“O Islão tem um sério problema de relações públicas”

 

No lar nova-iorquino onde James Frankel cresceu, Deus ficava à porta. O académico da Universidade Chinesa de Hong Kong, especialista em estudos religiosos, diz que a ausência de sagrado nos seus anos de formação o levou a procurar entender o divino pelos seus próprios meios. Aos 19 anos, muito antes do Islão estar na ordem do dia, deixou-se convencer pelos ensinamentos do Corão e converteu-se ao islamismo e foi sobre o Islão que falou na sexta-feira na Livraria Portuguesa no âmbito da primeira iniciativa do ciclo de debates “O Sagrado e o Profano”, promovida pelo Fórum Luso-Asiático.

 

img_5121

Marco Carvalho 

PONTO FINAL: China e Islão. Não são muitos os que relacionam ambas as realidades, ainda que existam pelo menos entre 28 e 30 milhões de muçulmanos na China. A verdade é que o Islão está presente na China através de comunidades que não são apenas numerosas, mas também  muito variadas: os mais significativos são os muçulmanos de etnia hui e uígur, mas também há chineses da etnia han que abraçaram o Islão. Porque o Islão na China? Porque razão sentiu a necessidade de estudar esta temática em concreto?

James Frankel:  Desde há 25 anos que estudo esta questão do Islão na China. Deparei-me com esta realidade pela primeira vez quando entrei para a Universidade. Na altura estudava a ligação entre a religião e a cultura chinesa. Sempre tive um grande interesse pela religião e a determinada altura descobri que havia muçulmanos na China. A princípio fiquei muito surpreendido. Já sabia da existência dos uígures, em Xinjiang, na parte mais Ocidental da China, mas descobrir que também existiam muçulmanos que eram etnicamente chineses foi para mim uma surpresa. Creio que também o é para muita e boa gente. Compreendi depois o quão ampla e extensa é a sua história: há muçulmanos na China quase desde que há Islão. Percebi ainda que, para além de longa, essa história é também importante porque tem a si inerentes práticas de contacto entre duas extremidades muito diferentes da Ásia, a Ásia Ocidental e a Ásia Oriental.

Na China subsistem também duas tradições muito diferentes no que toca à fé islâmica. Quando falamos das diferentes comunidades islâmicas radicadas na China, estamos a falar de comunidades muito distintas: algumas são etnicamente chinesas e passaram por um processo evidente de sinicização na medida em que estão mais ou menos alinhadas com a tradição confuciana. Por outro lado, à medida que caminhamos para a China periférica, para o Ocidente, deparámo-nos com uma tradição vincadamente centro-asiática. No entanto, quando falamos dos hui e dos han que professam a fé islâmica falamos de chineses que são uma síntese e um testemunho vivo de duas correntes teístas e filosóficas que nem sempre são compatíveis. Quão harmoniosa é esta síntese?

J.F: Não é uma síntese monolítica, chamemos-lhe assim. Há variações e diferenças mesmo entre as comunidades muçulmanas de etnia hui e de etnia han. Não podemos aplicar uma e a mesma coisa sobre todas elas. Antes de mais, porque estão distribuídas um pouco por todo o país. Há muçulmanos em todas as províncias da China e estou a falar de muçulmanos que têm o chinês como língua materna. É claro que em regiões como o noroeste a concentração de seguidores do Islão é maior, mas mesmo lá encontramos uma grande diversidade. Os muçulmanos vieram para a China em vagas, num processo que teve início no século VII ou no século VIII e que teve continuidade ao longo dos séculos que se seguiram. Essa síntese de que fala é um processo em contínua construção. Não se tratou de algo que aconteceu em determinado ponto da história. É algo que ainda está a acontecer. À medida que a China vai mudando, as comunidades muçulmanas chinesas também mudam. É uma síntese harmoniosa? Bem, quanto mais perto estiver do centro da cultura chinesa – e por isto refiro-me à parte oriental e central da China – mais completa e aperfeiçoada está essa síntese, digamos assim. Os han e os hui são em grande parte indistinguíveis e esta semelhança persiste não só em termos físicos, mas também em termos culturais, a não ser que alguém seja extremamente religioso e se vista a preceito para demonstrar o alcance da sua fé. Se não for isso, é praticamente impossível estabelecer a diferenciação entre as duas comunidades, os han e os hui. Nas regiões mais ocidentais da China é possível encontrar diferenças mesmo entre os hui: há pessoas que são sufis, outros que seguem uma dimensão mais tradicional e mais ortodoxa – de certa forma, sunita – do Islão e agora vemos também uma vaga crescente de muçulmanos chineses que se identificam com o salafismo e respondem positivamente à influência wahabita, vindo do Médio Oriente e da Arábia Saudita. Este é um fenómeno do seculo XXI que ainda está a ganhar forma. Algumas destas comunidades são mais compatíveis como o que podemos considerar a cultura chinesa padrão e outras distanciaram-se, de certa forma, desta cultura padrão. A única coisa que podemos afirmar com absoluta certeza é que a população muçulmana chinesa é muito diversa e muito heterogénea…

ab-final-villagemosque-copy

Heterogénea mesmo em termos de aceitação política. Há diferenças assinaláveis na forma como as autoridades chinesas – não apenas as comunistas, mas as autoridades de um modo geral – lidaram e lidam com diferentes comunidades. Os uígures sempre foram, de certo modo, problemáticos. Apesar de estarem sujeitos a grande repressão, os uígures continuam a ser um problema para Pequim?

J.F: Absolutamente. Continuam a ser um problema. A questão uígur, o problema de Xinjiang, é uma das questões que a China ainda tem que resolver e até que seja resolvido vai continuar a ser um óbice também no que toca às relações que a China mantém com o mundo muçulmano. Como tive oportunidade de referir, os hui estão muito mais integrados e assimilados no que podemos definir como a cultura chinesa. Os uígures, no entanto, não se vêm a si mesmos como chineses e têm, de facto, uma história longa e independente do que é a história do povo chinês, mas o tratamento do lslão varia não só de lugar para lugar, mas também de época para época. Habitualmente, a China – e seja a China imperial ou, agora, a China comunista – elege como prioridade mais importante a estabilidade nacional e a integridade do território chinês. O facto de existir uma população muçulmana que vive na parte mais ocidental do país e que não se vê a si mesma como chinesa e como parte de uma mesma unidade nacional e de um destino nacional partilhado, constitui um problema de peso para a China. É um problema similar ao que Pequim enfrenta com os tibetanos, com os mongóis e com várias outras etnias que gozaram, durante décadas e séculos, de uma grande autonomia cultural e que estão agora incorporadas na República Popular da China. Nesta perspectiva, os uígures continuam a ser um problema.

O mesmo tipo de soluções, os mesmos princípios de integração que ajudaram a integrar os hui e os han no seio da cultura e da sociedade chinesas dificilmente se aplicariam aos uígures, uma vez que enquanto povo eles são étnica e linguisticamente diferentes. Houve, ainda assim, académicos muçulmanos na China que procuraram harmonizar as tradições islâmicas e a filosofia confuciana. Um dos frutos mais conhecidos deste esforço é o chamado “Han Kitab”…

J.F: Sim …

Que impacto tiveram os últimos setenta anos de China comunista nesta tendência de harmonização de ambas as tradições. Com a abertura da China ao mundo temos vindo a assistir a um ressurgimento da importância da filosofia confuciana. O mesmo está a acontecer com o Islão? Estamos a assistir a um ressurgimento de um certo legado chinês do Islão?

J.F: Sim. Referia-se há pouco ao “Han Kitab” e estes textos estão de novo a ser estudados por muçulmanos chineses, mas também por académicos internacionais e chineses. Refiro-me a académicos não-muçulmanos. Há muita gente a olhar para o “Han KItab” como uma grande conquista em termos de harmonização e de tradução cultural. Este foi um processo que ajudou a integrar os muçulmanos etnicamente chineses. Ainda assim, a esperança de que este método de harmonização se possa espalhar a outras minorias étnicas muçulmanas na China é muito pouco realística, dadas as diferenças culturais e linguísticas. A grande questão aqui é que depois de séculos de casamentos interétnicos, as pessoas que acabariam por se tornar nos hui – os antepassados dos hui – eram, numa mesma medida, chineses e muçulmanos. O processo de assimilação para eles não foi, de todo, um processo de assimilação artificial. Eles eram ao mesmo tempo chineses e muçulmanos e não tiveram de fingir, de emular ou de imitar: eles são o resultado de uma herança dupla e dual. Foi, no meu entender, um processo bastante natural e foi natural porque foi algo que foi ocorrendo ao longo do tempo. Estamos a falar de mil anos. A viver há um milénio na China os muçulmanos tinham necessariamente de se tornar chineses. Pedia-me um ponto de situação sobre a realidade dos muçulmanos na República Popular da China … Uma vez mais, creio que para o Governo a questão mais importante passa por assegurar uma certa estabilidade. Se os muçulmanos se deixarem integrar e se fizerem participantes activos na promoção do projecto socialista do Governo chinês, são brindados pelo Governo com um nível  considerável de tolerância que lhes permite que pratiquem a sua religião sem grandes constrangimentos. Esta predisposição tem sido um dado assegurado desde que a China se começou a abrir economicamente, ou seja, ao longo dos últimos 30 anos. Creio que há um ressurgimento em progressão. A China abriu-se ao mundo, é um actor activo no seio da comunidade internacional e aos muçulmanos é-lhes permitido que tenham contacto  com outros muçulmanos fora da China, o que não era o caso durante as dinastias Ming e Qing, quando o “Han Kitab”, os documentos que compõem o “Han Kitab” começaram a ser escritos. Essa é, de resto, a razão pela qual os livros foram escritos, uma vez que os muçulmanos na China tinham perdido a capacidade para ler alguns dos textos centrais do Islão e estes tiveram de ser traduzidos para chinês. Aquilo a que estamos a assistir actualmente é a outro tipo de harmonização, dos muçulmanos chineses com os seus irmãos e irmãs fora da China.

Vemos, ainda assim, dois pesos e duas medidas na forma como o Governo de Pequim lida com as diferentes comunidades muçulmanas: de um lado temos os hui, que são uma espécie de bons alunos à luz da retórica comunista e, por outro lado, temos os uígures, que são de um modo muito frontal demonizados e perseguidos pelas autoridades chinesas. A China parece ter-se aproveitado desta guerra global contra o terrorismo e do discurso prevalecente para reprimir e perseguir os uígures. Como olha para o futuro dos hui e dos uígures? Como olha para o futuro do Islão na China, num mundo que está cada vez mais dividido?

J.F: Como lhe dizia, por um lado, os hui estão firmemente enraizados na China. Para todo e qualquer efeito, eles são chineses. Ainda assim, e dada a abertura da China e a globalização de certas ideias com origem no mundo islâmico, é possível que possamos ver tensões no seio dos próprios hui. Há pessoas entre os hui que querem expressar o que entendem ser uma identidade islâmica mais independente.

Uma identidade mais ortodoxa também?

J.F: Podemos dizer que sim. Eu tenho sempre algumas reservas em relação à utilização da palavra “ortodoxo”, porque a ortodoxia de uns é a heresia de outros. Ainda assim, parece-me que houve quem tenha procurado o impulso para este ressurgimento no Médio Oriente e em outras partes do mundo islâmico e adoptaram alguns conceitos e estão a tentar trazê-los para a China. Nestes casos, aquilo a que estamos a assistir é a uma mais que provável incompatibilidade entre esta versão particular do Islão e a autoridade do Estado chinês. Isto é algo que poderemos ver no futuro com maior frequência. Por outro lado, a questão uígur é complexa: devo ressalvar que há muitos pontos de vista diferentes entre os uígures. Há quem esteja comprometido com a ideia de uma nação uígur no seio da China e há outros que lutam pela independência da região e entre os que lutam pela independência alguns são muçulmanos seculares e outros são religiosos. É uma situação muito dinâmica, povoada por muitas variáveis. Não é fácil prever o futuro. Não sabemos que tipo de liderança irá emergir entre os uígures e se será capaz de promover os interesses particulares daquela comunidade. A República Popular da China não está disponível para abrir mão do controlo que exerce sobre Xinjiang. Isso nunca irá acontecer. Uma eventual solução terá que surgir necessariamente de algum tipo de concórdia entre as autoridades chinesas, o Estado chinês e uma eventual liderança uígur. Quem irá assumir esta liderança, ainda não sabemos. Presumivelmente terá de ser alguém compatível com a actual ordem chinesa que é secular.

Na China, na Ásia, mas também – e de um modo geral – um pouco por todo o mundo, os seguidores do Islão são, na sua grande maioria, muçulmanos moderados, mas há um risco real do Islão endurecer e tornar-se uma religião mais ortodoxa. Em parte, este endurecimento, real ou percebido, é uma resposta às circunstâncias que se apoderaram do mundo no pós-11 de Setembro, data em que tudo mudou para os muçulmanos dos quatro cantos do planeta …

J.F: Sim. Porque foi quando a China também tornou pública a decisão de participar na chamada guerra global contra o terror, visando os muçulmanos que fazem parte da sua própria população. A China não esteve envolvida na maior parte dos conflitos que ocorreram no Médio Oriente. Este braço-de-ferro opôs, em grande medida, entre o Ocidente e algumas emanações do Islão extremista. A China manteve-se sempre à margem, enquanto observador atento. Esta perspectiva só se alterou quando a adopção da retórica vigente, de que o combate ao terrorismo tornava necessário um esforço à escala global, passou a servir os interesses estratégicos nacionais de Pequim. Parece-me, no entanto, que este tipo de retórica está a aumentar na China, mesmo entre a população chinesa. Não se trata apenas de um fenómeno promovido pelo Estado. Quando olho para blogs e discussões na Internet apercebo-me de que são cada vez mais os chineses que adoptaram uma perspectiva islamófoba. Muitos desenvolveram sentimentos negativos para com o Islão e, em parte, tais posições não são mais do que um produto da influência desta retórica ocidental. O que era um problema do Ocidente tornou-se agora um desafio global. É claro que os muçulmanos também são responsáveis e têm, antes de mais, a responsabilidade de contrariar esta retórica. Os muçulmanos têm a sua quota parte de responsabilidade, mas as políticas desenvolvidas pelo Ocidente não foram inócuas. Se a China desenvolver políticas semelhantes para com os muçulmanos, vivam eles dentro das suas fronteiras ou em qualquer outro lugar do planeta, também será inevitavelmente atraída para este combate à escala global entre estas duas forças.

CHINA-RELIGION-ISLAM-RAMADAN

A Al-Qaeda, primeiro, e agora o Estado Islâmico não ajudam, ainda assim, a pintar uma boa fotografia do Islão?

J.F: É óbvio que não. O Islão tem um problema sério de relações públicas. Como sublinhava há pouco, a maior parte dos muçulmanos de todo o mundo – e são cerca de 1 500 milhões – são moderados. Os muçulmanos estão preocupados com o mesmo tipo de coisas que preocupam todos os restantes: estão preocupados em garantir melhores condições de vida, em tomar conta das suas famílias. Este é o tipo de preocupação com que se deparam a maior parte dos muçulmanos de todo o mundo. Há, no entanto, uma pequena minoria – uma minoria pequena, mas muito ruidosa – que sequestrou por completo o discurso que é hoje em dia associado ao Islão. Esta minoria encontrou aliados nos seus autoproclamados inimigos do mundo não-muçulmano. A retórica nacionalista que tem vindo a ganhar força no Ocidente e que retrata todos os muçulmanos como se estivessem engajados com a Al Qaeda ou o Estado Islâmico, no fundo – e apesar de se tratarem de ideologias inimigas – está a contribuir para um propósito comum, que é o de traçar uma linha entre a civilização ocidental e a civilização islâmica, fazendo uso do discurso do “choque de civilizações” de Samuel Huntington. Este discurso do “choque de civilizações” tornou-se uma profecia autorrealizável e há agentes de ambos os lados da barricada que são responsáveis por isso. Esta responsabilidade é partilhada tanto por Governos como por segmentos da população. Essa é, de resto, a razão pela qual eu faço o que faço: quero ajudar a criar um maior entendimento. Quando não se sabe quem é o outro, é muito fácil demonizá-lo e isto é algo que acontece com uma frequência desconcertante nos dias que correm. Temos de fazer tudo o que está ao nosso alcance para possibilitar o diálogo e um maior entendimento mútuo.

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s