Novo romance de Shee Va acerca-se do oculto, para questionar os desígnios da vida

A Fundação Rui Cunha acolhe esta quarta-feira, às 18h30, o lançamento do novo romance de Shee Va. “Espíritos”, que será apresentado pela historiadora Beatriz Basto da Silva, traduz uma incursão do autor na dimensão das crenças e ritos da comunidade chinesa de Macau. Os residentes do território encontram nos antepassados uma possibilidade de condução do curso da vida, sobretudo quando a tormenta se instala.

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Sílvia Gonçalves

Superstições e crenças materializadas em ritos conduzidos por mestres que procuram estreitar o contacto com uma dimensão de espectros. Exercícios que traduzem a fé naqueles que nos precederam e em antepassados que conduzem os destinos da vida terrena. Shee Va carrega da infância passada em Moçambique um rol de histórias que lhe eram sopradas por amigos vindos de Macau. Contos sombrios que instalavam o pavor no menino, então com 7 ou 8 anos. Chegado a Macau, o médico deita mãos às crenças profundas que atravessam a espiritualidade da comunidade chinesa. Do contínuo trabalho de pesquisa resulta um romance –  “Espíritos”- editado pela Livros do Oriente, que será apresentado amanhã na Fundação Rui Cunha.

“Este é realmente um romance. Simplesmente segue o mesmo objectivo do meu primeiro livro [“Uma Ponte para a China”], que é a divulgação da cultura chinesa. A China está a abrir-se para o mundo, ou o mundo está a abrir-se para a China, e é preciso conhecer os chineses. No primeiro eu falo muito de usos e costumes. Neste, apesar de serem superstições da cultura chinesa, não deixa de ser uma cultura, e portanto é esta divulgação da cultura que eu pretendo com os meus livros”, refere Shee Va.

No centro do romance está um casal católico – ele macaense, ela chinesa -, a quem um filho foi levado, cinco anos antes, por uma doença hereditária: “E então eles vivem com este fantasma da hereditariedade e o aconselhamento médico era que eles não tivessem mais filhos. Só que eles resolvem ter um filho cinco anos depois, para constituir a sua vida e não viver sob o espectro do filho perdido”, desvenda o autor.

Uma revelação vem adensar o enredo: “Ela conta ao marido um segredo que guardou durante cinco anos, porque na altura em que o filho morre no hospital, ela sente um espectro e ouve da boca do filho que é a bisavó. Com isso ela resolve ir consultar um médium para saber quem é essa bisavó. A história depois gira à volta disso, em que eles vão à procura de soluções e vão encontrando pessoas com superstições, com fantasmas, até poderem resolver o problema”, explica o autor.

O médico – nascido em Moçambique e filho de pais chineses – recua à infância para identificar o primeiro contacto com o mundo do oculto e da espiritualidade: “Quando eu era miúdo, tinha uns 7 ou 8 anos, chegaram a Moçambique um rapaz e uma rapariga, filhos de umas pessoas aqui de Macau. Contavam-me histórias fantasmagóricas de Macau, de espíritos que moravam aqui e ali. Passei a vida quase apavorado com esses espíritos e fantasmas”.

A posterior vivência em Macau dá continuidade às narrativas que lhe inquietaram a infância: “Quando chego a Macau, ouço histórias muito idênticas. Então resolvo escrever um romance com alguma coisa médica, porque existe aqui uma doença hereditária e uma procura de conhecer o além”, conta o gastroenterologista.

E com que realidade se confrontou o autor no decurso da pesquisa desenvolvida no território? “Em Macau e na população chinesa a crença existe. Há pessoas que procuram médiuns, que são os mestres do oculto, que tentam deslindar problemas. Existe uma convicção de que a nossa vida é guiada também pelos nossos antepassados e por isso é que existe a crença nos espíritos e nas pessoas que morrem. Porque na filosofia chinesa todos os nossos entes queridos que faleceram são anjos, e portanto no sítio onde estão ajudam-nos”, explica.

Na vertente quase antropológica da narrativa, cruzam-se personagens que buscam no transcendente um fio condutor para as circunstâncias e agruras que os atingem. De que modo se aproxima o homem de ciência da dimensão de fé e espiritualidade? “À medida que vou envelhecendo vou regressando às raízes. Isto é, a minha educação é ocidental e portanto posso dizer que eu não acredito. Mas à medida que a gente vai avançando, isto também é um bocado a pesquisa que a pessoa faz, porque questiona o que existe para além da vida. Talvez a escrita deste romance também tenha sido conduzida por esta pesquisa”, assume.

Com “Espíritos”, o autor pretende, afinal, tactear uma possibilidade: “Dizer que sim, que a nossa passagem por aqui não é em vão, e que haverá alguma coisa para além da morte”, resume.

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