Instituto Cultural apoia investigação sobre história do Cristianismo na China

Um académico da Universidade de Coimbra viu um projecto sobre o processo de assimilação por parte da cultura chinesa ser brindado com uma bolsa de investigação pelo Instituto Cultural. António Ribeiro propõe-se estudar sobretudo o papel dos Jesuítas na propagação da fé católica no Império do Meio.

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Uma investigação de António Ribeiro sobre o processo de assimilação do cristianismo pela cultura chinesa, desenvolvida através de correspondência de jesuítas, é um dos projectos apoiados por uma bolsa do Instituto Cultural (IC).

O estudo, um dos três projectos que acabaram de conquistar uma bolsa de investigação do organismo liderado por Guilherme Ung Vai Meng, “mais do que a uma conclusão definitiva”, pretende “descrever o processo de assimilação do cristianismo por parte de uma cultura à qual essa religião era completamente estranha”, disse à agência Lusa o historiador António Ribeiro.

Esse processo “fez-se em duas frentes distintas”, nas elites, “com a procura de adaptar a filosofia de Confúcio à doutrina cristã” e, por outro lado, “junto do povo, com a adaptação da cultura popular às práticas do cristianismo”, explica o investigador, que é doutorado em História Moderna pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

A investigação, que deverá ficar concluída até final de 2017, centra-se fundamentalmente na “correspondência que os jesuítas enviavam para a Europa, dando conta, aos seus superiores hierárquicos, da sua actividade missionária”, refere António Ribeiro: “Trata-se de uma documentação extraordinária do ponto de vista da investigação histórica e antropológica, na medida em que se descreve, de forma pormenorizada, a vida quotidiana das missões e a vivência religiosa dos chineses, fossem eles das classes altas ou baixas”, sublinha.

De salientar, adverte o historiador, que “uma parte da missão jesuíta na China estava instalada no palácio do imperador, que os tinha encarregue de serem os astrónomos oficiais da corte, um cargo de altíssima responsabilidade na cultura e mentalidade chinesas”. Há, de facto, “algo que se poderia designar por vivência cristã especificamente chinesa” e que se formou, fundamentalmente, com “a adaptação que os missionários jesuítas fizeram à realidade chinesa”, acrescenta o investigador.

Devido à sua intensa actividade fora da Europa, “os jesuítas ganharam uma consciência muito aguda da diversidade cultural e da necessidade de adaptação”, salienta António Ribeiro, considerando que se tratou de “uma abordagem essencialmente pragmática em que faziam concessões para salvaguardar o essencial, ou seja, transmitir a mensagem evangélica”.

As celebrações eram feitas com homens e mulheres em separado, “devido às condicionantes culturais”, do mesmo modo que eram permitidas “algumas formas de culto dos mortos chineses nas celebrações cristãs”, exemplifica António Ribeiro, indicando que “o culto dos antepassados era algo muito arraigado na cultura chinesa e os jesuítas perceberam que era preferível integrá-los a tentar erradicá-los”.

Na viragem do século XVII para o XVIII, aquele tipo de práticas criou, no entanto, “alguns problemas porque os missionários de outras ordens religiosas tentaram proibir o culto dos mortos nas celebrações cristãs na China” e a resposta foi “uma violenta reacção do imperador, que expulsou missionários e proibiu o cristianismo”.

Mas se é verdade que os jesuítas tiveram uma estratégia de adaptação, os chineses também fizeram a sua interpretação do cristianismo: “Por exemplo, na questão da possessão demoníaca”.

Outro aspecto, igualmente ancestral, muito marcado dessa vertente chinesa, relaciona-se com a adivinhação através dos sonhos e que “os chineses adaptaram muito bem à sua visão do cristianismo”, exemplifica ainda o historiador.

Além deste projecto de António Ribeiro, sobre a formação de uma “cristandade exterior à cristandade”, intitulado ‘A génese de uma “tradução”: Macau e os Jesuítas na formação de um “cristianismo chinês” (1600-1660)’, o Instituto Cultural atribuiu, este ano, bolsas de investigação académica a dois outros trabalhos: ‘Estudos sobre o mapa-múndi de Matteo Ricci’, de Gong Yingyan, da Faculdade de Humanidades e Comunicação da Universidade de Ningbo (China), e ‘Estudo das reformas curriculares ao nível do ensino elementar e secundário e da herança cultural de Macau desde o século XIX’, de Guo Xiaoming, da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau.

 

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