Maričić soma e segue. Agora quer representar Macau nos Jogos Asiáticos

Cidadão da Croácia radicado em Macau há três anos, Nikola Maričić é uma das principais referências das artes marciais do território. Pódio atrás de pódio, tem somado resultados notáveis nos vários torneios internacionais de taekwondo, taichi e chi kung por onde tem passado. No último fim-de-semana, trouxe mais três medalhas da Taça de Chi Kung “Jockey Club” , disputada na vizinha Hong Kong. Aos 47 anos, o atleta confidenciou ao PONTO FINAL que já se sente um cidadão do território e falou das esperanças que ainda acalenta de conseguir representar a RAEM nos próximos Jogos Asiáticos, em Jacarta, em 2018.

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Fotografia: Eduardo Martins;

Rodrigo de Matos

– Conte-nos como correu a competição este fim-de-semana em Hong Kong…

 

Nikola Maričić – Foi uma óptima experiência. Para mim, foi muito interessante até porque era o único ocidental, num evento em que havia gente de Taiwan, da China Continental, de Hong Kong e de Macau. Ganhei três medalhas: no concurso de Wu Qin Xi, ou “chi kung de cinco animais” fiquei em segundo com a selecção de Macau, sendo que além dessa medalha de prata, recebi a medalha de ouro individual por essa minha performance. Depois, fiquei também em segundo no Baduanjin [“Oito peças de brocado”, uma das mais comuns formas de chi kung].

 

– Chegou a Macau há cerca de três anos. O que o trouxe até cá?

NM – A minha mulher [risos]. Mas já conhecia Macau. Em 1988 estive em Hong Kong. Tinha sido preparado para me tornar um oficial de navio e visitei Hong Kong algumas vezes quando andava embarcado. Adorei esta região e a forma como está conectada com toda a parte, as suas ligações a Pequim e à Europa. É um lugar pequeno mas que tem tudo.

 

– Quando apareceu a sua paixão pelas artes marciais?

NM – Ao contrário de muitas pessoas, não foi a ver filmes de artes marciais. Houve algo que me trouxe para as artes marciais mas tenho até dificuldade em perceber exactamente o quê. De qualquer forma, isto foi nos anos 80 e eu devia ter cerca de 16 anos …

 

– Um início relativamente tardio, não?

NM – Bem, quando entrei, diziam-me que, por ter já o corpo desenvolvido, seria difícil atingir um nível elevado em qualquer modalidade. Nessa altura, havia a mentalidade de que se deveria começar entre os quatro e os seis anos para atingir um bom nível competitivo. Mas, estavam enganados. Não apenas eu, mas outros atletas que também começaram relativamente tarde, temos provado o contrário. Nunca é tarde para começar. Veja bem: tenho um amigo, que conheci no ano 2000, e com quem participei nos Campeonatos Europeus de taichi. Na altura, ele tinha 75 anos… e tinha começado só aos 55! Mas conseguia fazer coisas com o corpo que muitos jovens não conseguem.

 

– Como foi esse início, na Jugoslávia dos anos 80?

NM – A minha primeira experiência neste campo aconteceu com uma arte marcial que estava a ganhar popularidade na altura: o karaté full-contact, que hoje se chama kickboxing. Na minha adolescência, era um miúdo muito introvertido. Não gostava de falar com as pessoas, tinha vergonha de meter conversa com as raparigas. Na altura, não havia Internet e era mais difícil encontrar informação. Entrei para o karaté por influência de colegas do liceu náutico que frequentei. Comecei na primeira turma, dos principiantes, mas também me quis matricular na turma mais avançada, em que só participavam cinturões pretos e castanhos. Fui a uma aula de cada e, na vez seguinte, o mestre seleccionou-me para me tornar treinador. Imediatamente.

 

– Como é que isso foi possível?

NM – A verdade é que, mesmo só tendo começado a sério uns dias antes, eu tinha um segredo: tinha estudado por conta própria nos livros muito antes. Sempre tive um grande interesse pelas artes marciais, muito antes de as praticar a sério.

 

– Então foi a ler que aprendeu, na verdade?

NM – Não apenas a ler. Por exemplo, se eu lia que um pontapé lateral devia ser executado desta forma, virando assim a perna, tratava de tentar executar como era explicado. Sempre tive muita atenção ao que os mestres diziam, tanto na vida real, como nos livros. Portanto, não me limitava a ler. Seguia mesmo o que estava escrito. Na altura, devorei livros de taekwondo e kung fu de Shaolin. Li muito e pratiquei tudo o que vi nos livros. Sem um mestre que me ensinasse, não tinha outra alternativa senão aprender a partir dos livros. Durante dois anos, todos os dias de manhã, fazia alongamentos durante 40 minutos. No meu país, os Invernos são muito frios. Mas reparei que, desde que comecei a fazer aqueles alongamentos de manhã, deixei de sofrer com o frio. Uma vez, acordei mais tarde e não cumpri com essa rotina e passei um grande frio nesse dia. Percebi então que devia fazê-lo sempre.

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Fotografia: Eduardo Martins;

– Era um miúdo muito activo?

NM – Sim. Lembrando os tempos que antecederam o meu interesse pelas artes marciais, na altura, no início dos anos 80, tinha aparecido um novo canal de televisão dedicado ao desporto, que se chamava Screensport, Este canal tinha um programa de fitness de meia-hora pela manhã que eu seguia e praticava sempre antes de ir para a escola. Todos os dias dava boas dicas sobre desenvolvimento muscular, alongamentos. Estudei na altura, também por conta própria, umas coisas sobre métodos de relaxamento muscular progressivo, através de uma cassete de áudio que tinha comprado quando estava na escola primária. Ouvia aquela cassete no meu walkman todas as noites antes de dormir e aquilo ajudava-me a relaxar o corpo e a mente.

 

– O que sempre procurou então foi aprender práticas que lhe fizessem bem à saúde, no fundo?

NM – Sim, práticas saudáveis. Os meus pais achavam que eu era maluco. Mas os efeitos na minha saúde foram evidentes. Sofria de escoliose mas consegui corrigir a minha coluna sozinho. Durante três anos, usei um aparelho para manter a minha coluna direita, mas aquilo na verdade acabou por piorar a minha situação, porque eu estava a crescer e o aparelho comprimia-me a espinha. Os médicos achavam que sabiam tudo, mas não perceberam isso. Por isso, passado três anos, estava pior do que antes. O médico perguntou-me: “Como estás, melhor?” e eu respondi: “É claro que não!”. As crianças nunca mentem.

 

– O que acha que acontece depois que crescemos?

NM – Uma vez adultas, as pessoas aprendem a mentir em determinadas situações para não passarem por estúpidas. Todos aprendemos a mentir para não parecermos idiotas aos olhos das outras pessoas. Nesse aspecto, procuro sempre manter aquela mentalidade infantil. Sou muito honesto no que faço e no que ensino.

 

– É muito exigente com os seus alunos?

NM – Às pessoas que vêm às minhas aulas, ofereço algo que lhes arranca o stresse. Eles dizem-me: “Eu vim aqui para relaxar”. E eu respondo: “Não, não vieste aqui para relaxar. Vieste aqui para aprender. Para relaxar, vais a outros sítios”. Isto é importante. A pessoa que transporte raiva dentro de si por 10 ou 20 anos, acaba por transformar a raiva numa doença. É preciso pôr tudo para fora. Por isso, aperto com eles para que libertem o seu pior lado [risos]. Mas isso é para que o melhor prevaleça.

 

 

– Quando é que se apercebeu de que era realmente bom a fazer o que faz?

NM – Na verdade, acho que ainda não me considero bom. Continuo a praticar para chegar lá. Treino outros atletas desde os meus 16 anos, mas nunca me considerei um verdadeiro treinador até talvez 2010. Só então reparei: “Ops, sou um treinador!” [risos]. Mas sempre me dediquei a ensinar e também a promover as artes marciais.

 

– Enquanto praticante, é um atleta multidisciplinar dentro das artes marciais, dominando desde o wushu ao taekwondo. Em qual delas se considera melhor?

NM – Eu sou o melhor a comer [risos]. Na verdade, as artes marciais são também uma espécie de alimento. Alimento para a mente e para o corpo. E ajudam a preparar o corpo para estar num estado óptimo para absorver os nutrientes do que podemos chamar a “comida de verdade”.

 

– Aprendeu com grandes mestres do seu país?

NM – Quando comecei nas artes marciais, o meu mestre foi Milan Šupica, que foi campeão europeu de karaté full-contact. Ele influenciou-me muito nessa multidisciplinaridade, ao combinar os treinos com exercícios de respiração e alguma meditação, incluindo também algumas coisas de judo e jiu-jítsu. E o seu mestre, o campeão mundial Branko Žgaljardić, também me ensinou algumas vezes. Estes são grandes nomes, que já davam cartas na modalidade muito antes de aparecer Chuck Norris…

 

– Quando decidiu dar o salto do karaté para as outras artes?

NM – Os meus mestres eram dos melhores. Mas sentia que alguma coisa estava a faltar nas suas aulas. Não que houvesse nada de errado, mas era uma coisa pessoal, que sentia no meu corpo. Por isso, comecei a estudar muitas outras artes. Perguntava-me porque é que havia tantas artes marciais diferentes, tantos estilos. Trabalhei em hotéis, em supermercados e até DJ e segurança de discoteca eu fui, muitas vezes em dois empregos ao mesmo tempo e, mesmo assim, encontrava tempo para aprender. Mesmo estando a trabalhar, a minha saúde era o mais importante para mim. Porque, se estiver doente, como posso trabalhar?

 

– E foi na Croácia que aprendeu a base do que sabe de artes marciais?

NM – Na verdade, cedo me apercebi de que tinha de me pôr a viajar e a aprender coisas no estrangeiro e comecei a participar em seminários um pouco por toda a parte. França, Suíça, Holanda… Até que, na Áustria, conheci o meu primeiro grande mestre de taichi….

 

– E hoje em dia, compete em wushu, taekwondo e chi kung…

NM – Sim. É uma combinação que, para mim, faz sentido, porque as três têm a mesma raiz. Muitos mestres não vão concordar comigo, mas é o que eu penso. Sempre tive a sorte de ter mestres de mentalidade muito aberta que não se importaram que eu aprendesse coisas de outras disciplinas para me desenvolver ao máximo.

 

 

– E como é que Macau aparece na sua vida?

NM – Conheci a minha mulher, que é de cá, na Áustria, há cerca de 10 anos. Eu estava lá por ocasião de um seminário e encontrei-me com ela por acaso. Ela é funcionária pública e estava de férias a viajar por lá. Mantivemos o contacto e ela visitou-me algumas vezes no meu país. Até que, por fim, decidi mudar-me para cá. Só cá tinha estado antes uma vez, durante sete dias, numa competição internacional de wushu.

 

– Por falar em competições de wushu em Macau, que lhe parece a ideia de ter o Grande Encontro de Mestres que começou a realizar-se este ano?

NM – Penso que é uma excelente ideia trazer cá tantos mestres de toda a parte do mundo para mostrarem as suas habilidade e promover as artes marciais. Não nos podemos esquecer que o wushu é um dos desportos mais antigos, com mais de cinco mil anos de história…

 

– Como é que foi recebido em Macau?

NM – Toda a gente me adora aqui, porque estou sempre a sorrir. Gosto disso. Na verdade, aprendi a sorrir com o chi kung. A determinada altura da minha vida, fui uma pessoa doente. Além dos problemas de coluna que tive, sofria também de dores de cabeça, náuseas e cheguei mesmo a desenvolver epilepsia. Mas não tive medo, porque no método chinês, aprendemos que apenas existe uma doença: o bloqueio da energia que flui pelo nosso corpo. Só temos de aprender a reequilibrar essa energia.

 

– Que lhe pareceu o nível de wushu praticado por cá?

NM – Um nível bem elevado. Macau está sempre entre os favoritos nos Mundiais e Asiáticos. O taichi aqui também é excelente. E o taekwondo está também em bom nível. No chi kung, entrei apenas no ano passado. Encontrei o grupo durante o Festival do Desporto no Tap Seac. Eu estava lá a promover o taekwondo e vi o grupo de chi kung. É muito difícil encontrá-los, falam pouco inglês, não respondem aos meus emails, provavelmente porque não os percebem. Fui lá cumprimentá-los e, por sorte, estava lá o Andrew, que fala inglês, e convidou-me para as aulas. Hoje sou membro das selecções de Macau de chi kung, taekwondo, taichi. Da de wushu ainda não [risos].

 

– Nestes três anos, o que conquistou para Macau?

NM – Em taekwondo, o triunfo mais importante materializou-se este ano em Janeiro: o certificado do Governo de Macau após ter conquistado uma medalha de prata na Competição Internacional de Taekwondo em Kuala Lumpur, que já havia vencido no ano passado. Isso para mim, foi muito especial porque é um sinal de que Macau me aceitou e reconhece o meu trabalho. Também ganhei uma medalha de ouro no Open de Taekwondo na Coreia do Sul, nada menos do que o berço desse desporto.

 

– E agora, quais os próximos passos?

NM – No próximo ano, teremos os Campeonatos do Mundo de chi kung, e em Abril, os Campeonatos de Macau de taichi. A variante do taekwondo que pratico – o poomsae – está prestes a ser admitida também nos Jogos Asiáticos. Por isso, para já, estou focado em participar em mais competições internacionais e na promoção da prática destas modalidades em Macau.

 

– Seria um ponto alto representar Macau nos Jogos Asiáticos, imagino…

NM – Sim, mas isso está dependente de eu conseguir o passaporte de Macau. Se isso acontecer a tempo, será uma honra para mim. Tudo é possível. Penso que a única pessoa que o pode aprovar é o Chefe do Executivo, desde que o Instituto do Desporto decida considerar que eu sou importante para o desporto de Macau. Por mim, eu já sou um cidadão de Macau [risos].

 

– Para quem queira começar nas artes marciais, o que aconselha como primeiro passo?

NM – O chi kung é a base de tudo. Se começarem por estudar chi kung em primeiro lugar, já ficam com a base para o movimento do corpo e controlo do corpo e dos órgãos internos. A partir daí, fica mais fácil começar no taekwondo, wushu ou mesmo futebol ou basquetebol, ou qualquer desporto. O chi kung ensina-nos a mecânica do corpo. A respiração é também muito importante. Mas o importante mesmo é começar. Nem que seja em casa, sozinho. Façam agachamentos contra a parede. Ou flexões. Mas atenção, que as flexões têm de ser feitas muito correctamente, com o corpo recto, o tórax relaxado, o queixo para trás…

 

– Na agitada vida moderna, que benefícios pode uma pessoa tirar do chi kung?

NM – As pessoas de hoje andam muito stressadas. A primeira coisa que um novo praticante irá notar é que esse stress, através do controlo da mecânica do corpo, pode ser transformado em energia positiva e a pessoa passa a sentir-se mais enérgica. Os benefícios para a saúde são imediatos. As pressões que sofremos no trabalho e na família passam a gerar em nós mais energia, em vez de depressão. Mas se a energia gerada for demasiada, pode desencadear em ódio e ira, o que também não é bom. O que o chi kung nos permite é equilibrar essa energia, que está ligada às emoções, que passam a estar também mais equilibradas. Tudo isto através da prática de movimentos do corpo.

 

– Quem quiser aprender consigo, onde é que o pode encontrar?

NM – No Lago Nam Van. Estou aqui frequentemente, embora sem horário fixo. Podem também fazer uma busca na Internet pelo meu nome – Nikola Maričić – e entrar em contacto. Seja em grupo ou individualmente, estou sempre disposto a ensinar as pessoas. Em grupo é muito interessante pela dinâmica e energia colectiva que se gera. Gosto do contacto com as pessoas.

 

– Existe uma ideia feita de que os especialistas em artes marciais têm uma vida bem regrada e limpa de todas aquelas coisas que nos fazem mal. Isso é assim? Só come alimentos saudáveis, por exemplo?

NM – Isso é uma boa pergunta. O que é saudável? [risos] Isto não sou eu que digo, mas é uma ideia generalizada entre os mestres de artes marciais: tudo vem da natureza. Até a Coca-cola vem da natureza. Mesmo a dita “junk food” vem da natureza. Nós apenas reciclamos. Mesmo que consumamos maus alimentos, eles serão reciclados no nosso corpo. Por isso, podemos beber um pouco de vinho ou Coca-cola em pequenas quantidades. Claro que a maior parte das pessoas não sabem como processar essas coisas e, por isso, elas vão prejudicar a sua saúde. Mas, não há alimentos proibidos. Tudo vem da natureza. Mesmo as coisas ditas artificiais, porque nascem da combinação de elementos que existem na natureza. A parte mental também é importante. Se pensarmos que uma coisa nos vai fazer mal, ela vai mesmo.

 

– Isso parece uma boa desculpa para beber refrigerantes…

NM – Claro. Eu tenho de encontrar desculpas [risos]. Cada um tem as suas [risos].

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