IFFA: Gurgaon, o espelho da Índia

Marco Müller não vai acompanhar a edição inaugural do Festival Internacional de Cinema de Macau, mas a marca do programador italiano está por todo o lado no programa do certame. “Gurgaon”, o primeiro filme de Shanker Raman enquanto realizador, é uma aposta pessoal de Müller para o Festival.

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Era uma história que há muito esperava para ser contada. De uma pequena aldeia sonolenta a uma indómita e impessoal selva de betão, a expansão de Gurgaon é um espelho das enormes mudanças sócio-económicas que tomaram a Índia de assalto ao longo dos últimos vinte anos. Ofuscante para uns e sombria para outros, Gurgaon é em mais do que uma acepção uma metáfora da Índia moderna e é a expansão avassaladora daquele que é o quarto maior subúrbio de Deli que dá o mote à estreia como realizador de Shanker Raman, um dos mais bem-sucedidos directores de fotografia do cinema indiano. O filme, que tem a sua estreia mundial no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Macau, captura a ideia de sucesso e de apropriação de que a cidade se tornou sinónimo.

Há um ano, em Goa, “Gurgaon” conquistou o Prémio DI Prasad, no âmbito do Film Bazaar, para o Melhor Filme ainda em desenvolvimento e as potencialidades da longa-metragem de estreia de Shanker Raman chamaram a atenção de Marco Müller.

O antigo programador da primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Macau deixou-se cativar pelas contradições de Gurgaon, num processo que Shanker Raman diz entender muito bem: “Gurgaon é como que o símbolo de todos os lugares que não funcionam ou que pelo menos não funcionam como deviam funcionar”, explicou Raman em declarações ao diário The Hindi. “Eu vi Gurgaon crescer. A princípio o  meu interesse era o de produzir uma história sobre o mercado imobiliário, sobre um certo conceito de patriarcado, sobre pessoas que vivem de acordo com as suas próprias regras e sobre o impacto que este tipo de circunstâncias tem na vida dos outros”, sublinha o realizador.

Licenciado em física pela Universidaade de St. Stephen’s, Raman clarifica, no entanto, que em “Gurgaon” procura olhar para a sociedade indiana pelos olhos de um estrangeiro, ainda que o tenha tentado fazer sem ser necessariamente demasiado crítico ou demasiado paternalista sobre as personagens que retrata: “Quando me propus contar a história destas pessoas, sabia que tinha necessariamente de me despojar do meu sentido de pertença. Tenho um grande respeito por todos os meus personagens”, explica.

Concebido com a dinâmica clássica de um “film noir”, “Gurgaon” conta a história de uma um lavrador a quem dizem que a sua sorte mudará se ele adoptar uma menina: “Até então este personagem estava convicto que apenas os rapazes traziam sorte. O lavrador adopta uma rapariga e acaba por se tornar um magnata da indústria imobiliária. O problema é que ele não consegue perceber se a sua ascensão se ficou a dever à menina ou aos assassinatos e extorsões que ele cometeu. Para ele, ela é um talismã. É ela que gere os negócios em seu nome, mas com o desenvolvimento da narrativa o seu filho começa a sentir-se rejeitado”, explica o realizador.

Shanker Raman propôs-se inverter uma narrativa omnipresente na Índia com o objectivo de perceber qual poderia ser a reacção do público: “A forma como o filho lida com a situação acaba por conformar aquilo que Gurgaon representa para mim. Quando nos confrontamos com dificuldades, acabamos por questionar os comportamentos morais e os alicerces da nossa sociedade. Se os alicerces são fracos, o edifício corre o risco de ruir. Com a família não é diferente.  Queria criar uma experiência gutural e visceral dirigida aos espectadores com o propósito de ilustrar as razões pelas quais nós nos comportamos como comportamos”, explica Raman.

O realizador, que se notabilizou como o responsável pela fotografia em produções como “Frozen” e “Harud”, encarregou Vivek Shah, um amigo de longa data, da cinematografia de “Gurgaon”: “O filme tem uma temática “noir” mas não trai de todo a ideia de realismo que eu quero transmitir com o filme. A realidade acaba por ir ao encontro do espectador, quase como se se tratasse de uma experiência. O filme não é de todo um filme de nicho. É uma produção completamente acessível, conduzida menos pelo guião do que pelo carácter forte das personagens”, esclarece Shanker Raman.

Ragini Khanna, uma figura bem conhecida da televisão indiana, dá corpo à rapariga- talismã, que acaba por se tornar uma arquitecta bem sucedida e a partir de determinada altura procura investir em projectos de conservação, uma posição nos antípodas da do pai adoptivo, para quem o que interessa é continuar a construir: “As posições dissonantes criam um conflito, mas o maior diferendo é o que a presença da rapariga cria entre pai e filho”, explica Raman.

Akshay Oberoi desempenha o papel de irmão e a Pankaj Tripathy cabe o difícil papel de dar voz a um pai com uma presença esmagadora ao longo de toda a narrativa, numa produção em que a história até nem é o que mais conta: “Mais do que a história, a atenção de muitos realizadores recai sobre a forma como a história é contada. A melhor parte é que as audiências estão a responder muito bem a estas novas formas de contar as histórias”, remata o realizador.

 

 

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