Em cada regresso a casa, rejeita-se o rótulo de uma comunidade em extinção

A Escola Portuguesa de Macau foi este sábado palco de um Chá Gordo que juntou os participantes do Encontro das Comunidades Macaenses, quase todos oriundos das Casas de Macau na diáspora. Numa noite de reencontros, sobra a convicção de que o envelhecimento da comunidade será difícil de travar. O que não impede o contínuo regresso de quem ainda sente Macau como único lugar de pertença.

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Fotografia: Eduardo Martins;

Sílvia Gonçalves

 

De olhos postos nos néons do outro lado da estrada, Joy sorve o cigarro enquanto sacode o frio e desafia a chuva que lhe escorre pelo cabelo grisalho. O vestido fino e floral denuncia-lhe a chegada de um hemisfério nesta altura tocado pela estação quente. O olhar focado na multidão compacta procura a custo alcançar o horizonte outrora aberto sobre as águas, onde se avistava a casa grande do avô,  hoje coberto de torres, vidro e betão. “Isto é horrível, nada resta da velha Macau”, atira, num lamento soprado onde já só parece caber desilusão. É a terceira vez que Joy Leitão se arrasta de Sidney para Macau, para o encontro de todos os macaenses, motivada pelo reencontro com a amiga Ângela, residente no Canadá, uma amizade em que a vida tratou de encaixar o mundo pelo meio. Num fio de voz, Joy evidencia a estranheza perante o pedaço de terra onde nasceu, e onde pouco resta dos cenários que se atropelam na memória. Funde-se depois entre aqueles que se recolhem no interior da Escola Portuguesa, nos abraços demorados que disfarçam lágrimas que só se libertam no regresso a casa.

Só rostos de gente grande enchem os corredores que habitualmente pulsam de infância e puberdade. Nos sorrisos rasgados, nos braços que se estendem para acolher o outro, denuncia-se uma realidade de reencontro que é também um regresso a um lugar de pertença que o curso da vida tratou de empurrar para longe. Irene Ribeiro, de 75 anos, partiu há mais de meio século para o Porto, levada pelo amor por um português a quem o serviço militar impusera passagem por Macau: “Casei por procuração, aos 21 anos. Esperei três meses para ir para o Porto. Não tinha barco, depois foram 70 dias no mar. Foi o único homem da minha vida”, conta, com o sorriso a disfarçar a mágoa pela partida daquele que a fez enxotar o medo e avançar sobre o mundo.

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“Sinto falta da minha gente”, confessa Irene, enquanto à sua volta vai reconhecendo aqueles que lhe estendem afectos e sorrisos. “Macau está muito diferente, mas não é para o meu gosto”, acrescenta. A seu lado está Miguel Pinto Ribeiro, o filho de 49 anos, há duas décadas a viver em Londres: “Estou em Inglaterra desde 1997, não via a minha mãe há alguns meses”, conta o designer de vídeo, que se estreia no Encontro das Comunidades Macaenses.

“Macau é a minha mãe, são os meus ancestrais. Vim cá pela primeira vez aos sete anos, com os meus pais, já não vinha desde os 11. Isto é como vir pela primeira vez, é muita gente”. Sobre a Macau que agora encontrou, a impressão sumariza-a assim: “A identidade está a perder-se, graças à maldita ou bendita globalização”.

 

SABORES E SEGREDOS PARTILHADOS EM VOLTA DA MESA

 

Do átrio e dos corredores, a multidão de macaenses regressados da diáspora avança para o exterior onde estão dispostas as mesas para o Chá Gordo, organizado pela Confraria da Gastronomia Macaense. Tolhem-se os corpos perante o frio inesperado, que só um ambiente de festa poderia desafiar. Sobre as mesas, exibem-se pratos e aromas que todos parecem reconhecer de um tempo já distante, quando mães e avós tomavam em mãos uma cozinha feita de cruzamentos em que se encerravam segredos que ninguém ousava penetrar. Em fila, curvam-se os corpos perante o minchi, o tacho, a feijoada, o caril de galinha, uma infinidade de salgados e o bolo-menino. Dão conta como podem do frio, sussurram confidências e cumplicidades que o tempo não apagou.

Com o prato pousado numa mesa de ténis de mesa, Mário Tcheong, de 75 anos, alinha caril de galinha com bolinhos de bacalhau: “Fui para Sidney com 38 anos. Queria aventurar-me e conseguir mais oportunidades para os meus filhos. Ainda antes tinha passado sete anos no Panamá”, conta. Mário, que veio a todos os anteriores encontros, insiste no regresso contínuo para “encontrar familiares, amigos, colegas”, e não cessa de se espantar com o crescimento acelerado da península onde nasceu. “É o desenvolvimento económico, das infra-estruturas, tudo resultado dos casinos. Não gosto de ver Macau assim. Ainda me recordo de poder caminhar na rua, de ir para o Porto Exterior, para a praia”, recorda.

Mário Tcheong estudou no Colégio Dom Bosco, escolha definida por um familiar que haveria de lhe ditar um rumo: “O meu pai era chinês, a minha mãe do Equador, estudei no Dom Bosco por influência de um macaense da família Cordeiro, meu padrinho. Ele dizia: ‘O meu afilhado tem que falar português’. Estou muito contente por ter estudado para uma profissão, de serralheiro mecânico, no Dom Bosco”.

Junto à mesma mesa, José Augusto Pina, de 71 anos, está de regresso a um encontro onde não marcava presença há vinte anos. O recuo no tempo leva-o àquele 7 de Setembro de 1961, dia em que se viu, aos 16 anos, a partir com o irmão para o Rio de Janeiro. De Macau, tinha saído com a família um ano antes, rumo a Portugal. O negrume que atravessava o Portugal de então, impunha aos jovens uma guia de marcha para a Guerra do Ultramar. Para poupar os filhos aos horrores do conflito que despontava, o pai de José Pina envia-os para o Brasil: “Eu estava em idade de ser recrutado, fui para o Rio com o meu irmão. Os meus pais ficaram em Portugal”. Com o sotaque açucarado a denunciar uma vida passada na cidade carioca, José conta o que fez regressar, duas décadas depois: “A gente deixa a saudade dos amigos e colegas da escola. Vamo-nos encontrar no dia 29. É o segundo encontro a que venho, só vim em 1996. Decidi voltar pela idade, pela motivação de encontrar os colegas”.

Filho de pai português, natural da Guarda, e de mãe chinesa, José Pina sente-se hoje estrangeiro na terra que já foi sua: “Não é a Macau dos meus tempos, essa Macau cosmopolita e do jogo. Me sinto estrangeiro, tenho que passar por duas imigrações. Entro aqui como emigrante, isso causa alguma estranheza”, assume. Com ele está o genro, Paul Steinmann, que veio de Zurique de propósito para encontrar o sogro num Extremo Oriente que lhe é totalmente desconhecido.

 

NA RECUSA DO IMPLACÁVEL ENVELHECIMENTO DAS CASAS DE MACAU

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Indiferente ao frio que se abateu sobre o convívio, Frederico António, de 69 anos, circula descontraidamente pelo recinto. Presidente da Associação da Casa de Macau, em São Paulo, também traz na voz o sotaque que contrasta com os traços do Oriente cravados no rosto. Nascido em Macau, filho de pai macaense e mãe chinesa, a falta de emprego levou-o para Hong Kong, depois de terminada a formação na Escola Comercial. Haveria de estender a permanência na região vizinha por quase uma década, onde trabalhou no Hong Kong Bank. As convulsões da época e a ausência de perspectivas, impõem-lhe a opção de partir. “Foi a Revolução Cultural e Macau teve aquele negócio do 1,2,3. Mas não foi só, o contexto geral é que para nós macaenses não tinha muito futuro em Hong Kong. Hong Kong foi sempre britânico”. Uma decisão de fôlego num tempo ainda distante da globalização: “Era uma questão de cada um ter a coragem, todos nós nunca saímos, nunca pegamos um avião. A decisão era muito mais difícil naquela época do que é hoje”, assume.

São Paulo, que “sempre foi o motor do Brasil”, havia de se afigurar como futuro, onde trabalhou em vários bancos. A Associação da Casa de Macau seria fundada em 1989 e Frederico chegaria a presidente em 2014. Com ele chegam agora a Macau 35 sócios, que traduzem o envelhecimento da instituição: “Dos 35, a maioria absoluta está acima dos 65 anos. A renovação é um grande problema. Fizemos várias tentativas de incentivar os jovens para participar e, em consequência, herdar quando nós não tivermos mais energia. Mas infelizmente em todas estas tentativas fracassamos. Não que a gente tenha feito a coisa errada, mas porque o mundo mudou”, assume. Na associação paulista as actividades centram-se na gastronomia macaense – “todos os domingos, três vezes por mês, um almoço que fazemos há 28 anos” – nos passeios e no apoio à terceira-idade.

Frederico, que veio aos encontros de 2004 e de 2013, diz não reconhecer a Macau com que se tem vindo a confrontar: “Choca no sentido de uma modernização tão rápida e fantástica que a gente fica na dúvida, essa riqueza quanto tempo vai prosperar?”, questiona.

À medida que a noite avança, recolhem-se nos interiores os resistentes que recusam dar por encerrado o convívio. Escapam da chuva miúda que aos poucos foi afugentando as gentes. Envolvido pelos amigos, no bar da escola, Vítor Serra de Almeida, de 77 anos e presidente da Mesa da Assembleia Geral da Casa de Macau em Portugal, sente-se em casa na cidade que o acolheu em criança e de onde preferia nunca ter saído: “Vim para cá com 9 aninhos. Porque naquela altura o meu pai, que era professor primário, ganhava muito bem em Portugal”, ironiza. “De maneira que teve que emigrar. Fizemos as malas e viemos num cargueiro holandês, 45 dias de viagem, de Lisboa a Hong Kong, em 1949. Terminei a primária aqui, fiz o liceu todo e depois fui para Portugal para a universidade”.

Vítor Serra, que passa quase todos os anos pelo território, explica o que o leva a continuamente voltar: “O facto de me sentir pertença desta terra. Porque vim para cá com 9 anos. Macau em 1949 e todos os anos 50 era uma terra completamente diferente do que é hoje. De modo que a vivência e a minha introdução na sociedade macaense da nossa comunidade foi de chapa, entrámos logo”, explica.

Já o regresso a Portugal, aos 18 anos, recorda-o como a mais penosa das etapas: “Não fale nisso… não só o ir embora como a adaptação. Eu nascido lá, ainda com umas reminiscências de Portugal, a adaptação foi terrível”. Vítor haveria de regressar a Macau no início da década de 90 para trabalhar no Instituto de Habitação. Três anos depois, razões familiares impõem-lhe o regresso a Lisboa. A ligação à Casa de Macau em Lisboa existia desde o ano da fundação, em 1966. Entre 2000 e 2006 assegurou mesmo a presidência do organismo.

Com ele, vieram de Portugal 72 sócios, um número aquém da vontade do dirigente associativo: “Infelizmente têm vindo cada vez menos. Somos à volta de 600 sócios, mas temos que distinguir entre os 600 que estão nos livros e depois os que estão efetivamente”.

O filho de Vítor, João Serra de Almeida, de 37 anos, acompanhou o pai em Macau no curto período em que este cá trabalhou, na década de 90. “Vivi aqui dos 11 aos 13 anos. Era uma sociedade extraordinária para se ser pré-adolescente, porque tinha liberdade e segurança”, recorda.

O investigador na área da literatura, chega a este encontro com vontade de auscultar o modo como o território hoje acolhe a comunidade portuguesa. “Vou tentar perceber como é a sociedade hoje, como é que ainda pode absorver portugueses. Vir para cá é uma possibilidade”, admite.

Ao contrário do choque com que muitos dos mais velhos recebem a Macau com que hoje esbarram, João Almeida mostra-se fascinado neste primeiro embate: “Encontrei um sentimento de prosperidade que esta cidade sempre teve. Uma certa afabilidade entre portugueses e chineses. Esta Macau encanta-me”, confessa, empurrado depois pela chuva para junto daqueles que apenas o recordavam como rapaz.

 

 

 

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