Escândalo político na Coreia do Sul começa com um jogo de cartas em Macau

Com os níveis de popularidade da Park Geun-hye a baterem no fundo, na sequência dos escândalos de corrupção que têm sido revelados, dezenas de milhares de cidadãos têm vindo para as ruas nas últimas duas semanas, exigindo a demissão da Chefe de Estado.

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Abalado na sua coluna vertebral pelas revelações de que a Presidente, Park Geun-hye, estava a receber secretamente aconselhamento de Choi Soon-sil, uma velha amizade de quatro décadas sem qualquer cargo oficial ou preparação para tal, o sistema político na Coreia do Sul continua a vacilar.

A saga começa no ano passado, com um episódio simples e aparentemente inofensivo: Chung Woon-ho, director-executivo da Nature Republic, foi detido por vir apostar nos casinos de Macau. O jogo é ilegal para os cidadãos sul-coreanos e punível com pena de prisão, mesmo se o delito for praticado no estrangeiro. Condenado a um ano de prisão, Chung apresentou recurso. Mas, durante o processo de investigação, acabaria por vir à tona um outro crime, desta vez um sério caso de corrupção, envolvendo o antigo chefe do Ministério Público (MP), um juiz, o conglomerado Lotte e um secretário próximo de Park Geun-hye. A investigação apurou a existência de subornos nas contas da Lotte e acabaria por levar ao suicídio do vice-presidente da empresa, que deixou uma nota a assumir total responsabilidade. O antigo responsável pelo Ministério Público e o juiz de instrução do processo foram detidos.

Mais tarde, o jornal Chosun Ilbo viria a revelar uma série de novos escândalos envolvendo empresas, agentes da justiça e responsáveis do próprio Governo. O último dos quais teve como protagonista An Chong-bum, outro secretário do Executivo sul-coreano. An terá alegadamente movido uma campanha de extorsão para levar cerca de 30 empresas a doarem dinheiro à recém-criada Fundação MI-R.

E justamente quando as investigações do Chosun Ilbo estavam a chegar muito perto da Presidente, um dos advogados de Park conseguiu desviar as atenções e contra-atacar, denunciando o facto de que o chefe de redação do jornal tinha aceitado viagens oferecidas pela companhia de navegação do conglomerado Daewoo, em 2011. O caso manchou a reputação do jornal e levou a que a publicação das suas reportagens sobre as relações da fundação com o gabinete presidencial fossem suspensas.

 

A filha do pastor

 

Mas eis que outro periódico local – o tendencialmente esquerdista Hankyoreh –  reavivou a história com um toque surpreendente, ao revelar que Choi Soon-sil era quem verdadeiramente controlava a Fundação MI-R. Amiga de Park desde os anos 70, Choi Soon-sil era filha de Choi Tae-min, fundador de um culto que, até à sua morte em 1994, terá tido grande influência sobre a actual Presidente. A estranha relação entre Park Geun-hye e Choi Tae-min era um segredo conhecido de muitos na Coreia do Sul, mas que nunca havia sido investigado.

Com o avançar das investigações, foram crescendo as suspeitas sobre a indevida influência de Choi Soon-sil sobre a Presidente, havendo mesmo quem revelasse que um dos seus passatempos favoritos era “mudar os discursos de Park Geun-hye”. A governante começou por negar as alegações, classificando-as como meros boatos, mas quando um canal de televisão descobriu que os discursos de Park tinham sido encontrados num computador portátil de Choi Soon-sil, as negações perderam credibilidade.

Apesar dos dois pedidos públicos de desculpas da Park Geun-hye, a crescente fúria da população tem sido difícil de conter e dezenas de milhares de cidadãos têm vindo para as ruas nas últimas duas semanas, exigindo a sua demissão. De acordo com a secção sul-coreana do Instituto Gallup, citado pelo jornal norte-americano The Washington Post, os níveis de popularidade de Park despencaram para cinco por cento, os mais baixos de que há registo para um Presidente daquele país.

As investigações estão apenas a começar mas An Chong-bum, secretário sénior de Park, e Choi Soon-sil já foram detidos por abuso de poder e tentativa de fraude, enquanto responsáveis de grandes empresas, incluindo a Samsung, estão a ser alvo de inquéritos. Ninguém sabe ao certo onde é que esta saga irá levar, mas uma coisa é certa: o que começou com um empresário a jogar às cartas numa mesa de jogo de Macau acabou por desencadear aquele que é já o maior escândalo de corrupção na Coreia do Sul desde a sua democratização em 1987.

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