Conta-me histórias daquilo que eu não vi

A adopção, anunciada pelo Governo, de manuais de história com conteúdos comuns aos que são ministrados na República Popular da China preocupa docentes e académicos do território. Em Hong Kong, o assunto também está na ordem do dia, ainda que por outras razões.

1.Historia Macau.jpg
O ensino da História da China em Hong Kong e Macau está na ordem do dia em ambas as Regiões Administrativas Especiais por causa de uma moção aprovada pelos deputados da primeira e de manuais novos anunciados pelo Governo da segunda.
No caso de Macau, professores e docentes receiam que os manuais de História Chinesa com conteúdo uniforme aos do interior da China, anunciados para o ano lectivo de 2019/2020 pelo chefe do executivo na quarta-feira da semana passada, se imponham como opção única para as escolas e resultem na “lavagem cerebral dos alunos”.
Ao abrigo da legislação de Macau, as escolas têm liberdade para escolherem os manuais escolares. No geral, adoptam edições de Hong Kong e do interior da China.
Num comunicado em língua chinesa e citado pelo portal de notícias Hong Kong Free Press, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) de Macau referiu que isso vai manter-se e que o novo manual aumenta o leque de escolha das escolas, sendo a sua adopção facultativa.
Mas para a académica da Universidade de Macau Teresa Vong, vai ter efeito contrário: “Especulo que as escolas passem a ter menos escolhas. Até certo ponto, eles [educadores e estudantes] devem ficar preocupados, porque isto tornou-se muito mais politizado. Eles devem ter receio de serem alvo de lavagem cerebral”, disse.
“Macau é um mercado pequeno e não há muitos editores dispostos a produzir manuais para uso no território. Agora, se a DSEJ vai patrocinar a editora People’s Education Press [que alegadamente vai produzir os novos manuais], esses editores vão simplesmente retirar-se do mercado. E nesse caso, as escolas ficam indirectamente obrigadas a usar estes manuais uniformes”, acrescentou.
A directora do Centro de Pesquisa Educacional da Universidade de Macau questionou, por exemplo, “como podem as pessoas que vivem num sistema socialista preparar livros didácticos para as pessoas que vivem num sistema capitalista”.
“Li a História Chinesa publicada pela People’s Education Press e eles criticam bastante o capitalismo. Será que vamos adoptar essa perspectiva histórica”, questionou.
Em alternativa, e para “melhorar a qualidade” dos livros, sugeriu que a DSEJ crie “um fundo para convidar editores de várias regiões e países para publicarem os manuais para uso local”.
“Se não há nenhuma agenda [política], por que é que não podem abrir a produção dos manuais escolares à competição do mercado, questionou a académica.
O ex-deputado e professor de História Paul Chan Wai Chi também está preocupado com “os efeitos a longo prazo, na medida em que isso vai limitar a compreensão da história pelos alunos”.
Paul Chan Wai Chi considerou que estes manuais uniformes de História Chinesa vão acabar por se impor nas escolas de Macau: “O chefe do executivo disse que vão ser completamente usados em 2019. Por isso, a DSEJ vai encorajar ao máximo as escolas a adoptarem-nos”.
“Preocupa-me que isto afecte a aprendizagem dos alunos e as suas candidaturas ao ensino superior no estrangeiro”, acrescentou.
Já entre os que apoiam a medida está Ieng Wan Chong, ex-director do Centro de Estudos da Política “Um País, Dois Sistemas”, que em declarações ao jornal Tribuna de Macau considerou que o ensino da História Chinesa para os estudantes de Macau e Hong Kong é “uma necessidade acentuada” e que a educação patriótica devia “ser obrigatória” em qualquer país.
Na quarta-feira, os deputados de Hong Kong aprovaram uma moção não vinculativa para tornar a História Chinesa uma disciplina independente e obrigatória nos primeiros anos do secundário.
Proposta por Horace Cheung Kwok-kwan, do partido pró-Pequim DAB, foi defendida pelos deputados da sua ala como uma forma de abordar “o problema dos pensamentos separatistas radicais entre os jovens”, mas os pró-democratas consideraram-na uma maneira de “lavagem cerebral”, escreveu o jornal de Hong Kong South China Morning Post.
Em 2012, o plano do Governo de Hong Kong para introduzir a disciplina de Educação Nacional, com vista a aprofundar os valores patrióticos e o amor à China, acabou por ser retirada, após protestos nas ruas convocados por movimentos como o Scholarism, do então estudante do secundário Joshua Wong, que dois anos depois se tornou num rosto da ocupação das ruas da cidade, em prol do sufrágio universal.
A História Chinesa é ensinada em escolas secundárias em Hong Kong, mas algumas combinam esta disciplina com outras, como História Mundial.
Ao contrário de Hong Kong, Macau vai a partir do próximo ano tornar obrigatória a disciplina de Educação Cívica no ensino primário, depois de este ano a ter introduzido na pré-primária.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s