“Esta foi a corrida mais difícil que tive em Macau”

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António Félix da Costa voltou a subir ao patamar mais elevado do pódio no Circuito da Guia, numa jornada histórica para o automobilismo português. Quatro anos depois de ter ganho no território pela primeira vez, o piloto luso voltou a repetir o feito, seguindo à risca o exemplo de Tiago Monteiro, que se tinha tornado ao final da manhã o primeiro português a vencer a Corrida da Guia desde que a prova foi instituída em 1972. A inédita circunstância levou o PONTO FINAL a optar por transcrever na íntegra – para memória e referência futura –  a entrevista concedida por Félix da Costa à imprensa do território. O piloto de Cascais descarta a ideia de que o segundo triunfo no traçado do território foi pêra fácil e diz exactamente o contrário. Apesar de difícil, a vitória na edição inaugural da Taça do Mundo de Fórmula 3 foi também uma das mais saborosas da carreira.

António, um triunfo de certa forma tranquilo porque, como sublinhou na conferência de imprensa, competiu em Macau sem o tipo de pressão com que competiu pela última vez em Macau. O seu futuro está  mais do que decidido e este foi um domingo para a história: primeiro o Tiago Monteiro e depois o António Félix da Costa …

António Félix da Costa: É verdade. Foi um dia para Portugal incrível. O desporto para Portugal está numa fase muito, muito boa: o Melo Gouveia no golfe, o Frederico Morais e o Vasco Ribeiro no surf, o Tiago e eu hoje, aqui. Foi uma semana, muito, muito boa, com todos a terem grandes resultados. Esta vitória foi para Portugal. O sacana do Tiago pôs-me pressão em cima quando ganhou hoje [ontem] de manhã e eu disse a mim próprio: “Agora também tenho que ganhar obrigatoriamente”.  A maior pressão hoje [ontem] estava eu a colocá-la a mim próprio: “António, relaxa, relaxa. Que estupidez! Não é preciso. Não tenho nada a provar”. Mas, não sei. Eu acho que sou competitivo demais. Eu não consigo vir aqui e não ser ambicioso o suficiente para ganhar. Felizmente conseguiu colocar pressão, mas também me consegui auto-relaxar ao mesmo tempo e as coisas correram bem …

 

Três anos sem competir ao volante de um monolugar de Fórmula 3, com dois treinos antes de rumar a Macau e com a concorrência que apanhou cá, fazem deste triunfo particularmente saboroso? Este ano foi um ano, de certo modo anómalo, com o Felix Rosenqvist no alinhamento e também o Daniel Juncadella. Foi uma espécie de corrida de campeões ..

 

AFC: Dou-me muito bem, obviamente, tanto com o Rosenqvist, como com o Juncadella. No caso do Juncadella, disputamos o DTM juntos. Com o Rosenqvist corro na Fórmula E. Corremos há anos juntos. Fizemos o treino antes de virmos para Macau e por acaso calhou fazermos todos na mesma pista no mesmo dia e andamos a brincar, a dizer que era a nossa corrida interna, dos velhotes. E quase que foi mesmo. O Felix Rosenqvist fez uma corrida inacreditável: vir de sexto para segundo, tem que se dar valor a isso, mas é preciso ver que ele veio todos os anos. Ele até agora veio seis anos seguidos, por isso estava com muito mais rodagem do que eu e ganhar-lhe aqui também prova um ponto importante.

 

Chorou no pódio. É sempre um sentimento especial, ganhar me Macau?

 

AFC – Eu disse: “Eu hoje não choro”. Em 2012, estava para ir para a Fórmula 1, estava a ganhar tudo e depois o hino não tocou… Todas as circunstâncias ajudaram. Hoje [ontem] eu disse para mim próprio: “Eu já ganhei isto uma vez, é so para curtir”. Mas, de facto, quando entro ali no pódio e vejo mais portugueses que sei lá o quê e é incrível porque vemos até pessoas de olhos em bico, cem por cento asiáticas, a falar português perfeito e isso impressiona-me de uma forma incrível aqui em Macau e toda a gente a cantar o hino foi incrível… Pareço um bebé grande que desata a chorar. Tentei controlar-me o mais rapidamente possível, mas as circunstâncias são o que são …

 

Dizia também que é a última vez que compete na Fórmula 3 e que a vitória teve um sabor ainda mais delicioso por ter corrido se qualquer patrocínio. É uma boa despedida a Macau?

 

AFC: O Trevor Carlin, o dono da equipa, ligou-me há um mês a perguntar-me se eu teria interesse em vir e disse-me que estava a tentar encontrar um patrocínio para pagar o teu salário e cobrir os custos da tua participação. Eu disse: “Trevor, esquece. Fica tranquilo, eu vou. Não me interessa o dinheiro nesta corrida, eu quero vir aqui pelo prazer de guiar um Fórmula, pela importância que esta corrida tem e pela diversão que envolve. O Trevor até ao último momento conseguiu arranjar um patrocínio, mas como puderam ver, o carro não tinha nada, zero. Mas foi para a equipa hoje. Como já tinha dito, eu não vou voltar a Macau de Fórmula 3.  É um desafio que está cumprido, mas o importante é passar ao próximo capítulo. A minha vida agora é com a BMW: eles têm um carro aqui a correr nos GT’s, têm planos bons para mim no futuro e agora tenho é que ir correr com os velhotes, com os maduros ali nos GT’s. Espero vir a Macau muitas mais vezes e correr neste fim-de-semana, mas não será de Fórmula 3.

 

Em termos de corrida propriamente dita, houve aquele interlúdio em que o Sérgio Sette Câmara assumiu a dianteira. Como é que correu a prova?

 

AFC: Foi boa. Eu sabia perfeitamente qual era o andamento do Sérgio porque somos colegas de equipa e eu percebi durante todo o fim-de-semana que ele era muito competitivo e quando ele passou para a frente, no arranque, eu apercebi-me que ia ser difícil. Nas primeiras duas voltas ele abriu uma grande distância: era mais rápido, mas a minha estratégia sempre foi estar mais rápido para o final da corrida. Eu sabia que tinha que estar perto. Provavelmente ia haver um “safety car”, mas de qualquer forma tinha que estar perto e houve uma altura, ali à terceira ou à quarta volta, que dei o click e comecei-me a aproximar muito. Depois, obviamente, o “safety car” veio ajudar e consegui passar o Sérgio no “safety car”. Depois os papéis inverteram-se: era eu à frente, no segundo “safety car”, ainda por cima com três voltas para acabar. Disse para mim próprio: “Não posso perder isto a três voltas do fim”.

O mais difícil estava feito e pronto, consegui fazer um grande recomeço a partir do “safety car” e consegui manter a liderança. Foi, realmente, a corrida mais difícil que tive em Macau em todos estes anos e este foi o meu quinto ano cá. Provavelmente foi também a corrida com o sabor mais especial.

 

Para o ano – e para além da Fórmula E – em que mais estará envolvido?

 

AFC: Os meus planos com a BMW são muito bons. O programa ainda não foi anunciado, espero poder anunciá-lo dentro de pouco tempo, mas é a minha família agora e se a BMW me quiser a correr de motos, de carros – seja o que for – eu faço tudo. Eles é que mandam e sou feliz.

 

Alguma hipótese de rumares aos Estados Unidos?

 

AFC: Adorava. A IndyCar é um sonho meu e agora, correndo com a Andretti na Fórmula E, estou mais perto, mas para já é um plano secundário.

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