar de financiar o festival].

JPR – Os políticos de Busan quiseram destituir o director do festival, nós quisemos ser solidários com as pessoas com quem temos uma relação pessoal, mas também achámos que, politicamente, era importante estar presente.

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– Ainda sobre “O Ornitólogo”, há duas personagens curiosas … Duas peregrinas chinesas que se perdem à procura do Caminho de Santiago, no norte de Portugal. Como é que surgiu a ideia de introduzir este elemento asiático na narrativa?

JPR – Gosto que os filmes comuniquem uns com os outros, elas vêm daquilo que eu e o João Rui gostamos de chamar “os nosso filmes asiáticos”. Escrevi uma primeira versão do argumento com o João Rui e depois fiz o Caminho de Santiago. Gosto sempre de ter uma âncora no real, porque o filme vai muito na direcção da fantasia. E, quando fiz o Caminho de Santiago, encontrei chineses, coreanos, talvez mais coreanos, porque a religião católica está mais presente na Coreia do que na China. Para mim era importante perceber se havia chineses a fazerem o Caminho de Santiago. A ideia era que estas duas personagens viessem dos outros filmes. Evidentemente que são diferentes, são personagens de ficção, que aparentemente são inocentes e que não o são, mas isso faz parte da construção da história.

JRGM – É o reflexo da nossa paixão pela Ásia e foi uma maneira de num filme que se passa em Portugal introduzir elementos asiáticos. A Ásia está presente, também, através da máscara do “Tengu” – vermelha com nariz pontiagudo –  que é uma figura mitológica japonesa, uma espécie de demónio que assombra a floresta. Na China existe o mesmo elemento mitológico. Para nós, que tínhamos que construir uma narrativa, como o João Pedro disse, foi fundamental agarrarmo-nos a situações reais que nós conhecemos – e vivenciámos – para podermos passar dessa realidade para a ficção. A ficção para nós tem muito mais interesse quando está ancorada na realidade. A ficção per si, inventada, não nos interessa muito. Normalmente partimos de algo real e, a seguir, metamorfoseamos essa realidade e adaptamos ao lado ficcional que queremos desenvolver. A presença das chinesas, no fundo é uma homenagem à Ásia, que é uma coisa que tanto nos interessa.

– Em que ponto está o projecto “San Ma Lo 270, Macau”?

JRGM – Fomos convidados por Marco Müller [ex-director do IFFAM] e pela Marie-Pierre Duhamel [consultora internacional que fez parte da equipa de selecção dos filmes participantes no festival]. Eles estiveram em Portugal, nós conhecemos o Marco e a Marie-Pierre há muitos anos, e ele perguntou-nos se tínhamos algum projecto que pudesse ser interessante para o festival de Macau e nós falámos desta ideia e deste argumento que ainda está a ser alinhavado. O Marco achou interessante e convidou-nos para ir ao “Crouching Tigers” para apresentarmos o projecto e fazermos um “pitching”. O objectivo é esse: angariar potenciais interessados para o projecto.

JPR – O projecto ainda está numa fase muito incipiente. Um dos nossos objectivos agora em Macau, depois do festival, é ficar até Janeiro para fazermos pesquisa para este projecto, que está ainda muito no início. É um projecto que tem a ver com a história de Macau e com a Avenida Almeida Ribeiro, uma avenida que sendo a artéria principal da cidade é também testemunha de muitos acontecimentos.

JRGM – Nós já temos uma ideia, um argumento não muito desenvolvido, porque ainda carece de muito trabalho de investigação que só pode ser feita em Macau: queremos ler jornais, investigar um bocado mais e será muito mais fácil fazê-lo em Macau. Este é, indiscutivelmente, um filme de ficção. Será mais uma vez um filme de género, como todos os filmes que temos feito.

JPR – São filmes de género mas de uma forma menos convencional. Geralmente os meus e os nossos filmes misturam-se ou referenciam-se em vários géneros para tornar-se um tipo de género pessoal.

JRGM – Continua a ser um cinema pessoal, de autor, mas mesmo sendo um cinema de autor interessa-nos os géneros de cinema. Sim, vamos baseando-nos na realidade, daí ser tão importante a investigação, percebermos toda uma série de coisas que aconteceram ao longo da história, nomeadamente de períodos que são para nós muito interessantes e que não estão tão desenvolvidos: o período da guerra do Pacífico, da Segunda Guerra Mundial, quando o Ian Fleming esteve em Macau, os espiões.

 

– É um filme de época?

JPR – É um filme de várias épocas. É um filme que se passará agora, mas que atravessará vários tempos. Ainda estamos à procura da forma do filme.

JRGM – (…) É um tipo de filme diferente daquele que o João Pedro faz sozinho. Os filmes do João obedecem a um argumento escrito que é pensado em pormenor. Macau e os nossos filmes asiáticos permitem-nos uma liberdade de experimentação muito maior. Macau, em particular, está-nos sempre a surpreender: parece que em todas as ruas, ruelas, avenidas há sempre histórias que são interessantes de desenvolver, coisas que nós vemos e nos apetece contar. (…) Esta será uma rodagem mais convencional, com uma equipa técnica, artística, com actores, asiáticos, não asiáticos, a ideia é experimentar. Mesmo assim, queremos que seja também mais convencional em termos dos padrões de como se faz um filme. Esperamos poder contar com uma co-podução em Macau e é por isso que vamos ao festival de Macau para angariar esses potenciais interessados e financiadores, porque os filmes só se fazem com dinheiro.

– Têm experiência de fazer este tipo de aproximação à indústria e aos patrocinadores em ambiente de festival?

JPR – Não temos muita experiência, mas o próprio festival proporciona-nos uma série de encontros e de reuniões. Estamos nesse processo de identificar as pessoas que queremos conhecer. O festival deu-nos uma lista. E uma das vantagens de participar no festival será esta, as coisas são organizadas por pessoas com muito mais experiência do que nós a este nível de “pitching” e de contactos. Estou habituado a falar com muitas pessoas em ambiente de festival, mas do ponto de vista artístico, com realizadores, críticos. Mas espero que seja uma experiência que traga frutos.

JRGM – Vamos analisar a lista e ver o que poderá ter mais interesse para nós, em seguida iremos usar estes contactos que o festival proporciona e tentar aliciar potenciais financiadores para o nosso projecto. Quero acreditar que as pessoas que o festival escolheu para estes encontros são pessoas interessantes e potencialmente interessadas. Claro que haverá muita gente que irá procurar filmes mais “mainstream” e mais comerciais e haverá pessoas interessadas em projectos menos convencionais.

– Quanto é que pode custar rodar um filme na Ásia?

JPR – Tivemos que apresentar uma estimativa do orçamento, mas como o filme ainda está numa faze embrionária é difícil prever um valor global.

JRGM – Um filme pode custar muito dinheiro ou pode custar menos. Um filme acaba por custar o dinheiro que se consegue obter. Claro que com mais dinheiro podemos fazer outro tipo de coisas, temos outro tipo de condições. Se calhar podemos contratar actores mais conhecidos, poderemos dispor de uma equipa maior, ter mais tempo de rodagem, mais material técnico. Obviamente que ter mais dinheiro é sempre melhor até porque nos deixa respirar.

JPR – Mas se pensarmos em relação ao tempo de rodagem, uma das soluções que encontrámos quando filmámos “A Última vez que vi Macau” –  que é um filme feito com pouco dinheiro – foi reduzir a equipa ao mínimo, fazermos nós próprios muitas coisas para podermos estar em Macau, o que para nós era fundamental. As coisas são todas adaptáveis. Neste filme, logo se verá o que conseguimos. Em Portugal, o valor do subsídio concedido pelo Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA) para as longa-metragens é de mais ou menos 600 mil euros, este é o financiamento básico de uma longa-metragem.

– A página online da Wikipedia indica que o filme “O Ornitólogo” custou 700 mil euros…

JPR – Custou mais, o orçamento de “O Ornitólogo” foi de 1.250.000 euros (10,5 milhões de patacas), que é um orçamento baixo para padrões europeus e mundiais.

JRGM – A maior parte das pessoas não compreende a atribuição de subsídios pelo Governo para o cinema porque é muito dinheiro, mas é muito dinheiro porque o cinema é muito caro e envolve uma grande equipa. Mas, não é o orçamento que faz um filme melhor ou pior. Por exemplo, “A Última vez que vi Macau” foi realmente feito com um orçamento muito baixo e com as condições que nós decidimos em que iriamos trabalhar para podermos estar muito tempo em Macau, a recolher imagens, a trabalhar no argumento. Mesmo com um orçamento baixo, o filme teve um percurso internacional muito, muito interessante. Repito, com mais dinheiro, criam-se mais condições, com menos dinheiro temos que adaptar. O envolvimento que temos em termos criativos acaba por se adaptar ao dinheiro que temos. Claro que gostaríamos de, um dia, trabalhar com um orçamento que nos deixe respirar um pouco melhor, acredito que um dia isso acontecerá.

– É importante haver mais festivais de cinema?

JRGM – Os festivais servem para mostrar cinematografias. Um bom festival de cinema serve para mostrar filmes que de outra maneira as pessoas teriam dificuldade de ver. Esta iniciativa, este novo festival, gostaria que tivesse essa pujança, até porque existe dinheiro em Macau e quando há dinheiro as coisas tornam-se mais fáceis. Gostava sinceramente que o festival de Macau se conseguisse impor no circuito internacional de festivais.

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