“Estamos longe de casa, mas há aquela relação especial que sempre foi muito típica de Macau”

 

Aos 40 anos e à 13.ª tentativa, Tiago Monteiro conseguiu finalmente quebrar o enguiço e vencer uma corrida em Macau, depois de em 2014 se ter quedado a três curvas do pódio. Numa entrevista concedida ao PONTO FINAL logo após o triunfo de domingo, o piloto português não hesitou em colocar o circuito da Guia no topo dos que lhe dizem mais e abordou a faceta da sua carreira menos conhecida: a de gestor da carreiras de outros pilotos.

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João Santos Filipe
joaof.pontofinal@gmail.com

Ponto Final – Após 12 anos de participações em Macau, foi à 13.ª vez que cá veio que conseguiu a vitória. Foi o quebrar de um enguiço?
Tiago Monteiro – Sem dúvida. Várias vezes tinha estado perto de ganhar, apesar de também ter havido algumas vezes em que não tinha o ritmo e não dava mesmo para ganhar. Mas muitas vezes tinha estado perto de ganhar e aconteceu sempre alguma coisa… Uma vez foi o turbo ou o motor que tiveram problemas, já não me recordo bem. Há dois anos foi a direcção a três curvas do fim… Havia sempre alguma coisa. Mesmo hoje [no domingo] estava a pensar: “Fogo, com estas confusões todas vai acontecer-me alguma coisa”. Estava com um certo receio, mas finalmente o enguiço foi quebrado.

P.F. – Antes da corrida admitiu que estava nervoso… Mas estando como convidado, não tinhas nada a perder. Como é que um piloto tão experiente ainda se sente assim?
T.M. – Realmente não tinha mesmo nada a perder. Não é uma corrida do meu campeonato e estava cá para me divertir… Só que acordei nervoso a pensar que era o dia de corrida… Também achei estranho, mas realmente foi o que aconteceu. Macau é assim: uma pessoa está sempre muito tensa porque sabe que as coisas podem correr mal facilmente. E convém não esquecer que aqui quando bates magoas-te a sério. Depois também queria mostrar um bom serviço e ter um bom resultado. Estamos em Macau e sabes que vai sempre acontecer alguma coisa na corrida. Só não pensei é que acontecesse tanta coisa. Também é esta expectativa que faz de Macau diferente.

P.F. – Como é que se sentiu durante a primeira corrida, quando quase não houve duas voltas sem acidentes ou safety car?
T.M. – É uma tensão enorme. Não é muito interessante, obviamente, mas aquelas voltas após a saída do safety car que fazemos são impressionantes é sempre ao ataque. Mas como é a primeira volta, nunca sabes como está a tua aderência, o carro o que faz com que sejam as mais difíceis. Realizámos várias voltas dessas e por isso acaba por ser duro. Foi pena porque acho que não passámos uma única vez na recta da meta em competição. Contudo cada reentrada é uma enorme pressão e tens de atacar e tentar aproveitar a partida. Foi tenso e estranho.

P.F. – Nessa corrida a bandeira de xadrez não foi mostrada no final da corrida. Como viveu essa situação?
T.M. – Na volta em que a corrida acabou eu realmente vi a luz dos semáforos na recta da meta a piscar. No entanto como não havia bandeiras pensei que tinha sido um erro… Limitei-me a atacar porque queria apanhar o piloto que estava à minha frente e como quando olhei para trás também estava toda a gente a atacar… Nem pensei mais nisso. Só que de repente só oiço a equipa a dizer-me pelo rádio: “Bandeira vermelha, bandeira vermelha”, então reduzi a velocidade. Mas isso só aconteceu pouco antes da curva da Melco, já quase no final da volta de consagração.

P.F. – Foi a primeira vez que lhe aconteceu uma situação destas?
T.M. – Foi, em quase 20 anos de carreira… Foi sem dúvida a volta mais rápida de consagração que fiz na carreira (risos).

P.F. – Quando vem a Macau sente o apoio e a presença da comunidade portuguesa?
T.M. – Até acho que está a voltar a haver cada vez mais portugueses em Macau e sinto que estão cada vez mais presentes. Pelo menos sinto que tenho mais apoio. Encontro igualmente alguns chineses a falarem um português muito bom e também são cada vez mais. Isso é engraçado e cria um ambiente diferente até porque estamos longe de casa, mas há aquela relação especial que sempre foi muito típica de Macau.

P.F. – Nas 13 vezes que veio a Macau teve a oportunidade de passear pela cidade?
T.M. – O tempo é muito limitado, mas houve anos em que vim com maior antecedência ou fiquei mais tempo depois das corridas. Fiz isso tudo várias vezes e até logo no início, porque uma pessoa quer aproveitar para ver os sítios onde corre. Sempre que venho com a família ou amigos ou patrocinadores costumo dar uma volta com eles. Posso dizer que tenho dado uma volta pela cidade ano sim, ano não. Tudo tem evoluído de uma forma incrível e posso dizer que conheço bem a cidade. Só que todos os anos as coisas estão cada vez mais desenvolvidas…

P.F. – Nota muitas mudanças?
T.M. – É impressionante, há muita construção… O grande choque para mim foi entre 2001 e 2007 porque nesses anos não vim a Macau. Bem… Nessa altura quando voltei achei isto uma loucura. Em 2001, o Grand Lapa na altura, que era o Mandarim Oriental, ficava quase em cima da água, depois quando voltei tinha quase mais um quilómetro de terra. Isso foi um grande choque. Felizmente depois de 2007, tenho vindo quase todos os anos a Macau e só não competi aqui no ano passado.

P.F. – Recorda-se da sua primeira vez em Macau?
T.M. – Muito bem… Agora não tenho a certeza se foi em 1998 ou 1999 [foi em 1998], mas foi muito duro. Não estava pronto a nenhum nível, era o meu primeiro ano a correr de Fórmula 3 e o segundo a competir. No entanto eu era português e estava muito próximo de ser a transferência da soberania… Então houve uma pressão enorme da organização e como eu era o único português que na altura estava na Fórmula 3, diziam que tinha de vir. Houve muita pressão para vir e acabei por aceitar o convite para ganhar experiência. Foi duro. Bati uma ou duas vezes, arranquei de 18.º ou 19.º ou algo parecido, e foi muito difícil. Foi uma experiência…

P.F. – O que mais lhe impressionou no Circuito na altura?
T.M. – Sempre disse que é o circuito mais impressionante e desafiante para um piloto. Não há nada semelhante. É verdade que existe Nordschleife [circuito com cerca de 25 quilómetro em Nürburgring, na Alemanha] que é um grande desafio, mas é diferente. Aqui a tensão é muito alta porque a pista obriga-nos a arriscar muito e o carro está sempre muito solto. A pista é rápida, temos os rails muito próximos, o que também acontece em Vila Real e no Mónaco, mas aqui a nossa velocidade é muito mais rápida. Outro problema é que o piso é muito irregular e o carro está sempre aos saltos, o que dificulta a nossa tarefa. Também fiquei impressionado com o ambiente, a humidade, o calor, estes atrasos por causa dos acidentes que são muito específicos de Macau e fazem com que a prova seja muito especial. É um jogo de nervos.

P.F. – Está actualmente a competir no WTCC, que para o ano volta a Macau. O seu início nesta categoria não foi fácil, mas agora é quase sempre o melhor dos pilotos, mas tem-lhe faltado carro para ganhar…
T.M. – Tem acontecido não estar na equipa certa na altura certa, é verdade. As carreiras às vezes são feitas assim, não se pode acertar sempre nestas decisões… Quando estava na SEAT o carro era muito bom, mas eu não estava pronto para lutar pelo campeonato. Tínhamos pilotos como o Muller ou o Tarquini com uma experiência fantástica e dos melhores do mundo. Aprendi muito com eles e estou nessa posição, mas é óbvio que é preciso ter carro para isso.

P.F. – Acredita que a conquista do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo ainda está ao seu alcance?

T.M. – Estou a caminhar nessa direcção. A verdade é que fiz agora 40 anos e sinto-me melhor do que nunca, psicologicamente. Fisicamente, aprendi muito e sou muito confiante nas minhas capacidades. Sei o que posso fazer, conheço os meus limites e capacidades o que é uma grande vantagem. Sou muito melhor piloto agora do que era há uns anos atrás. Se soubesse o que sei agora quando estava na Fórmula 1… Mas é assim a vida. Sinto-me muito bem, estou a aprender todos os dias e isso é fantástico. É importante ter abertura de espírito para absorver todas estas alterações.

P.F. – Qual foi o ponto mais alto da sua carreira?
T.M. – Tenho pontos muito importantes: o pódio nos Estados Unidos na Fórmula 1, o 8.º lugar em Spa-Francorchamps, para uma corrida em que arranquei do 19.º lugar e a primeira vitória no WTCC. Mas ganhar este ano em Vila Real foi inesquecível, foi o momento mais intenso de minha vida. Foi impressionante, toda aquela paixão, as pessoas viveram aquilo de uma maneira… Só que também foi uma semana dura porque não havia ninguém que não passasse por mim e não dissesse: “Isto é para ganhar”. Só que diziam isso como se fosse uma coisa natural e fácil, eu já estava farto de ouvir aquilo. Foi muito duro, uma semana muito complicada com muito trabalho e preparação. Mas depois quando tudo corre bem… Posso agradecer a Deus porque foi impressionante a quantidade de gente presente e o apoio.

P.F. – Em relação à Fórmula 1, disse uma vez que é uma das profissões mais restritas do mundo porque há mais astronautas do que pilotos. O que costuma dizer a quem quer começar uma carreira a pensar na F1?
T.M. – Se for o meu filho digo para não começar porque é muito difícil (risos)… É preciso ter muita força de vontade à imagem de qualquer outro desporto de alto nível, apesar de depois cada um ter as suas próprias características. É preciso nunca abandonar e nem sempre é fácil. O desporto automóvel é constituído em 10 por cento do tempo por bons momentos, 90 por cento são dificuldades.
Quando oiço pessoas a dizerem que já tiveram cinco ou seis reuniões com potenciais patrocinadores e que ninguém os ajuda… Eu chegava a ter 50, 60 e 70 reuniões com os patrocinadores durante o Inverno. Desses 50, um ou dois davam o seu apoio. Quando fazes cinco ou seis, a probabilidade de ter uma resposta positiva é muito difícil.

P.F. – Falando da questão dos patrocínios, foi, em Portugal, o primeiro piloto moderno no sentido de trabalhar de forma muito profissional as relações com os patrocinadores. Era uma coisa que não se fazia antes de si…
T.M. – Estou de acordo com o que diz. Isto aconteceu por várias razões: primeiro, não tinha dinheiro para ter uma carreira, apesar do apoio inicial. Rapidamente percebi que ou fazia alguma coisa de diferente face aos outros pilotos que me ajudasse a ter os patrocínios ou teria de parar. Também tive sorte porque me cruzei com muitas pessoas que me deram conselhos importantes para a minha carreira. Claro que também tive algumas experiências muito complicadas e maus conselhos.

P.F. – Ter começado a carreira no estrangeiro ajudou-o a prestar atenção a maus conselhos e a maus conselheiros?
T.M. – Ao longo da carreira passei por escolas [diferente categorias] muito complicadas e o facto de ter começado a carreira lá fora, até porque nunca participei numa competição em Portugal a tempo inteiro – foi uma grande ajuda porque obrigou-me a crescer como piloto e pessoa. Ao mesmo tempo permitiu-me uma ligação muito cedo a marcas, o que te obriga a estar num outro patamar, nesse sentido das relações. Nessa altura apercebi-me rapidamente que sem esta vertente, podes ser o melhor do mundo e mesmo assim vais ficar parado em casa. É a frustração do nosso trabalho e a dificuldade da nossa profissão. O talento só por si não chega…

P.F. – Também é um piloto que começou a competir muito tarde…
T.M. – É verdade, eu não estava “desenhado” para ser piloto. Comecei muito tarde, aos 19 anos, quase com 20 anos. Depois de ter ganho o campeonato em França dos Porsche, na época de estreia, passei logo para os Fórmula 3, mas não tinha aquelas bases todas que os miúdos têm quando chegam aqui… Mesmo assim, sete anos depois estava na Fórmula 1 e posso dizer que correu tudo bem.

P.F. – Além de ser piloto, também já foi proprietário de uma equipa no passado e agora é o agente de alguns pilotos, como o António Félix da Costa. Como se sente neste papel?
T.M. – É. É algo que gosto muito de fazer, mas não tanto como pilotar. Sobretudo gosto de fazê-lo com pessoas que aprecio, como o António, que é quase como meu irmão. Tenho um respeito e uma admiração enorme por ele e por isso desempenho estas funções com um prazer enorme. Neste momento tenho dois ou três pilotos e tenho recusado outros porque sou eu que dou a cara, falo com as equipas, pilotos, patrocinadores e com os próprios pais dos pilotos. Para ter mais pilotos tinha de contratar cinco ou seis pessoas e deixava de poder dar a cara, o que ia acabar por não ser a mesma coisa.

P.F. – A sua experiência nas diferentes e muito variadas competições em que esteve envolvido é uma grande vantagem…
T.M. – Os meus 18 ou 19 anos de carreira ajudam, obviamente, porque passei por muitas categorias. Tenho muitos anos disto, ando aqui no paddock e conheço muita gente… Algumas pessoas não via há muitos anos, com outros tenho convivido mais recentemente. Há de tudo… E isto é que é a força de um gestor de carreira, é ser-se respeitado no mercado pelas pessoas, patrões de equipas e conhecê-los. Isso vale ouro.

P.F. – Quando é que podemos esperar ter um piloto português novamente na Fórmula 1?
T.M. – Não termos aproveitado o talento do António Félix da Costa foi um desperdício e agora não vai ser fácil. Não está ninguém na calha para subir à Fórmula 1… Não está ninguém… Há pilotos bons mas faltam-lhes cinco ou seis anos para poderem pensar nisso.

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