A amplitude do conceito de segurança imposta pelo mundo de hoje

A Fundação Rui Cunha recebeu ontem uma palestra subordinada ao tema “Segurança como Conceito Abrangente”. Francisco Leandro, um dos três investigadores que intervieram no encontro, abordou a amplitude de um conceito que em muito excede, nos dias que correm, a dimensão da ameaça externa, e que toca todas as esferas da vida quotidiana.

 

donald-trump-1024-1

Sílvia Gonçalves

Foi da percepção que devemos ter hoje da segurança que ontem falou Francisco Leandro numa conferência que teve por título “Segurança como Conceito Abrangente”. O professor e investigador da Universidade de São José defendeu a abrangência de um conceito que, principalmente nas sociedades mais desenvolvidas, toca todas as esferas da vivência quotidiana, não se circunscrevendo hoje à dimensão da ameaça física ou militar a que está tradicionalmente associado. No dia em que o mundo se confrontou com a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América, o investigador definiu o sucesso do candidato republicano na medida em que este “explorou as inseguranças dos americanos”. O académico não está, ainda assim, certo de que a mensagem política transmitida na campanha – que toca o desapontamento face ao sistema político e económico – poderá vir a corresponder à lógica do poder executivo que agora se inicia.

“A ideia essencial que sai deste seminário é que hoje a segurança é um conceito muito abrangente, é um conceito essencial. O conceito de segurança está por detrás de todas as decisões políticas verdadeiramente importantes. Do meu ponto de vista, a discussão do passado sempre foi: ou o Estado ou o indivíduo. E o que é novo é: o Estado e o indivíduo. Não é possível discutir a segurança diferenciando estas duas entidades, eles precisam um do outro”, assinalou Francisco Leandro, em declarações ao PONTO FINAL.

O professor assistente da Faculdade de Indústrias Criativas da Universidade de São José apresentou exemplos da amplitude de um conceito que encontra diferentes abordagens mediante o contexto social que o enforma: “Nós todos estamos preocupados com o nosso emprego, estamos preocupados com os nossos investimentos. É evidente que podemos discutir a segurança noutros contextos, coisas como a limitação à detenção, o patamar mínimo da educação, da assistência social. Essa é uma discussão que se faz em países em vias de desenvolvimento. E é importante, eu não quis desvalorizar, essa discussão vai manter-se”, prevê Francisco Leandro. “Agora, nas sociedades num estado de desenvolvimento mais avançado, a discussão é mais larga, é muito mais complexa. Nós falamos hoje da segurança energética ou das mudanças climáticas, isto é fundamental para as nossas sociedades”, sublinha.

A conferência, que também incluiu intervenções de Rui Flores e de Sten Verhoeven, aconteceu poucas horas depois do mundo ver confirmada a eleição de Donald Trump, tópico que inevitavelmente atravessou o encontro. Quando questionado pelo PONTO FINAL se a eleição norte-americana representa uma mudança na própria percepção de segurança, o docente estabeleceu uma distinção entre dois momentos políticos: “Há um momento que é claramente um momento de campanha, um momento em que a mensagem política é de largo espectro, sobretudo para ir ao encontro de um certo desapontamento do próprio sistema político e económico. Com Donald Trump eleito há agora uma outra lógica, que é uma lógica de Governo”, defende o académico. “Parece-me difícil, mas eu não sei até que ponto é que a lógica da campanha corresponde à lógica do poder executivo que agora vai começar”, questiona o investigador nas áreas da ciência política e das relações internacionais.

“O meu ‘wishful thinking’ é neste sentido: os Estados Unidos não são uma potência como eram no final da Guerra Fria, a ordem global precisa que se afastem de uma vez por todas este tipo de pensamentos hegemónicos, pensamentos auto-protectivivistas, é preciso trabalhar em conjunto”, defendeu.

Segundo Francisco Leandro, o candidato republicano direccionou a uma sociedade profundamente dividida uma mensagem de protecção do que se encerra entre fronteiras: “A mensagem de Trump é quase uma mensagem comercial. É um homem de negócios. Diz ‘vamos renegociar os tratados, vamos impor novas regras’. Uma mensagem quase xenófoba, aquela sensação de que vamos proteger o que é nosso. Se eu pudesse definir o sucesso de Donald Trump é exactamente nesta medida em que ele se dirigiu às inseguranças dos americanos, explorou as inseguranças dos americanos. São ideias que vendem muito bem, mas depois têm muita dificuldade em ser operacionalizadas. Uma coisa é Trump na sua campanha eleitoral, outra coisa é como presidente dos Estados Unidos da América”, concluiu o docente.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s