“Não me quero esquecer que um dia fui criança”

Maria Inês Almeida, autora portuguesa de literatura infantil, esteve no Ubud Writers & Readers Festival para falar a miúdos e graúdos sobre os seus livros. Em entrevista, conta como começou a escrever para crianças, sublinha a importância de não tentar esconder-lhes a verdade e de deixar sempre “uma mensagem de esperança”.

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Foto: Hélder Beja;

Hélder Beja, em Bali

PONTO FINAL/MACAU CLOSER

Escreveu as biografias de gente tão grande como Amália Rodrigues, Nelson Mandela ou Almeida Garrett. Livros sobre leões e pássaros, professoras, eleições, ralis, pais, filhos, o Sporting Clube de Portugal, Timor-Leste. Sempre para crianças. Tudo isto em oito anos de carreira literária, os mesmos anos que conta o seu único filho. Maria Inês Almeida, jornalista de formação, vencedora do Prémio Revelação do Clube de Jornalistas português, em 2005, foi uma das convidadas Ubud Writers & Readers Festival. Nesta entrevista ao PONTO FINAL, a autora fala de como estimular as crianças para a leitura e o livro “Quando eu for… Grande”, que tem já traduzido para chinês e publicado no Continente. A sua obra mais recente trata a questão dos refugiados.

 

– O  começo da sua carreira literária no género infantil foi há cerca de oito anos. O facto de ter sido mãe nessa altura foi o que despertou a sua vontade de escrever para crianças?

Maria Inês Almeida – Foi. Nunca tinha pensado escrever para crianças, sempre quis ser jornalista quando era adolescente, mas desde que o meu filho nasceu, há oito anos, tudo mudou e as coisas foram-se proporcionando. Quando dei por mim já estava a escrever e a entrar no mundo dos livros para crianças de uma forma não planeada. Às vezes as coisas mais fascinantes da vida são aquelas que não planeamos.

Para alguém que trabalhava como jornalista, qual foi o grande desafio do ponto de vista linguístico e até de estrutura mental para escrever para crianças?

M.I.A. – Foi uma coisa natural, porque comecei a escrever biografias para crianças e a primeira até foi sobre a Amália Rodrigues. Eu já tinha muito material sobre a Amália e por saberem disso é que me convidaram para escrever uma biografia dela. Agora, quando se gosta de escrever, acho que acabamos por nos adaptar a tudo. Acabou por acontecer comigo de uma forma muito natural, descobri esse prazer de escrever para crianças, essa técnica. O facto de começar por biografias fez com que ainda estivesse relacionada de certa maneira com o jornalismo, porque um dos motivos pelo qual eu sempre quis ser jornalista foram as histórias que as outras pessoas tinham para contar. Essa curiosidade boa que um jornalista tem de ter é algo que tento passar ao meu filho: curiosidade pelo mundo, pelas pessoas. No fundo, a Amália acabou por ser essa continuação de escrever sobre a vida de alguém, não para uma revista ou para um jornal mas em forma de livro.

 

– Que outras biografias para crianças escreveu nessa altura?

 

M.I.A. – Almeida Garrett, Almada Negreiros, Amélia Rei Colaço e Michael Jackson. Depois comecei a fazer um livro com um tema que há muito tinha na cabeça. Chama-se ‘Sabes onde é que os teus pais se conheceram?” e pretendia ser um veículo de diálogo entre pais e filhos, porque às vezes é um bocadinho tabu os pais contarem a história de como tudo começou, e as crianças acham que começou tudo da mesma maneira, que os pais se encontraram na escola (risos), porque acaba por ser essa a realidade delas. Foi muito giro fazer esse livro, porque constatei que não eram só as crianças que não sabiam onde os pais se tinham conhecido, mas também os adultos de outra geração. Antigamente não se falava sobre isso.

 

Começou com as biografias e hoje em dia escreve livros infantis e juvenis muito diferentes uns dos outros, para diferentes idades. O que é que está a fazer presentemente em termos de escrita?

M.I.A. – No fundo é mesmo isso que acabou de dizer: coisas muito diferentes para diferentes editoras, diferentes idades. Às vezes projectos que quero muito fazer, outras vezes também projectos que me propõem, mas o desafio é mesmo esse, essa diversidade de coisas, porque quando se fala de escrever para crianças, elas também desde os dois ou três anos que começam a despertar para os livros, até às idades de 13, 14 anos. Depois, aí, já são outros livros, não os chamados livros para crianças. A escolha de temas também é muito interessante. Por vezes nasce de uma forma muito espontânea, outras vezes da realidade, outras vezes de ideias do meu filho ou de uma viagem.

 

– O seu filho lê os seus livros?

M.I.A. – Lê. Havia alguns que ainda não lia, como a colecção “Duarte e Marta”, que é para mais crescidos, dos 9 aos 13, mas este ano já vai ler o primeiro livro dessa colecção.

 

– Tem a tentação de, conforme o seu filho cresce, escrever para as idades que ele está a atravessar?

M.I.A. – Nem por isso, não. Aconteceu alguns livros estarem relacionados com a idade dele, mas não necessariamente. Agora acabei de escrever uma série de livros para mais pequeninos, “Simão, o Pequeno Leão”, que já não são para a idade dele, são mais infantis.

 

– Antes desta entrevista, disse-me que é muito importante os pais perceberem os temas de que uma criança gosta e comprarem livros sobre esses temas. Percebeu isto à medida que ia escrevendo?

M.I.A. – Percebi isso à medida que o meu filho ia crescendo e que eu também ia escrevendo para crianças e visitava escolas. O facto de irmos a escolas dá-nos uma grande experiência, porque os jovens partilham muitas coisas, muitas perguntas. Isso faz-nos perceber aquilo de que gostam e que os motiva. Acho que é muito importante percebermos que, tal como nós não gostamos de ler tudo, também eles assim são. Para uma criança que não tem a rotina da leitura – porque a leitura acaba por ser uma rotina que tem de ser criada – os temas são muito importantes. Uma das coisas que comentei aqui no festival foi que é importante o pais darem às crianças livros sobre os temas de que elas gostam, mas também darem o exemplo, serem também eles leitores. As crianças absorvem muita coisa através do exemplo, não só a leitura. Podemos dizer a uma criança: ‘Tens de ser generoso’. Mas se a criança não vê a família ajudar os outros, acções em que ela percebe o que é a generosidade, não vai entender tão bem.

 

– Chegar e dar exemplos às crianças, no caso de um escritor de literatura infantil, também passa por desmontar e descodificar temas complexos para que lhes sejam acessíveis. No seu trabalho, já abordou pessoas e temas muito intrincados, como nas biografias de Malala e de Nelson Mandela, ou no seu livro mais recente sobre a questão dos refugiados. Como se faz isso?

M.I.A. – Quando falamos para crianças e com crianças, temos de falar com verdade. Temos de usar as palavras certas mas a verdade, porque não há maneiras para camuflar a verdade. Isso acaba por ser um desafio quando se conta uma história como a da Malala ou a do Nelson Mandela. Agora, de uma forma simbólica, tento falar sobre a crise dos refugiados no livro “Diário de um Migrante”, que já está à venda em Portugal. É a história de um pássaro que também deixa a família por causa da guerra e que está no barco, a partir ainda não sabe muito bem para onde. Mas nos meus livros deixo sempre uma mensagem de esperança, é um dos cuidados que tenho quando escrevo para crianças. Uma mensagem de esperança e uma mensagem de que os heróis não estão só nos desenhos animados, que há pessoas de carne e osso que são heróis. Tento que as crianças olhem para os outros de uma forma mais especial e bonita, e que percebam que também elas podem mudar coisas e ser inspiradas pela vida dos outros.

– No meio de tudo isto, quão importante são os ilustradores com quem trabalha para os seus livros?

M.I.A. – São importantíssimos. Temos imensos bons ilustradores em Portugal e é fundamental a criança ter uma identificação com a história mas também com a ilustração, porque a ilustração acaba por ser muito chamativa. Esse casamento que tem de haver entre texto e ilustração, como qualquer casamento, deve ser um casamento de sucesso.

 

– E tem sido sempre de sucesso, no seu caso?

M.I.A. – Acho que acaba por haver um trabalho prévio, consoante o livro e o tema, antes da escolha do ilustrador. Há ilustradores que se enquadram mais num estilo, pelo seu traço. Quando vamos conhecendo o trabalho dos ilustradores, já vamos sabendo onde é que os temas e as ilustrações se encaixam para dar um belo livro.

 

– Viajemos agora de Portugal para a Ásia, começando por Bali, onde estamos à conversa. Como está a ser a experiência neste festival de Ubud?

M.I.A. – Uma experiência fantástica, agradeço muito o convite. No ano passado tinha estado cá de férias em Bali e quando saí pensei ‘quero voltar’, mas nunca pensei que fosse tão rápido. Há uma energia neste festival, é como se as pessoas que estão aqui se interessassem todas por temas que nos tocam. Gostamos de ouvir o que têm para dizer, vamos para casa e temos vontade de pesquisar mais sobre algum tema, sobre algum autor, e isso é muito interessante.

 

– Seguindo para Norte, os seus livros já estão traduzidos para algumas línguas, incluindo chinês. Como surgiu essa oportunidade de ter o livro “Quando eu for… Grande” publicado na China Continental e que livro é esse?

M.I.A. – Eu tinha uma agente chinesa e foi ela quem tratou disso. Foi publicado no ano passado e está também disponível online. Agora tenho até um site em chinês e entretanto um novo agente que curiosamente também é chinês. Espero que ele consiga publicar mais livros na China e noutras partes do mundo. “Quando eu for… Grande” é um livro muito especial, um dos meus primeiros. Foi o meu filho que me deu a ideia. Ele tinha três anos, uma vez chegámos à praia e ele disse-me ‘Mãe, onde é que está a porta da praia? Quando eu for grande vou descobrir onde está a porta da praia’. Porque tudo para ele tinha uma porta – a casa, o supermercado, a igreja, o carro. Foi uma pergunta tão bonita, tão ingénua, que eu pensei que tinha de fazer um livro sobre isto de ‘quando eu for grande’, mas não o ‘quando eu for grande’ das profissões; o ‘quando eu for grande’ porque ele desejava muito ser grande, para que acontecessem coisas. Este livro é sobre esses desejos tão simples de quando se é miúdo. Como ‘quando eu for grande vou comer todas as pastilhas elásticas’, porque a mãe provavelmente não deixa comer todas as pastilhas elásticas. Isso é muito engraçado porque, se pensarmos um pouco e recuarmos, nós desejamos sempre ser grandes – para ter a carta, para entrar numa discoteca, para um dia trabalhar e ter dinheiro. Vamos tendo sempre imenso desejo de crescer. Este livro termina de uma forma importante: quando eu for grande não me quero esquecer que um dia fui criança. Isso é muito importante: sermos grandes, continuarmos a crescer mas nunca nos esquecermos que fomos crianças e não termos vergonha de certas coisas, de continuarmos a ser crianças nessa ingenuidade e nessa leveza.

 

– Como é que convive com o facto de um livro escrito em Portugal poder chegar tão longe como a China? Alguma vez pensou que isto acontecesse, quando começou a escrever?

M.I.A. – Não, nada disso. Fiquei muito feliz com a publicação do livro na China. O meu objectivo é continuar a fazer o meu trabalho o melhor que sei, de uma forma que toque as crianças e os adultos, como nos filmes para crianças que vamos ver ao cinema e que também nos tocam a nós. Gostava que isso acontecesse com os livros.

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