A tradição do chá gordo na extensão do Doclisboa

Em “Chá Legendário”, Catarina Cortesão e Tomé Quadros fazem uma incursão pela gastronomia macaense e as tradições da comunidade. A versão reeditada do documentário é projectada amanhã, dia 18, no auditório do Consulado-geral de Portugal em Macau, pelas 18h30. O filme integra a programação da extensão a Macau do festival de cinema documental Doclisboa 2015.

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Cláudia Aranda

Conhecer os macaenses através da sua gastronomia, enquanto um dos sinais identitários da comunidade, é a proposta de “Chá Legendário”. Neste documentário, Catarina Cortesão e Tomé Quadros transportam o público numa rara incursão pelas casas e cozinhas de famílias tradicionais macaenses, registando em detalhe o ritual de preparação do chá gordo, nome dado a uma refeição farta, realizada em ocasiões especiais.

Trata-se de um tema que nunca havia sido abordado pelo cinema documental, garantiu Catarina Cortesão Terra em conversa com o PONTO FINAL. A gastronomia macaense foi reconhecida pelo Governo em 2012 como património imaterial de Macau. Mas, até agora, em termos de registo em imagem desta tradição, “o que há são apenas pequenos documentários sobre gastronomia macaense em geral, filmados em restaurantes, em formato mais jornalístico”, disse Catarina Cortesão, acrescentando que em “Chá Legendário”, os autores fizeram questão de distanciar-se dessa narrativa jornalística: “Quisemos aproximar-nos da cozinha macaense e da confecção dos pratos, da casquinha de caranguejo, do porco balichão tamarindo, através da linguagem e da atmosfera do cinema, em que não existe o narrador. O que interessa é o que as pessoas dizem e fazem. Não existe um elemento exterior que está a orientar a narrativa. A ideia aqui é uma narrativa fílmica, que se decide na mesa da edição, que é quase um jogo visual e de informação”, explicou.

A dupla filmou “uma série de cozinheiras famosas, a Aida de Jesus, a Rita Cabral cozinhou-nos o ‘Minchi’, o Rui Cabral, que é o sobrinho, preparou-nos a ‘Capela’. Falámos com vários macaenses, o Alfredo Ritchie, o Miguel Senna Fernandes, a Graça Pacheco Jorge –  que foi importantíssima – o Pedro Barreiros, todos eles apresentaram-nos os livros de receitas”.

Os livros, sustenta a realizadora, são guardados pelas famílias como tesouros: “Há famílias com livros de receitas dos anos 1700 e 1800, que “são passados pela avó à neta, pela tia à sobrinha. E, se acharem que ninguém é suficientemente competente para herdar a tradição familiar, elas preferem levar o livro para a cova e muitas receitas foram enterradas com a morte das suas cozinheiras”, contou Catarina Cortesão.

A macaense Nair Cardoso é a personagem condutora da narrativa deste documentário. Regressada de Portugal na altura, ela vai em busca da sua própria identidade, depois de receber um livro de receitas de família. Através da gastronomia –  e à volta dos tachos – os macaenses contam histórias e revelam a sua cultura. Até o crioulo macaense, o patuá, renasce em cada mesa que se põe para o chá gordo, usado para designar pratos e ingredientes.

“Chá Legendário” (“The Legendary Tea”, na tradução inglesa) foi financiado pelo programa do Centro Cultural de Macau “O Poder da Imagem”, que promove a produção cinematográfica local, tendo sido inicialmente visionado no Macau Indies de 2014. A primeira versão do documentário foi feita “à medida das restrições impostas pelo calendário apertado do concurso”, explicou Catarina Cortesão.

Seguiu-se uma versão acrescentada para poder ser exibido num festival em Portugal:  “Tínhamos filmado umas 300 horas de entrevistas, mas não pudemos ver essas 300 horas, tivemos que fazer uma selecção porque o tempo era muito escasso”. Entretanto, surgiram outros projectos, nomeadamente o documentário “Macau, Tempo do Bambu”, filmado este ano.

A oportunidade de fazer uma reedição voltou a surgir recentemente: “Acrescentámos testemunhos, revimos a edição e estamos a tratá-lo para entrar na rota dos festivais internacionais de cinema documental em 2017”. Catarina Cortesão acrescentou que há ainda trabalho a fazer ao nível do som, mas que, em termos de edição “a história está contada”.

 

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