Estudo contraria estereótipo de silêncio associado ao aluno asiático

 Um docente da Universidade de Macau desenvolveu um estudo de observação de duas turmas – do ensino básico e universitário – que lhe permite concluir que o silêncio associado ao aluno asiático mais não é que o resultado de ambientes em que predomina uma cultura conservadora. A cultura do silêncio não está directamente vinculada a um qualquer tipo de enquadramento cultural.

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Sílvia Gonçalves

Um estudo desenvolvido por Roberval Teixeira e Silva – e agora publicado na revista científica Interface – vem contrariar o que o investigador diz ser o estereótipo de que o silêncio do aluno asiático numa sala de aula se explica pela diferença cultural. Depois de uma observação prolongada de duas turmas – uma do ensino básico e uma outra universitária –  o professor da Universidade de Macau concluiu que o silêncio está sobretudo associado à cultura conservadora e hierarquizada que é imposta numa sala de aula, e que se manifesta em qualquer ponto do mundo.

“Houve muitas questões iniciais. A primeira delas é essa relação intercultural entre professores que não são chineses, que conhecem pouco a cultura genérica chinesa, e entram em contacto com os alunos. E aí um dos problemas que aparece é o do chamado ‘Silêncio Oriental’”, enquadra o professor de nacionalidade brasileira, cuja motivação para avançar com este estudo foi a sua própria experiência como docente universitário de português enquanto língua estrangeira. “Eu não entendi como é que você pode estar na sala de aula e os meninos não se manifestarem”. Esse primeiro contacto, recorda, traduziu-se num “conflito interactivo” na sala de aula: “Que é uma marca de diferenças culturais, porque eu venho de uma cultura específica em que se espera que o aluno não seja silencioso. Então você vem para um contexto em que isso não acontece de jeito nenhum, e aí você leva um susto porque você não está acostumado com isso”, explicou.

A surpresa direccionou o linguista para um estudo que o encaminhou para o trabalho de observação do ambiente de uma sala de aula do primeiro ano do ensino básico, com alunos chineses e uma professora de português chinesa, numa tentativa de perceber como se inicia o que chama de processo de silenciamento: “Nessa pesquisa que fiz na escola primária, com alunos de cinco, seis anos, você vai vendo como esse processo de silenciamento vai acontecendo. Porque o aluno está exposto a um dia-a-dia de escola que tem uma série de valores sociais dentro e fora da escola. Está exposto a uma série de indicações de como se deve comportar. E uma dessas indicações é: na sala de aula um bom aluno é um aluno que fica quieto, é um aluno silencioso. Então começa esse processo de silenciamento que aparece depois na universidade”.

Desenvolvido ao longo de um ano, o processo de observação permitiu ao docente assumir que o silêncio se deve sobretudo ao conservadorismo de métodos e práticas: “Esse silêncio não é só construído pela diferença cultural, esse silêncio também é construído pelo tipo de sala de aula que professores e alunos inventam. Se a sala de aula é conservadora, o silêncio vai estar lá. Então tem mais a ver com uma escola conservadora do que com uma escola oriental. Então esse silêncio vai aparecer no Brasil, em França, nos Estados Unidos”, explica.

Em paralelo, o investigador fez o confronto com o fim da linha do sistema educativo, ao observar uma turma universitária de alunos chineses, que frequentavam o terceiro ano do bacharelato em Português, na sua interacção com um professor brasileiro: “No ensino universitário é onde esse silêncio aparece de forma concretíssima. Agora, ele não nasce na sala de aula universitária. Esse silêncio nasce nesse processo todo de socialização que envolve a escola e os espaços sociais que essas crianças e adolescentes vivem, que é o silêncio digamos institucional”, defende Roberval Teixeira e Silva.

O trabalho agora dado a conhecer  vem contrariar a visão que o docente, há 11 anos em Macau, trazia do Brasil: “A gente tinha essa visão genérica e estereotipada do que era o aluno asiático. É mentira, porque os alunos asiáticos são de vários tipos. Aquele aluno que tem uma matriz confuciana, ele tem a tendência a ter essa relação muito hierárquica na sala de aula que proíbe a fala. Mas outros asiáticos não, como os filipinos que não têm essa mesma tradição confuciana”, assume.

Roberval Silva aponta, assim, entre os vários princípios a que chegou com este estudo que “o silêncio não é um silêncio de cultura oriental, é um silêncio de cultura conservadora, no sentido de uma cultura muito hierárquica, com uma distribuição muito desigual de papéis. É um silêncio de salas de aulas conservadoras que aparecem em todas as culturas”, conclui.

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