“Trabalhámos que nem loucos para o sucesso do festival”

O ex-director do Festival Internacional de Cinema de Macau, Marco Müller, fala ao PONTO FINAL sobre os motivos que levaram à sua demissão. Diz-se “triste” por não assistir à sua primeira edição e considera “chocante” que a Associação de Cultura e Produções de Filmes e Televisão de Macau (MFTPA, na sigla inglesa) tenha anunciado publicamente a possibilidade de uma acção legal contra si. Müller, no entanto, acredita na qualidade do programa que deixou pronto, nos jovens cineastas de Macau e na cidade como um “hub” para o cinema na Ásia.

muller

Hélder Beja
Ponto Final/Macau Closer

– O que aconteceu para que tenha decidido demitir-se?
Marco Müller – O que aconteceu é o que foi confirmado por todas as fontes oficiais: meses e meses de divergência de opiniões não apenas sobre como qualquer festival deve ser feito, mas como um primeiro festival deve ser realizado. A primeira edição de um festival tem de provar que existe para o cinema – para os realizadores, para as pessoas que se preocupam com os filmes, os distribuidores, as vendas, e as pessoas que vão ver os filmes, o público em geral, os espectadores sofisticados. Isto tem de estar muito claro, não pode ser apenas um evento. É preciso a passadeira vermelha e eu tentei que vários filmes pudessem ser dignificados com a passadeira vermelha, mas um festival não pode ser só a passadeira vermelha. Foi por isso que tudo aconteceu.
– As divergências de opinião entre si e o comité organizador eram insuperáveis e foi por isso que decidiu demitir-se?
M.M. – Não posso ir mais além do que referir que houve uma divergência de opiniões, mas há uma coisa que lhe posso dizer: acho bastante chocante que durante a conferência de imprensa os representantes que primeiro me chamaram de amigo, depois – sem sequer me enviarem uma carta – tenham dito que estão a considerar uma acção judicial contra mim. Isto é uma completa surpresa. Eles não me informaram nem a mim, nem aos meus advogados e anunciam isso publicamente numa conferência de imprensa?
– Informou os seus advogados sobre estas afirmações e sobre essa possibilidade?
M.M. – Informei e eles disseram-me que isto é inédito. Ninguém faz uma coisa destas.
– Outro aspecto que a MFTPA anunciou em comunicado foi que os termos do contrato que tinha com esta associação terão sido quebrados por si…
M.M. – Seria engraçado ver como é que eles conseguem provar isso. Trabalhámos como loucos para o sucesso do festival, trabalhámos com paixão por um programa que é realmente muito forte. Seria interessante ver como é que eles poderiam acusar-me de quebrar o contrato. Só podem estar a brincar. Trabalhámos com paixão e o programa está lá para comprová-lo. Temos sete estreias mundiais e, à excepção de alguns eventos paralelos, tudo no festival é uma estreia mundial, internacional ou asiática. Não estou a tentar ser presunçoso, mas não há muitas primeiras edições de festivais que tenham tantas estreias mundiais e internacionais. Com este tipo de resultados quem poderia ser capaz de dizer isso? Fazer o programa de um festival não é como ir ao supermercado e dizer ‘gostava de um bocadinho disto e de um bocadinho daquilo’. Leva semanas, senão meses, a convencer pessoas que investiram 30, 40, 50 milhões de dólares num filme e que têm de vender e distribuir esse filme, a deixarem-nos fazer a sua estreia. Eles podem dizer o que quiserem, o programa está lá para provar o grau de paixão e dedicação que pusemos nesta primeira edição.
– O que tenciona fazer no caso de uma acção judicial?
M.M. – Os meus advogados estão à espera para perceber se será interposta alguma acção judicial. Não temos problemas da nossa parte. Seria completamente ridículo, porque toda a gente a trabalhar no festival sabe o quanto nos esforçámos. O mais difícil é que eles não estão só a forçar-me a mim a sair, eles estão a forçar toda a equipa de programação. É uma situação absurda. Mandei a minha carta de demissão por justa causa, não apenas uma carta de demissão, mas por justa causa. Tive de passar dois dias a convencer produtores e realizadores a participarem no festival, porque a primeira coisa que eles [MFTPA] fizeram quando receberam a minha carta foi enviar e-mails a toda a gente dizendo ‘ele sai, mas o festival continua’. Por isso, os realizadores e produtores começaram a contactar-me e a perguntar ‘O que se está a passar? Devemos cancelar?’. Eu disse-lhes: ‘Não, por favor. Vamos provar que a minha ideia para Macau estava certa, que este lugar pode realmente ser o ‘hub’ necessário, o ‘hub’ que está a faltar para produções muito originais, para filmes muito inteligentes mas comerciais’. O programa prova que fomos bem sucedidos ao apontarmos para esses filmes. Temos grandes filmes. (…) Esta situação, para mim… De alguma forma a minha reputação por causa disto… Não se esqueçam dos meus consultores, de todos eles. Eles anunciaram os consultores [Law Kar, Ivo. M. Ferreira, Shang Dongbing e Ding Yuin Shan]?
– Na conferência de imprensa não o fizeram.
M.M. – Filmes e convidados vêm [ao festival] principalmente por causa desta gente, porque temos de dar a cara e o nosso nome, para termos a certeza que as pessoas aceitam vir.
– Acha que alguns desses convidados que já confirmaram presença vão considerar não vir depois da sua demissão?
M.M. – Posso dizer-lhe que eles vêm porque eu pessoalmente telefonei a cada produtor e realizador a pedir para virem. Não posso garantir pelos 12 realizadores da retrospectiva “Cross Fire”, porque alguns deles dizem: ‘Olhe, isto foi construído com base num diálogo contínuo consigo, portanto não queremos fazer isto sem si’. É uma história diferente. Eu criei a retrospectiva num diálogo contínuo com eles.
– Está a dizer que pediu às pessoas para não desistirem do festival?
M.M. – Com certeza, noutro caso seria suicida. Lutei para que as pessoas viessem ao festival. Levei mais de 10 meses a convencer algumas pessoas a virem a Macau, vendi a ideia de que um novo ‘hub’ cinematográfico iria criar-se em Macau. O festival vai acontecer porque os meus consultores vão lá estar. Foi isso que consegui assegurar a todos os produtores, distribuidores, mas sobretudo aos realizadores. Disse-lhes: ‘Reparem, os meus consultores, as pessoas que seguem o vosso filme desde o princípio e que discutem a possibilidade de o mostrar em Macau, também vão estar em Macau’. Eles vão ser os meus embaixadores.
– De alguma forma o festival que vamos ver a acontecer é ainda o festival que imaginou?
M.M. – No que toca ao programa, sim. E tenho a certeza que as pessoas no escritório de Macau, depois de todos estes meses de discussão, agora devem de estar conscientes do tipo de responsabilidade que têm. Lidar com um filme que custou muito esforço criativo e mental, e que custou muito dinheiro a muita gente para ser feito, é uma coisa muito séria, e é preciso ser-se muito sério em relação a isso.
– Tenho de pedir-lhe para explicar novamente por que motivo exactamente decidiu demitir-se. Houve um momento decisivo?
M.M. – Há coisas que não posso dizer, como pode imaginar… Não se esqueça que está a falar comigo e eu estou em Zhuhai. Estou em Zhuhai, tal como a minha equipa de programação. A equipa de programação é composta por um comité de selecção que nem foi anunciado por dois consultores que trabalharam em festivais de cinema anteriormente, porque infelizmente até agora não havia ninguém em Macau com experiência em festivais internacionais. Portanto, tive de contratar duas pessoas em quem confio e com quem trabalhei antes. Nós os três tivemos de viver em Zhuhai. Ao mesmo tempo sabemos que fizemos todo o trabalho necessário, como deve de ser. Como pode alguém dizer alguma coisa contra nós? A maior parte dos actores e realizadores vão estar no festival porque estes consultores vão lá estar também. Eles conhecem-nos, confiam neles. Estas pessoas trabalharam comigo em Veneza, Roma, Pequim, no Festival de Cinema da Rota da Seda. Eles gostam destes desafios, da aventura.
– Como descreve a experiência de montar este festival?
M.M. – Foi positiva no sentido em que descobri a força do novo cinema de Macau. Não estou a falar apenas de Emily Chan e de Tracy Choi, mas também de A-Man Cheong e de todas essas pessoas incríveis. Sempre que estive em Macau fiz questão de passar o máximo de tempo que podia com os jovens realizadores, porque acredito realmente neles, que estão a chegar ao ponto de maturidade e que estão prontos para receber mais exposição na cena internacional. (…) Descobrimos a cultura de Macau, a música de Macau, e sou um apaixonado pelos novos cineastas de Macau.
– O que é que vai fazer agora?
M.M. – Deixo Zhuhai no sábado, porque vou ser novamente o mentor do Work In Progresso Lab, em Goa [algo que já estava previsto]. Este é um laboratório onde vemos filmes inacabados e damos conselhos aos realizadores, editores e produtores sobre como o potencial do filme pode ser desenvolvido por completo. Foi ali que descobri um dos filmes que está em competição em Macau, “Gurgaon”, um filme indiano espectacular. Sabia que queria este filme para o meu novo festival. De novo, vou à Índia e penso que serei capaz de descobrir uma coisa nova que hei-de trazer para o meu novo festival, porque tenho a certeza que haverá um novo festival para mim no próximo ano.
– O que sente neste momento, quando está prestes a deixar Macau?
M.M. – Levo a tristeza de não poder estar na primeira edição. Nós esforçámo-nos muito… A equipa de programação, o comité de selecção, os consultores, eu próprio; esforçámo-nos para termos um festival bem-sucedido. Os consultores estarão lá para vê-lo acontecer.

DESTAQUES

Sempre que estive em Macau fiz questão de passar o máximo de tempo que podia com os jovens realizadores, porque acredito realmente neles, que estão a chegar ao ponto de maturidade e que estão prontos para receber mais exposição na cena internacional.

Lutei para que as pessoas vessem ao festival. Levei mais de 10 meses a convencer algumas pessoas a virem a Macau, vendi a ideia de que um novo ‘hub’ cinematográfico iria criar-se em Macau. O festival vai acontecer porque os meus consultores vão lá estar. Foi isso que consegui assegurar a todos os produtores, distribuidores, mas sobretudo aos realizadores.

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