“O Fórum Macau deve ser mimado pela comunidade portuguesa”

Três bloggers do território abordaram na sexta-feira o futuro das relações sino-lusófonas, numa iniciativa promovida pelo PONTO FINAL. Do debate, realizado nas instalações da Livraria Portuguesa, sobressaiu a ideia de que Macau deve ter expectativas moderadas em relação ao Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, mas ao mesmo tempo acarinhar uma iniciativa que ajuda a distinguir o território.

_mg_7832 Fotografia: Eduardo Martins;

Luís Crespo, autor de “Bairro do Oriente”, Pedro Coimbra, responsável pelo blog “Devaneios a Oriente” e Arnaldo Gonçalves, que mantém o  “Exílio de Andarilho” acederam ao convite do PONTO FINAL no âmbito do programa de comemoração dos 25 anos deste jornal e debateram na sexta-feira, na Livraria Portuguesa, o futuro das relações sino-lusófonas e do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

Em destaque, numa tertúlia que se prolongou por pouco mais de uma hora e meia, estiveram questões como o reforço da dinâmica e da importância do Fórum e o impulso dado pelo organismo, por exemplo, ao ensino do idioma de Camões no território, num debate que teve como ponto de partida uma interrogação incontornável: “De que forma o Fórum Macau afecta a população de Macau? (…) Tem-se falado imenso do Fórum Macau: o que faz e o que não faz, o que devia fazer… Será necessário?”. Pedro Coimbra, jurista de formação, defende que o Fórum Macau é, antes de qualquer outra coisa, um instrumento colocado pelo Governo Central ao dispor de Macau para que persiga o desígnio da diversificação económica: “É um presente”, defende o autor de “Devaneios a Oriente”. “A China Continental oferece uma estrutura comandada e vigiada por Pequim, criando uma base para a criação de actividades alternativas ao jogo”, sustenta. No entanto, defende Pedro Coimbra, até agora, “não se vêm grandes realizações”.

Da V Conferência Ministerial, que se realizou nos dias 10 e 11 do mês passado e que contou com a presença do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang e do seu homólogo português, António Costa, resultou um impulso aparente para a valorização do uso e da aprendizagem da língua portuguesa no território, com a questão a ser abordada por vários deputados no hemiciclo do lago Nam Van.

Luís Crespo, autor do “Bairro do Oriente”, não concorda com a ideia de que o Fórum Macau sirva de elemento legitimador da presença da comunidade portuguesa na RAEM no pós-1999. Funcionário público, Crespo considera que “o Fórum depende mais da presença portuguesa do que propriamente a presença portuguesa do Fórum. O maior ‘tesouro’ que Portugal deixou em Macau foi não tanto a cultura, mas mais a língua portuguesa, defendeu o blogger.

Arnaldo Gonçalves, jurista e Professor de Ciências Políticas e Relações Internacionais no Instituto Politécnico de Macau, considera que o Fórum é sobretudo um instrumento de “softpower” concebido por Pequim e mesmo não sendo necessariamente um instrumento de legitimação da presença portuguesa em Macau, tem o ónus de dar uma dimensão às relações sino-lusófonas que vai além do panorama da história e dos afectos: “Não podemos ser ingénuos ao pensar que o corpo de deputados da Assembleia Legislativa são todos favoráveis à presença portuguesa. Há pessoas que são profundamente adversas à continuidade dessa memória portuguesa em Macau”, sublinhou. O autor do “Exílio do Andarilho” sublinha que a população do território não deve ter expectativas demasiado elevadas em relação ao organismo, mas admite ainda assim que continua a manter-se, para ele, um grande imponderável, que resume numa questão: “O que é que a diplomacia portuguesa quer, afinal, com o Fórum?”.

Por outro lado, Arnaldo Gonçalves deixa um pedido: “Vamos mimar o fórum. Não vamos ser excessivamente ambiciosos em relação a ele. É uma plataforma de contacto, põe Macau no mapa”, defende.

 

O ENFRAQUECIMENTO DO PORTUGUÊS NOS TRIBUNAIS

 

Acesa, a troca de ideias não se cingiu à dinâmica do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e questões como a subsistência do idioma de Camões nos tribunais também foram abordadas. Nas salas dos tribunais, são proferidas cada vez mais sentenças ou decisões em chinês, o que, de certa forma, contraria os objectivos consagrados na Conferência Ministerial . Tendo em conta que a jurisdição de Macau conhece a sua base no Direito de matriz portuguesa, pode manifestar-se um contra-senso:

“O Direito de matriz portuguesa é praticamente o sustentáculo da nossa presença aqui”, defendeu Luís Crespo. “Sem o Direito penso que seria residual a presença dos portugueses em Macau e os que ficassem teriam, provavelmente, de se integrar na comunidade”, remata.

Os três bloggers concordam numa questão: as lacunas nos recursos de tradução pode ser uma das maiores barreiras à continuidade do uso do português nos tribunais do território. JF

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