O Fórum, as omeletes e os ovos

 

A afirmação de Macau como plataforma de serviços entre a China e os Países de Língua Portuguesa arrisca-se a não se concretizar se o Governo não fizer uma aposta séria na preparação e importação de mão-de-obra qualificada. O aviso foi feito na sexta-feira por André Ritchie, antigo coordenador-adjunto do GIT, Gabinete de Infraestruturas de Transportes.

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André Ritchie, arquitecto que desempenhou o cargo de coordenador-adjunto do Gabinete de Infraestruturas de Transportes de Macau, manifestou na sexta-feira dúvidas quanto à real implementação na cidade da plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa, devido ao que diz ser um défice na “paisagem humana”.

“Não basta criar as infraestruturas físicas. Podemos ter a ponte que liga Macau, Hong Kong e Zhuhai, podemos ter novos postos fronteiriços, podemos até expandir os limites da fronteira, mas se não temos pessoal, mão-de-obra especializada com capacidade para implementar a ideia da plataforma, não vale a pena”, afirmou.

“Macau tem muito dinheiro, estamos numa situação favorável. Mas podemos comprar o melhor forno de pão do mundo, se a massa não for boa, o pão nunca há de ser bom”, disse, antes da mesa redonda “Repensar o papel urbano de Macau: A Plataforma, o Delta do Rio das Pérolas e o mundo lusófono”, onde planeava focar-se mais “na paisagem humana” e “não tanto na paisagem urbana”.

Ritchie, que integrou entre 2007 e 2015 o organismo que desenvolve o metro ligeiro do território, recorda a época de “grandes empreendimentos” nos anos 1990, durante a administração portuguesa: “Construiu-se a Ponte da Amizade [a segunda na cidade], o aeroporto, a central de incineração, o porto de águas profundas. Havia um discurso político na altura de tornar Macau na ponte entre Portugal e a China e transformar Macau num centro de serviços, mas muito sinceramente não sei se se concretizou”. As infraestruturas foram construídas, “mas a parte de desenvolvimento, de sofisticação humana, acho que falhou”, defendeu André Ritchie.

O arquitecto lembra que, para a implementação da plataforma, o Governo deseja ter quadros bilingues em diversas áreas, incluindo jurídica, comercial, contabilística, entre outras: “Acho óptimo, mas é um trabalho de mais de uma geração. Não quero ser extremista ao ponto de dizer que [a plataforma] não tem pernas para andar, mas acho que é um factor preponderante”, afirmou.

Menos céptico está Paulo Rego, director do jornal Plataforma Macau e orador na mesma mesa redonda. Para o jornalista, a plataforma entre a China e os países de língua portuguesa “liga-se completamente ao urbanismo”: “Plataforma quer dizer uma sociedade de serviços trilingue, inteligente, qualificada, que comunica com muitas realidades diferentes”, explicou, evidenciando que, para tal, é “preciso ter uma ideia de cidade”.

“Se quisermos de facto montar uma plataforma reconhecida mundialmente como tal, temos de pensar na arquitectura da cidade, na forma como a organizamos, para que essa sociedade de serviços funcione, se inter-relacione e seja sedutora”, defendeu.

Concretamente, Paulo Rego apontou a construção de uma grande biblioteca no centro da cidade (como está a ser planeada) como um exemplo de “uma boa ideia para a plataforma”, bem como a construção de “espaços públicos onde as pessoas se relacionem de forma diferente”, criação de “espaços para start-ups” e ainda mudanças nas universidades de modo a que sejam “mais interactivas e menos escolásticas”.

O debate, organizado pelo Conselho Internacional de Arquitectos de Países de Língua Portuguesa contou ainda com a participação das investigadoras brasileiras da área do urbanismo Margareth da Silva Pereira e Fabiana Izaga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Apesar das muitas diferenças, Izaga defendeu que Macau e o Rio de Janeiro têm “situações comuns” e “matrizes comuns” e podem ajudar-se mutuamente a encontrar soluções para os seus problemas.

“O Rio de Janeiro, assim como Macau, foi expandindo a cidade com sucessivos aterros, cortámos morros e fizemos aterros. Reconstruímos em cima do tecido preexistente, da nossa herança colonial. Vejo aqui em Macau também esse trabalho de reconstrução”, indicou.

No entanto, em Macau “há camadas mais espessas”, ressalvou, apontando para o exemplo da vila da Taipa, localizada junto à ‘strip’ de casinos:  “A pequena vila da Taipa me pareceu quase submersa, em vários sentidos. Ela estava lá, é contígua àquela escala brutal dos casinos, mas não há uma costura urbana que pudesse fazer a transição entre esses tecidos, nem mesmo de usos. Macau é um pouco mais complexo nesse sentido porque tem essas afluências económicas de outra ordem”, disse.

A China, recorde-se, institui Macau como a sua plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003, ano em que criou o Fórum Macau, que reúne ao nível ministerial de três em três anos. A mais recente conferência ministerial realizou-se no início de Outubro e contou com a presença de, nada mais nada menos do que cinco chefes de Governo.

 

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